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Dom, 02.02.2014

Escultor dos Orixás

Thiara Reges - Em 03/01/2017

O escultor trabalha no resgate dos ancestrais africanos
 
Dona Etelvina e dona Marleide, avó e mãe respectivamente, procuravam pelo pequeno menino com cara de indiozinho. Rodrigo simplesmente de vez em quando sumia. Com quatro anos, era natural que estivesse nas cercanias brincando com o irmão mais velho e os primos. Mas não! Sob o assoalho da casa de madeira, Rodrigo se debruçava sobre uma folha de papel onde desenhava pessoas e paisagens, outras vezes os pequenos macacos que alegravam o sítio onde morava, na ilha Parintins, no Amazonas.
 
Assim começa a história de Rodrigo Siqueira, 35, com as artes.
 
Autodidata, passeia facilmente pelas mais diversas expressões e materiais, desde esculturas de barro e metal fundido, a cenografia para televisão e grandes alegorias para o Carnaval. Hoje dedica maior parte de seu tempo pesquisando a ancestralidade africana que, consequentemente, é retratada em sua arte.
 
A arte sacra é uma manifestação artística que traduz religiosidade. Mas não diferente de outras expressões artísticas, revela também traços da história e cultura de um povo. A arte sacra afrobrasileira desenvolvida por Rodrigo se destaca pela riqueza dos detalhes, expressões faciais, realismo e proporções adequadas, sem os exageros comumente vistos ao tentar retratar o povo africano, como lábios e quadris extremamente grandes. “Quem conhece e vive a história dos orixás consegue compreender todas as nuances de minhas peças, e principalmente, sente que aquela imagem lhe representa. O leigo passa a conhecer de forma bela”.
 
Yemanjá negra
Quando as pessoas veem pela primeira vez estranham, mas não de forma negativa.
 
Por retratar ancestrais africanos, nada mais natural que suas pinturas e esculturas tragam orixás negros. E assim é com Yemanjá, a rainha das águas, conhecida popularmente por sua pele branca e vestido azul.
 
O despertar para esse resgate da ancestralidade africana através das artes se deu quando da sua iniciação no terreiro Casa de Songo Ilê Oba Otito, há 17 anos, em Manaus, Amazonas, mas o amadurecimento e materialização do projeto só aconteceria 12 anos depois, com apoio de seu companheiro, o antropólogo Vilson Caetano. Juntos, fundam a Brasil com Artes, empresa de arte e educação com objetivo de pesquisar e resgatar a história, cultura e essência das matrizes africanas. Como resultados, já lançaram publicações dedicadas às crianças, além dos livros Ara Mi Meu Corpo e Na Palma da minha mão, que versam sobre cultura e comidas, e a exposição Ori Orixá, cabeças de 18 ancestrais africanos, que já esteve em exposição em Salvador e Lauro de Freitas.
 
“Quando me iniciei no candomblé percebi que os artistas brasileiros não haviam se debruçado muito sobre cristalizar essa ótica afro-brasileira; no decorrer destes mais de 500 anos não dedicaram um olhar para essa cultura, essa memória da ancestralidade africana, que está espalhada de Norte a Sul do país”.
 
Mas as obras de Rodrigo começaram a ganhar espaços além dos livros e exposições. Procurado por pais e mães de santo, Rodrigo iniciou um processo de transformação nos terreiros de candomblé através de esculturas e ferramentas, talhadas a partir do resultado das pesquisas de resgate da identidade afro-brasileira.
 
“Os terreiros de candomblé não consomem mais dessa arte sacra africana por não ter quem as faça. Só tenho conhecimento de três pessoas que se dedicam a esse resgate no Brasil, e uma delas sou eu. Minha função enquanto artista é dividir, não apenas com as comunidades terreiros, mas com toda sociedade, esse conhecimento sobre a cultura afro-brasileira”.
 
Oxum, musa inspiradora
Todo artista tem sua fonte de inspiração, muitas mulheres entraram para a história como musas inspiradoras. Para Rodrigo a inspiração vem dos orixás, mais precisamente de Oxum, que no terreiro Ilê Oba L’Oke é retratada grávida. “Na minha religião, Yemanjá é meu alicerce, Oxoguian minha vida e Oxum minha Inspiração. Construindo a minha arte a partir da história temos que Oxum foi a primeira pediatra, que cuida da criança desde quando é concebida até o seu nascimento. É o orixá que representa a fertilidade, rege tudo que é cíclico, que cuida de tudo que nasce.”
 
A primeira vez que veio para Bahia foi à passeio, para conhecer a festa de Santa Bárbara, em Salvador. Gostou tanto que retornou mais quatro vezes, até que se apaixonou, casou, e por aqui ficou, mais precisamente em Lauro de Freitas. Desenvolvendo a sua arte, Rodrigo já conquistou um importante espaço nos terreiros de candomblé, não apenas no município. Suas obras estão espalhadas por Camaçari, Salvador, Cachoeira, Maragogipe, Muritiba, além do Rio de Janeiro, São Paulo, Amazonas, Amapá, Distrito Federal, Minas Gerais, e até em dois terreiros em Portugal.
 
Sua história com as artes ainda registra uma passagem pela publicidade, com cinco prêmios nacionais de criação e por escolas de samba do Rio de Janeiro e São Paulo, como Vila Isabel, Estácio de Sá, Portela, Grande Rio, Porto da Pedra, Nenê de Vila Matilde e Camisa Verde e Branco, onde ganhou o prêmio de Carnavalesco Revelação, da Liga das Escolas de Samba de São Paulo, no Carnaval 2002, quando tinha apenas 20 anos.
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