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Viva o nada

Bruno Molinero / Folhapress - Em 14/06/2016

Nada melhor do que não fazer nada
Em pousadas brasileiras, o televisor no quarto e o sinal de celular dão espaço para cantinhos de meditação e postos de observação do mar: a regra é se desconectar
 
No nada. Era em um lugar assim, no meio do mato, sem sinal de celular, longe do trânsito, da pressão do trabalho e dos motivos que o levaram a um quadro de arritmia cardíaca, que o advogado gaúcho José Henrique Costa, 52, pretendia passar as últimas férias. “Queria um destino em que pudesse manter algumas práticas que comecei depois que tive um quadro grave de estresse, como ioga, meditação e nadismo, que conheci pela internet”, diz.
 
Nadismo é um movimento que, como diz o nome, consiste em incentivar pessoas a passar algumas horas fazendo, literalmente, coisa nenhuma. Nada mesmo, lhufas, patavina – basta ficar sentado ou deitado e se colocar em estado de inatividade. Quanto mais inútil, melhor.
 
“As pessoas se sentem culpadas quando não fazem nada”, afirma o designer Marcelo Bohrer, de Porto Alegre, que em 2006 criou o Clube de Nadismo, grupo que hoje conta com 7.000 membros (leia mais na pág. ao lado).
 
Para ele, uma viagem pode ser o momento ideal para isso. “É quando estamos sem compromissos e podemos nos desconectar. Sentimos que ‘perder’ tempo não é um problema. Se tirarmos duas horas para só ficar olhando a paisagem, aposto que esse vai ser o momento mais lembrado das férias.”
 
A ideia vai contra o modelo clássico das agências de viagem, com programações fechadas e agendas lotadas que fazem muitas vezes o turista voltar mais cansado do que partiu. Mesmo assim, transformou-se no modelo de negócio de algumas pousadas. Elas atraem pessoas ávidas por repouso com quartos sem TV, espaços para descansar, cantinhos da meditação e restrições a celular e internet.
 
“É um nicho de mercado. A parcela da população que não quer agito é carente de opções”, conta Sirlene Terenciani, proprietária da pousada Shangri La, em Serra Negra (SP), que oferece espaços para os hóspedes ficarem deitados, só olhando as curvas da serra da Mantiqueira.
 
Pelas redes sociais, ela incentiva o nadismo. “Comecei com isso quase ao mesmo tempo que o Marcelo Bohrer. Acho que era uma energia que estava no ar naquela época”, diz Sirlene.
 
O perfil é reproduzido em outros lugares. Na pousada Luz e Paz, em Bragança Paulista (SP), há espaço para observar a natureza e os quartos não têm TV, para incentivar que as pessoas conversem.
 
Na praia do Rosa, em Santa Catarina, Regina Haleva, fundadora da Fazenda do Rosa, propõe ao hóspede praticar nadismo nos jardins, que ficam de frente para o mar. Também convida os clientes a acordarem antes das 6h para ver o nascer do sol.
 
Hóspede observa paisagem, na pousada Shangri La, em Serra Negra (SP)
 
“O ser humano vive em uma correria desenfreada e transporta isso para as viagens. Tem gente que, antes de sair de férias, faz um cronograma, estabelecendo o que vai fazer em cada horário. É loucura”, defende. Até poucos anos atrás, a pousada não tinha TV nem internet nos quartos. “Tivemos que colocar por causa da concorrência. Mas estou planejando em dar um desconto para o hóspede que não trouxer celular ou deixá-lo na recepção durante a estadia.”
 
Para Bohrer, porém, não é preciso se esconder no mato ou em uma praia deserta para fazer nadismo. Ele defende que a mudança depende do comportamento, e não do destino. Mesmo em Nova York, São Paulo, após um dia cheio de passeios, é possível sentar-se em um café e ficar observando as pessoas.
 
“Mas na praia é mais fácil, né?”, diz o advogado Costa. Ele alugou uma casa em Garopaba (SC), onde passou praticamente todo o mês de julho passado sem celular e com uma rotina de exercícios de respiração pela manhã e contemplação do mar após o almoço. Na volta, tinha mais de mil e-mails não lidos. “E uma incrível paz de espírito.”
 
Eu só quero amar
Retiros espirituais motivam viagens em busca da felicidade e paz interior; atividades incluem meditação, reflexões em grupo ou até ficar dez dias sem falar
 
É sábado de sol em Serra Negra, cidade a 139 km de São Paulo, e turistas aproveitam o dia aberto para visitar lojas em busca de artigos de couro, roupas e acessórios.
 
Perto dali, em um terreno de 145 mil metros quadrados de mata nativa, cerca de 40 pessoas chegam à conclusão, entre uma meditação e uma reflexão em grupo, de que dinheiro (e tudo o que ele pode comprar) não traz felicidade.
 
Quase todos são de fora da cidade – a maioria vem de São Paulo, mas também há integrantes do Rio – e trocaram o fim de semana na praia ou outro bate-volta para participar de um retiro espiritual cujo tema é “Os 9 Segredos de Manter-se Feliz”.
 
“Eu sou um ser de luz. Eu sou um ser de paz. Meus pensamentos desaceleram e saboreio a beleza da paz interior, conforme meu mundo é preenchido de paz.” As frases, e variações delas, são faladas pausadamente por Luciana Ferraz, coordenadora no Brasil da Brahma Kumaris, instituição que organiza o retiro – enquanto isso, participantes escutam de olhos fechados e tentam meditar.
 
A programação, que dura dois dias, inclui palestras sobre felicidade e sessões de meditação. O alojamento é em quarto coletivo, e todas as refeições são feitas no local.
 
Para Gen Kelsang Tsultrim, professor do Centro de Meditação Kadampa, que oferece retiros espirituais em Cabreúva e outras cidades do interior, as experiências não deixam de ser turismo. “Afinal, as pessoas saem de casa. Mas é uma viagem diferente, com conteúdo espiritual.”
 
As regras variam dependendo lugar. Na Brahma Kumaris e no Kadampa, os participantes podem usar o celular e a internet, embora os organizadores peçam que isso seja evitado ao máximo. Em ambos, a alimentação é vegetariana.
 
Participantes do retiro da Brahma Kumaris, em Serra Negra (SP), em dinâmica de grupo
 
Há opções que oferecem atividades com regras mais estritas. Nessas, os visitantes podem ser proibidos até de conversar durante todo o período de retiro, que pode passar de dez dias.
 
É o caso do Centro de Meditação Vipassana, que oferece atividades em Monteiro Lobato (SP). Nele, as pessoas acordam às 4h e participam durante todo o dia de sessões de meditação, sendo que em algumas delas é proibido até se mexer.
 
“Você fica extremamente cansado no fim do dia de retiro. Sem conversar, percebemos como nossa mente é barulhenta, como aparecem imagens e frases das quais não nos damos conta no dia a dia lá fora”, conta o estudante Paulo Lopes, 24.
 
Ele nunca tinha meditado antes de participar de dez dias de retiro – nem tinha ficado tanto tempo sem falar.
 
O preço também muda. Na Brahma Kumaris e no Vipassana, as contribuições são voluntárias. Um retiro de três dias, no fim de dezembro, com hospedagem e alimentação, saiu por mais de R$ 1.000 – caso do Kadampa. O perfil dos participantes varia, atraindo de budistas experientes a curiosos.
 
“É sua primeira vez aqui? Não é à toa que você veio. Passar por uma experiência dessas é como estar em ‘Matrix’: você tem que optar entre a pílula azul e a vermelha”, garantiu Marcella Menicucci, 52, no retiro em Serra Negra, fazendo uma analogia à cena do filme em que o protagonista opta por entrar num universo paralelo.
 
“É um caminho sem volta.”
 
Nas regras do nadismo, é proibido dormir
 
O próximo passo do Clube de Nadismo, pelo menos no que se refere ao turismo, é criar um programa de capacitação de hotéis e pousadas, e de seus funcionários, para que possam auxiliar hóspedes na arte de ficar de pernas pro ar.
 
“A ideia é mostrar como é fácil praticar: basta um lugar tranquilo. Tem muita pousada que se interessa pelo tema, mas não sabe como começar ou se pode usar o nome, por exemplo”, afirma Marcelo Bohrer, criador do movimento “nadista”.
 
O gaúcho, que mora e trabalha em Munique, na Alemanha, desde 2014, começou a divulgar suas ideias em Porto Alegre, em 2006, após ir parar no hospital por exaustão.
 
Ele organiza encontros, sem periodicidade definida, nos quais os participantes ficam deitados por uma hora com o único objetivo de não ter objetivo algum. Bohrer escolhe um lugar tranquilo e monta uma espécie de cubo branco, feito de pano. Em volta dele, estende colchonetes para que as pessoas possam desfrutar – dormir é fazer algo, então não é permitido.
 
O movimento se espalhou, e foram organizadas atividades em cidades do Brasil, dos Estados Unidos e da Europa. Hoje, o Clube de Nadismo tem mais de 7.000 sócios, de diferentes países, envolvidos nesses eventos.
 
O salto para aliar a prática ao ato de viajar é quase natural para Bohrer, que viu a mãe se casar com um piloto de avião quando era criança e começou a rodar o mundo. “Como divido meu tempo entre o trabalho de designer e a divulgação do nadismo, as coisas são lentas. Mas a cartilha para o setor de turismo deve sair em breve.”
 
Enquanto a papelada não é publicada, ele dá dicas: “Não é preciso cancelar os passeios ou as visitas programadas. É só separar duas horas do dia para desacelerar. O ideal é fazer isso em um lugar sem muito barulho, com uma vista bonita, ou deitado, olhando o céu. O importante é parar por alguns instantes.”
 
 
LOCAIS PARA SE DESCONECTAR
POUSADA LUZ E PAZ: Bragança Paulista (SP). Diária a partir de R$ 264 (quarto duplo, com mínimo de dois dias). Atrações: redes em frente aos quartos e locais para apreciar a vista; templo construído para a prática de meditação; os quartos não têm televisão. Contato: pousadaluzepaz.com.br
SHANGRILA: Serra Negra (SP). Diária a partir de R$ 360 (valor para suíte, no fim de semana, com mínimo de dois dias). Atrações: local para apreciar a paisagem da serra da Mantiqueira, próximo aos jardins, e fazer nadismo; espaço para massagens. Contato: shangrila.com.br
MEVLANA GARDEN: Imbituba (SC). Diária a partir de R$ 404 (mínimo de três diárias). Atrações: horários para meditação, ioga, pilates e tai chi chuan para os hóspedes, inclusos no valor da diária. Contato: mevlanagarden.com.br
UNIQUE GARDEN: Mairiporã (SP). Diária a partir de R$ 1.775 (suíte, com mínimo de dois dias). Atrações: banco da contemplação, próximo ao lago; há um livro para hóspedes escreverem ou desenharem sobre seus sentimentos; massagem de boas-vindas. Contato: uniquegarden.com.br
FAZENDA DO ROSA: Imbituba (SC). Diária a partir de R$ 2.890 (pacote para sete dias). Atrações: jardim de frente para o mar, onde pode-se ficar de pernas para o ar; dona da pousada convida hóspedes para assistir ao nascer do sol na praia. Contato: fazendaverdedorosa.com.br
 
ATENÇÃO: Preços de dezembro/15. Para atualizar valores, consulte o site das pousadas.

 

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