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Meu primeiro intercâmbio

Mateus de Souza / Folhapress - Em 14/06/2016

Crianças viajam cada vez mais cedo para estudar no exterior; veja como são os programas para estudantes a partir de 5 anos
 
“Uárer”. “No, no. Uáter”, diziam as colegas. Pronunciar “água” em inglês foi uma das dificuldades que Nina Chequer, de Fortaleza, teve que enfrentar em sua estadia na Inglaterra – além do desafio de ficar longe dos pais.
 
Em seu primeiro intercâmbio, aos 9 anos, Nina passou três semanas estudando em Brighton. Ela faz parte de um grupo cada vez maior: o de intercambistas crianças.
 
Segundo a Belta, associação de agências de intercâmbio, 20% das empresas do setor vendem pacotes para viajantes de até 15 anos –a maior parte dos programas é de curta duração, com viagens de até um mês.
 
A CI, por exemplo, oferece intercâmbio para estudantes viajarem sem a família a partir dos 7 anos – e, com os pais, para quem tem 5 ou 6.
 
Na empresa, a procura por programas para crianças cresceu 50% entre 2009 e 2014 – os mais novos a viajar sozinhos tinham 9 anos; no STB, o aumento foi de 20% só no ano passado. Neste ano, a crise econômica deve frear um pouco esse aumento.
 
A alta do dólar quase mudou a programação de Karina Barroso, 43, de mandar o filho Thiago, 13, para a Califórnia (EUA). “Como o pacote já estava fechado, mantivemos os planos. Mas já o avisei para não gastar com compras”, diz.
 
Tempo de ócio
Os intercâmbios são baseados em aulas de idiomas, mas podem incluir atividades mais elaboradas, como robótica. “Os pais querem que os filhos vivenciem a língua em seu contexto, não só na sala de aula”, diz Fernanda Semeoni, diretora da agência Experimento.
 
A professora de psicanálise da criança Adela Stoppel de Gueller, do Instituto Sedes Sapientiae, diz que o intercâmbio pode ser positivo – desde que se tomem cuidados. “É importante lembrar que férias são um tempo de ócio. Atividades o tempo todo podem sobrecarregar a criança e ela corre o risco de se acostumar a uma carga incessante de tarefas, o que não é bom”, afirma.
 
LONGE DE CASA
Pais devem avaliar maturidade dos filhos antes do intercâmbio; na viagem, rotina pode ser intensa
 
Apesar de a idade mínima para os intercâmbios estar caindo, as agências especializadas e estudiosos do desenvolvimento infantil recomendam que os pais avaliem o grau de maturidade dos filhos antes de fechar a viagem.
 
Há crianças tão independentes que até dispensam ajuda. “Lembro de um menino de 11 anos que viajou conosco e no aeroporto já tinha tudo em mãos”, conta Fabiana Fernandes, gerente da CI.
 
É pensando na autonomia de Thiago, 13, que Karina Barroso, de Salvador, o enviou para os EUA em janeiro, para ficar em uma casa de família. “O americano cria o filho de um jeito diferente; ele vai ter de lavar as roupas, os pratos, sem ajuda”, diz.
 
Mas Celia Maria Terra, especialista em saúde mental infantil e professora da PUC-SP, alerta que intercâmbios para jovens com menos de 15 anos são prematuros. “A viagem pode forçar o processo de ganhar responsabilidade de forma precoce, que a criança não estaria preparada para assumir. Ficar sem a família faz com que ela se sinta onipotente”, afirma.
 
DIA A DIA
A rotina no programa pode ser puxada. Em Brighton, na Inglaterra, Nina Chequer, 9, que ficou em um alojamento com outras 15 crianças, tinha aulas de inglês de manhã e à tarde, intercaladas com atividades – como o show de talentos, em que, dançando, tirou o primeiro lugar. Nos fins de semana, passeava.
 
“A capacidade intelectual das crianças é muito grande. Elas querem ir a fundo em assuntos que amam”, diz Christina Bicalho, sócia do STB.
 
Por isso, além de idiomas, os programas para os pequenos se diversificaram, e incluem aulas de programação, robótica e técnicas de investigação de cenas de crimes – além de esportes e dança.
 
O STB já levou dez crianças para programas de design de games, oferecidos pelas universidades Stanford e de Princeton (ambas nos EUA) para estudantes com idade mínima de 7 anos.
 
Nina Chequer, foi para Brighton, no intercâmbio
 
E o banho?
Além de atividades, há o benefício de conhecer pessoas com estilos de vida diferentes. Fabrício Ramos, 14, de Santo André (SP), tinha 12 anos quando fez seu intercâmbio, em Maidenhead (Inglaterra).
 
No alojamento estudantil, se surpreendeu com os hábitos de colegas russos e ucranianos. “Uma noite fiquei jogando tênis de mesa com eles. No dia seguinte, estavam com a mesma roupa – não tinham tomado banho e acho que só tomaram vários dias depois”.
 
Crianças que vão fazer intercâmbio em outro país podem ir com a família – em programas nos quais pais e filhos se encontram após as aulas e dormem em um hotel –, viajar com um monitor desde o Brasil ou encontrar-se com um representante da escola no desembarque. Podem ficar em casas de família ou em alojamentos.
 
São os ‘tutores’ os responsáveis por lidar com o emocional das crianças e administrar os problemas – desde a vontade de desistir, na partida, até questões cotidianas mais íntimas.
 
A monitora Rosana Lippi, do STB, teve que acalmar uma jovem que menstruou pela primeira vez durante a viagem (leia ao lado perguntas e respostas sobre essas situações).
 
‘Volunturismo’
Outra modalidade que tem recebido mais adeptos é o chamado intercâmbio social, em que o viajante participa de projetos voluntários durante sua estadia no exterior. Esses pacotes costumam ter gastos menores porque incluem hospedagem e alimentação, que podem ser trocados por trabalho.
 
Escola Clayesmore, na Inglaterra, para onde a agência Experimento envia Intercambistas
 
A Aiesec, principal instituição de intercâmbio voluntário do mundo, registrou no Brasil um aumento 23% no número de viajantes em 2014 em relação a 2013.
 
A Colômbia é há cinco anos o destino mais buscado na associação. Em outra agência especializada, a AFS Cultural, a Europa ainda é o principal destino. “Brasileiros buscam experiências diferentes da realidade em que estão inseridos – sem contar o aprendizado de inglês”, diz Daiane da Silveira, responsável pelos programas da empresa.
 
Na CI, o trabalho voluntário em família é uma tendência. A empresa oferece dois modelos: em um, pais e filhos fazem trilhas e cuidam de animais, como primatas; em outro, os voluntários fazem companhia para crianças desamparadas.
 
África do Sul (com 80% das procuras), Índia, Nepal e Sri Lanka estão entre os destinos mais buscados.
 
MEU MUNDINHO
Como funciona o intercâmbio de uma criança
 
1 De quais documentos a criança precisa? Para sair do Brasil, pessoas com menos de 18 anos precisam de passaporte, RG, uma autorização de viagem assinada pelos pais (com firma reconhecida em cartório), visto de estadia e cartões de vacinas (caso o país de destino exija), seguro viagem, medicamentos e receita médica (em inglês) para remédios de uso controlado. Também é útil que ela leve consigo uma lista de telefones úteis ou de emergência
 
2 Quem vai ficar com a criança no destino? A criança pode viajar com a família e só se encontrar com os pais à noite. Se viajar sem eles, pode ir com um grupo de crianças – que sai do Brasil com um monitor, responsável por elas durante todo o intercâmbio – ou totalmente sozinha; neste caso, um funcionário da agência é o responsável durante o voo e, no país de destino, um representante a aguarda no aeroporto; lá, ela pode se hospedar em casa de família ou alojamentos da escola
 
3 Os pais podem falar com os filhos a qualquer hora, no Brasil? Depende do programa: há escolas mais flexíveis, mas em alguns casos o uso de celular é proibido, justamente para evitar contato em excesso com o país de origem e atrapalhar as atividades da criança. O mais normal é que o contato com os pais aconteça uma vez por dia, geralmente à noite. Mesmos nos programas em família, sugere-se que cada um faça seu curso sozinho e todos só se encontrem em horas combinadas
 
4 E se a criança passar mal ou se machucar? Alguns programas contam com enfermeiros 24 horas. Os planos cobrem gastos médicos de até US$ 250 mil e priorizam os melhores hospitais – agências do Brasil relatam casos de crianças com apendicite resgatadas de helicóptero. Em eventual internação em hospital, um monitor é destacado para acompanhar a criança o tempo todo; os profissionais mantêm canais de comunicação com os pais, para avisar questões que saiam da rotina
 
5 E se a criança não se adaptar? Os monitores passam por treinamento para lidar com as questões emocionais e cotidianas das crianças, mas elas podem desistir do programa e voltar ao Brasil a qualquer momento
 
6 Durante o programa só se fala o idioma local? É a ideia, para que a criança aproveite ao máximo a experiência. Mas, em casos de emergência (por exemplo, uma dor no corpo), ela pode falar em português com o monitor.

 

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