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Em vez de sofrer, uma viagem à Disney! Por que não?

Redação Vilas Magazine - Em 08/10/2015

Margareth

O que é preciso para ser feliz? Acredito que muitos de nós já perdemos algum tempo refletindo sobre o quão gostaríamos de ser felizes, estabelecendo listas imensas com o que nos falta para alcançar esse estágio da vida que parece tão longínquo, por vezes até inatingível. A artesã Margaret Santos Silva, 55, é uma de nós, porém com uma diferença significativa: ela já é feliz.

As mudanças em sua vida começaram quando completou 40 anos, em 2000. Antes ela se definia como uma pessoa extremamente mal-humorada, com poucas alegrias na vida, que usava a internet como uma fuga, um universo paralelo onde era possível conversar com diferentes pessoas e fazer amizades. E foi numa dessas conversas que uma amiga virtual disse algo que a marcou profundamente: “Se você não tomar a decisão de mudar sua vida agora, possivelmente não a fará mais”. E Margaret decidiu.

Apaixonada por trabalhos manuais, Margaret trocou o emprego em um banco pelo artesanato e estimulada pela filha, criou um blog para expor seus produtos, passando a dividir com outros artesãos dicas e novidades de decoração. Com isso, descobriu um verdadeiro canal aberto onde pode espalhar sua metodologia em prol da felicidade.

Mas não foi fácil para essa baiana de Miguel Calmon, hoje moradora de Barra do Jacuípe, no litoral Norte, seguir em frente com seu plano: em 2011, Margaret descobre três nódulos malignos na mama direita. E o que ela faz? Transforma o câncer de mama em uma viagem à Disney.

O diagnóstico

“A descoberta do câncer foi um tanto inusitada. Sempre fiz meus exames anualmente, de forma bem regular. Em fevereiro de 2011, já estava com todos os exames prontos e só precisaria me preocupar com médicos em 2012, mas em setembro comecei a sentir dores no peito, na hora de dormir. Certa noite, após o ‘Bi’ (meu marido Aquiles), chamar minha atenção para o fato de eu passar parte da noite apertando o peito, decidi que na manhã seguinte iria marcar uma consulta com qualquer profissional médico que tivesse disponibilidade naquele dia.

Consegui a consulta, levei os exames anteriores e a médica disse que estavam normais e que câncer não dói, que eu me despreocupasse. Marcamos para refazer os exames, primeiro a mamografia e depois a ultrassonografia, e confesso: se ainda fosse a Margaret de antes dos 40 anos, tinha morrido ali na maca.

O médico que fez a ultrassonografia identificou a presença de nódulos, e foi de uma insensibilidade muito grande no modo de me dizer o que estava acontecendo. Mas eu já tinha decidido que não ia deixar o pavor me dominar. Minha postura, antes de mais nada, foi de retornar à médica, para que ela me desse um parecer. Eu tinha um nódulo de três centímetros de gordura, que já vinha acompanhando a certo tempo, mas agora a ultrassonografia identificou mais quatro nódulos, surgidos entre fevereiro e setembro.

O passo seguinte era fazer a biopsia, e eu estava morrendo de medo. Como não se toma anestesia eu ficava pensando na dor daquela agulha entrando no meu peito. Mas se você olhasse pra mim, aí achar que eu estava super tranquila e despreocupada. A biopsia dói, não é agradável, e quando terminou o procedimento a dor estava terrível, quase insuportável.

Quando ‘Bi’ me perguntou, na sala de espera repleta de pacientes: ‘E aí, como foi? A resposta veio de pronto: ‘Estou ótima, foi tranquilo, praticamente não dói’. Naquele momento eu não tinha o direito de deixar aquelas pessoas, que já estavam assustadas em ter que fazer uma biopsia, ainda com mais medo.

Nos 15 dias seguintes, enquanto aguardava o resultado, aproveitei a hora do banho, quando estava sozinha no chuveiro, para conversar comigo e me preparar. ‘Se for câncer o que vou escrever no meu blog? Como vou contar pra minha mãe? E se for câncer, eu não vou me abater!’.

Chegou o dia, fui encontrar a médica para saber o resultado. Na verdade, tomei o resultado da mão dela e eu mesma li. E estava lá. ‘Pronto, já sei, deu positivo, só quero que você me diga o que vamos fazer, e rápido’.

A indicação da médica foi a retirada de um quadrante e depois a quimioterapia. Mas quando pensei que em fevereiro eu tinha um e, de repente, em outubro já eram cinco nódulos, decidi que queria eliminar as possibilidades de mais surpresas futuras, e optei por tirar a mama toda”.

Sofrer ou se bronzear ?

....“Minha maior preocupação sempre foi dar a notícia pra minha mãe, na época com 75 anos. Cheguei e disse: ‘tenho duas notícias pra te dar, uma boa e uma ruim. A boa é que vou parar de fumar e não estou com câncer no pulmão. A ruim é que estou com câncer de mama, mas vou tirar o meu peito e vai ficar tudo bem’. E ela chorou bastante, mas ao poucos fui lhe acalmando. Nós temos a tendência de valorizar muito o sofrimento. Aquiles também ficou abatido, mas essa foi uma das lições que tirei da vida quando decidi ser feliz; não vou sofrer, tudo vai se resolver.

A maioria das pessoas quando recebe um diagnóstico de câncer sofre, chora, acha que vai morrer. Eu decidi que ficaria bronzeada (risos)! Fiquei imaginando a cena: eu no hospital, com aquele roupão aberto e minha bunda toda branca do lado de fora. Não! Inaceitável. Então todos os dias ia para a piscina, ficava no Facebook conversando com meus amigos virtuais, já que todos sabiam por tudo que eu estava passando, e então, me bronzeei.

Mas teve um dia nesse processo todo que eu saí do prumo. Fui ao hospital fazer mais um dos procedimentos pré-cirúrgicos, e descobri que por uma falha de comunicação entre hospital e plano de saúde, minha cirurgia não estava marcada como imaginávamos. Eu estava pronta para ser operada no dia seguinte. Foi muito complicado, várias coisas passaram por minha cabeça, chorei muito, fiquei nervosa. Por fim, no dia seguinte o médico ligou informando que a cirurgia havia sido marcada para a semana seguinte. Respirei fundo e recobrei o meu equilíbrio”.

A quimioterapia como cura

... “E aí chegou a hora da quimioterapia e duas situações ficaram marcantes: o encaminhamento para a psicóloga. Ela me perguntou como era a minha vida, meu casamento, minha família, e minhas respostas eram sempre positivas, eu não tinha queixas ou reclamações. Por fim ela me pergunta por que eu achava que estava passando por esse câncer. Bom, eu acho que o câncer veio para a minha vida para me mostrar que eu não era essa ‘coca-cola toda’ que sempre pensei que fosse (risos)! Sou exibida, sou muito convencida e me acho (risos)!


Trabalhos de Margaret estão expostos por toda a casa, tornando-a ainda mais aconchegante. A sala é um dos locais preferidos dela e do marido, Aquiles 

A outra situação está relacionada aos dias de ir ao hospital para a quimioterapia. Encarei esse processo como cura, e não como sofrimento, embora tenha sofrido muito. Me preparava para o dia da ‘quimio’: fazia roupa nova; fazia bolo e levava presentes para as enfermeiras; ia para o hospital como se estivesse indo para uma festa que ia ‘bombar’. Me arrumava toda, pintava as unhas – minha grande vaidade hoje em dia –, e levava a foto da unha sem pintar para que as enfermeiras fizessem o acompanhamento. Chegando lá queria conversar com as enfermeiras, brincar, dar risadas, ou então ficava com meus amigos do Facebook. Quando olhava para o lado um monte de gente com cara de enterro, sabe?! Mas eu sustentava minha proposta de ser feliz.

Se o câncer é ruim?! É, muito ruim! Ele interfere na sua vida e na vida de toda sua família. Mas o câncer me trouxe tantas coisas positivas que é nelas que me agarro. O câncer fez um filtro muito importante, tirando de minha vida pessoas que se diziam amigas, mas que na hora que mais precisei, simplesmente sumiram. Ao mesmo tempo, trouxe tantas mais, pessoas generosas e carinhosas, e sou muito grata a todas elas.

Todo esse processo me deu também uma imensa responsabilidade. Como compartilhei minha história de forma muito transparente, muitas pessoas me procuram até hoje, pela internet para desabafar. Pessoas querem ouvir, de alguém que já sentiu na pele o que é um câncer, o que esperar, como se preparar. E eu sempre digo: ‘não sofra por antecipação’.

Muitas mulheres ainda pensam como ficarão sem os cabelos. Gente, o cabelo nasce depois, e de repente você descobre até uma nova beleza, como é o meu caso. Não deixei mais o cabelo crescer. Hoje uso o cabelo baixinho e me livrei das químicas. Outra parte das mulheres com quem converso tem o medo de tirar o peito. Eu tirei. Aquiles foi um grande companheiro, e disse que o que realmente desejava era minha saúde. Além disso, tratado o câncer você coloca prótese, faz cirurgia reconstrutora, existem caminhos. Outra fatia das mulheres se preocupa com o sofrimento e a dor.

Desde que criei meu blog sempre compartilho meus trabalhos de artesanato e sinto um imenso prazer em partilhar minha vida com meus amigos virtuais. Quando faço um vídeo, por exemplo, minha sensação é de estar em uma roda de amigos. Todas as passagens do câncer de mama também foram publicadas, eu mostrei, inclusive, o ‘Bi’ raspando a minha cabeça quando o cabelo começou a cair. Mas, é claro, que você nunca vai agradar 100% das pessoas. Certa vez, recebi uma críti ca de que estaria transformando um assunto sério como o câncer em uma viagem à Disney. Bom, quando se está doente, você tem duas opções: sofrer ou encarar, lutar e viver da melhor forma possível. Entendo que todos nós, em algum momento, vamos morrer, então não existe moti vo para o sofrimento, logo optei por lutar e viver com alegria (risos), ou seja, optei por ir à Disney”. 

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