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A palavra

Jaime de Moura Ferreira - Em 17/08/2016

A existência do ser humano está relacionada a um conjunto de ideias, ações e comportamentos, que lhe credencia interagir com sua própria realidade e na sociedade onde vive. No entanto, também existem profundas inquietações que sufocam sua alma e ele tem de superá-las. Internamente, é acionado por dois polos distintos e a realidade da sua existência dependerá do relacionamento harmonioso desses polos.

Para promover relações humanas e se expressar com os demais seres viventes, o ser humano necessita da palavra. Ocorre que esta, com a mesma semelhança dos polos, se apresenta de duas formas antagônicas: bálsamo e espada afiada. Bálsamo, quando a palavra conforta, alivia, apoia e transmite segurança para os que a recebem; espada afiada quando fere, desorienta, magoa, ataca e ofende seus semelhantes. Assim, a palavra reflete elevado poder de sugestão, afetando e influenciando, profundamente o ouvinte.
 
Dessa forma, o ser humano deve usar a linguagem adequada, com imagens sugestivas, em bases éticas e valores morais, em plano de elevada consciência, para atingir sua sabedoria intuitiva e promover o caminho da linguagem da realidade, para seus ouvintes. É muito importante reconhecer padrões, fluxo contínuo da sinceridade, bem como a tradução do que se vai transmitir, para o uso correto das palavras.
 
Geralmente, as pessoas que recebem a palavra têm dificuldade para decodificar o seu significado, quando não possuem os mesmos valores éticos, morais, culturais, religiosos, etc. do emitente e, por isso, podem desvirtuar seu sentido. Para se evitar agravos, o emissor deve ter a percepção do mundo ambiente, o respeito pela compreensão e o alcance de sua linguagem.
 
O ambiente social, de modo geral, é modelador da palavra. No entanto, ela depende muito da emoção, comportamento e alteração fisiológica do emissor. O difícil é definir e controlar esses sentimentos. A percepção é o ponto de partida para a compreensão. Por isso, a compreensão deve ser bilateral.
 
Assim, o ser humano, através do controle de procedimentos, pode equacionar seus sentimentos e exercitar a razão, no momento de proferir a palavra. Sem dúvida, este exercício depende de muitos conhecimentos acumulados, principalmente os espirituais, que aprimoram os campos de observação, conhecimento e compreensão.
 
Outro aspecto de elevado valor, na configuração da palavra, é a ausência do preconceito, seja de qualquer tipo e segmento. De modo geral, o emissor possui um padrão definido, no seu plano mental, e deseja que seu interlocutor tenha padrões semelhantes ao seu. Daí surge o preconceito de um ser humano para com o outro. O ideal seria que o emissor tivesse a curiosidade e a responsabilidade humana para entender e compreender os sentimentos e atitudes do decodificador.
 
Essa compreensão seria o embasamento para o conhecimento e aceitação humana. Esse comportamento promoveria melhores relações humanas na sociedade. Até ocorre, por descuido, o cometimento de uma falha. Porém, ao percebê-la, o emitente deveria, de imediato, corrigi-la. Se assim não fizer, ele estará promovendo a humilhação para o decodificador e, consequentemente, um mal-estar.
 
A palavra possui energia, por isso, tem força. A sua duração depende da ação do emitente e da aceitação do decodificador. Nesse aspecto, a palavra pode trazer felicidade, prosperidade, elevação e sucesso, ou, tristeza, desventura, dilapidação e negatividade. Oscar Wild (16/10/1854 e 30/11/1900) deixou-nos duas pérolas sobre o assunto: “se soubéssemos quantas e quantas vezes as nossas palavras são mal interpretadas, haveria muito mais silêncio neste mundo” e “Se você não consegue entender o meu silêncio, de nada irá adiantar as palavras, pois é no silêncio das minhas palavras que estão todos os meus maiores sentimentos”.
 
Ainda, o padre Fábio de Melo (sacerdote católico, cantor, compositor, poeta, escritor e professor) registrou: “Palavras erradas costumam machucar para o resto da vida, já o silêncio pode ser a resposta de muitas perguntas”.
 
Os sábios meditam sobre a sociedade e a natureza, mas, principalmente, sobre como entender a alma humana, sempre mais complexa. Dessa forma, busca “conhecer a si mesmo”, “conhecer a ocasião oportuna”, “ o que é bom ou mau”, e “entender que nada é melhor do que moderação”, para liberar a palavra. Só sabiamente caminhando se chega à sabedoria.
 
Porém, “quando se precisa falar muito para se dizer algo, é porque ou o saber ainda não alcançou sua plena maturidade, ou se está dissimulando” (I Ching). Portanto, deve-se escutar mais que falar. Segundo Dalai Lama “A arte de escutar é como uma luz que dissipa a escuridão da ignorância”.
 
O último aspecto que se remota à palavra é o amor. Para se realizar essa aspiração é necessário que o ser humano não esteja impregnado de rancores, ódio e dissabores com o semelhante e, na maioria das vezes, consigo mesmo. Então, as palavras devem ser emitidas nas dimensões e realidade de sua existência, pois, assim, atingirá à compreensão do ouvinte.
 
“A demonstração de amor requer mais do que beijos, sexo e palavras. Sentir-se amado é sentir que a pessoa tem interesse real na sua vida”. (Arnaldo Jabor, jornalista, cineasta, crítico e escritor).
 
Jaime de Moura Ferreira
Administrador, consultor organizacional, professor universitário, escritor, sócio fundador do Rotary Club Lauro de Freitas. E-mail: jamoufer@atarde.com.br

 

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