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Água: como se não houvesse amanhã

Carlos Accioli Ramos (Diretor - Editor) - Em 03/04/2017

Água: como se não houvesse amanhã
Nesta terra, “em se plantando tudo dá” – escreveu Caminha. Talvez tenha sido essa a deixa para o desperdício, a mensagem precursora da cultura da abundância que está enraizada nos hábitos do povo brasileiro. O português nunca tinha visto tamanha fartura, entenda-se. Sempre na mesma toada, os seus descendentes trataram os recursos naturais do novo mundo como se fossem inesgotáveis.
 
Agora que a escassez de água bate à porta das grandes cidades é que se passa a pregar a racionalidade. Uma das propostas a que damos voz nesta edição, destacando o desafio da água, é implantar uma “política da escassez” para dar combate à cultura da abundância.
 
Não se trata de fornecer à população toda a água que ela deseja utilizar – e desperdiçar. Trata-se de consumir apenas a água que for possível fornecer. E isso precisa ser equacionado levando-se em conta o equilíbrio ambiental, não apenas a disponibilidade de mananciais que venham a ser esgotados até a última gota.
 
A destruição do rio Joanes a jusante da barragem do Jambeiro vem sendo justificada pela necessidade de manter o reservatório cheio, destinando a água ao abastecimento humano. Vigora aí a lógica da exaustão de recursos no esforço de fornecer tudo o que a demanda exige, quando o correto seria distribuir apenas o que os mananciais podem oferecer.
 
Se pudesse antever o que fariam os seus descendentes com tamanha fartura, Caminha teria acrescentado à sua carta uma recomendação mais lusitana: “em se poupando tudo haverá”. Mas é como dizia Agostinho da Silva, o filósofo: o brasileiro é um português à solta – e gasta água como se não houvesse amanhã.
 
Educação
As imensas dificuldades financeiras da administração pública (muitas vezes dilapidadas por gestões comprometidas muito mais com interesses pessoais), em todas as esferas, explicam o abandono da rede de ensino, mas não justificam o adiamento de soluções. Há o que se pode deixar para depois e há o que precisa ser resolvido agora, seja por imperativo social seja porque o calendário não perdoa. O início do ano escolar é uma dessas espadas sobre a cabeça dos gestores públicos e não pode esperar por uma intervenção divina.
 
A distribuição de culpas pode até aliviar o fígado dos que devem soluções efetivas, mas não produz resultados práticos nas salas de aula. Nem nos refeitórios das escolas públicas, que têm função social elementar no combate à fome e não podem depender apenas de beneméritos que se substituem ao Poder Público.
 
Guerra urbana
Tiroteios com direito a balas perdidas passaram a fazer parte do cotidiano de Lauro de Freitas há alguns anos já. A intensificação da guerra urbana – travestida de solução no combate à violência – vem agravando o cenário. Agora o mundo cão que a classe média tanto se esforça por ignorar, no intuito de não poluir um idílio a duras penas construído, chegou ao “lado de cá” da Estrada do Coco. Janelas perfuradas por balas disparadas na região da avenida Luiz Tarquínio deixaram de ser uma possibilidade para se tornar realidade.
 
Em grande medida, tudo isso decorre de que nos comportamos como selvagens, permitindo que a violência urbana seja tratada como um conflito armado a vencer. Não é assim.
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