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A servidão voluntária

Helington Rangel - Em 07/03/2017

No meado do século 16, o filósofo francês Étienne de La Boétie, morto aos 32 anos, disseca, no panfleto “Discurso da servidão voluntária,” o estranho fenômeno de homens que abdicam da própria autonomia de pensar para acompanhar a cabeça alheia, comportando-se segundo o mestre ordenar.
 
A produção literária mais famosa de Étienne de La Boétie foi escrita no final da adolescência, em 1548, após a derrota do povo francês contra o exército e fiscais do rei, taxando novo imposto sobre o sal.
 
O texto tornou-se oração à liberdade, com reflexões sobre fatores de dominação da maioria por pequeno grupo, da opressão.
 
Na obra, o autor medita sobre a possibilidade de cidades inteiras submeterem-se a vontade de um governante, evento que somente pode transformar-se em realidade mediante a servidão espontânea.
 
Na formulação dele, são os próprios homens que se permitem dominar, pois, caso aspirassem ao retorno da liberdade, necessitariam rebelar-se para reconquistá-la.
 
Na visão de Étienne de La Boétie, a tirania implode quando indivíduos reagem contra sua própria escravidão. Como a autoridade constrói seu domínio com a obediência consentida dos oprimidos, a estratégia de resistência sem violência é palpável, organizando coletivamente a recusa de curvar-se à vassalagem.
 
Ele enumera a maneira como os povos podem subjugar-se voluntariamente ao governo de um só homem: em primeiro lugar, pelo hábito, pois quem está acostumado à serventia tende a não questioná-la; em seguida, pela religião ou pela superstição, que se forma em torno da figura do líder.
 
No entanto, não são exclusivamente esses dois métodos os elementos indispensáveis para conceber a escravidão não forçada: o segredo da dominação consiste como envolver o poviléu na estrutura piramidal do poder, sem protesto.
 
Sob a ótica de Étienne de La Boétie na sua época, os camponeses e artesãos eram, em certo sentido, mais livres e felizes: após cumprirem as ordens do mandachuva, podiam investir o resto do tempo como desejassem.
 
Já os cortesãos, gravitando continuadamente em torno do soberano, ficavam distanciados da liberdade.
 
Ao esmiuçar de forma abrangente a dependência, Étienne de La Boétie capta que existe na própria alma humana o germe da lógica da natureza: no reino animal, todos estimam a liberdade e se recusam a servir – e quando o fazem é por imposição, daí nenhum homem ter motivo para viver submisso.
 
Depois de 439 anos da sua divulgação, o escrito do humanista francês carrega ainda vigor intelectual capaz de auxiliar no diagnóstico sobre a tradição de o povo brasileiro sentir-se orgulhoso ou envaidecido da sua peculiar mansidão e passividade, falta de nexo para quem convive com um Estado revestido de gatunos astuciosos.
 
HELINGTON RANGEL é professor universitário, economista e jornalista
helingtonr@gmail.com

 

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