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A terapia do crochê: A arte que promove a troca de carinho através de pequenos polvos

Thiara Reges - Em 01/06/2017

Um novelo de linha e uma agulha. Mais que um bordado, o crochê, que tem sua origem desconhecida, mas que ganhou grande destaque na Europa a partir do século 16, está presente em vários lares na forma de decoração, roupas, como fonte de renda e até mesmo como passatempo. Mas nos últimos meses o crochê tem chamado a atenção por outro motivo: a terapia. Hospitais em todo mundo têm adotado o uso de pequenos polvos, feitos de crochê, para auxiliar no tratamento de crianças prematuras. E a novidade já chegou aqui na Bahia, ganhou força e novos contornos, unindo pessoas com diferentes histórias.
 
Eliana Souza, 38 anos, nunca teve muita afinidade com o crochê. “Na verdade, quando via minha mãe fazendo dizia que era coisa de velho”. Mãe de dois filhos, foi assistindo a uma reportagem que se encantou pelos polvos. “Acessei a Internet e busquei sobre o tema, encontrei aulas em vídeo e fui aprender os pontos do crochê para fazer os polvos”. Sua motivação estava presente na memória: o filho mais novo, hoje com cinco anos, teve complicações e precisou ficar na encubadora. “Eu não podia pegar meu filho, não podia amamentar, então consigo perceber como o polvo pode ser importante neste momento”.
 
Já Ingrid Guimarães, 27 anos, viu sua vida mudar por completo nos últimos dois anos. Ela é mãe da pequena Nicole, de 1 ano e cinco meses, portadora de microcefalia. “Tive que fechar minha loja, meu marido precisou adequar suas atividades e nossa rotina hoje é dedicada aos cuidados que Nicole tanto precisa no seu desenvolvimento”. Ingrid participa da Ong Abraço, que acolhe famílias de crianças com microcefalia, promovendo a aceitação da síndrome, além da assistência através das doações de latas de leite e outros itens. Hoje são cerca de 150 crianças cadastradas.
 
“Ficamos muitos felizes quando descobrimos que já existem artesãs produzindo os polvos aqui em Salvador, com a proposta de expandir o uso, não apenas aos prematuros, mas visando outras crianças também, como minha Nicole. O polvo vai agir diretamente no sensorial da criança, além de todo afago, por ser feito de forma tão carinhosa”, diz Ingrid.
 
Rita de Cássia, 32 anos, é uma das artesãs citadas por Ingrid. Enfermeira por formação, Rita começou a fazer o crochê com nove anos. O bordado é algo muito presente em sua família. O pai funcionário público e a mãe dona de casa tinham nos bordado o complemento necessário para organizar todas as demandas da família. Foi superando um grave problema de saúde que Rita percebeu que um novelo de linha e pontos cuidadosamente feitos com uma agulha poderiam ser o elo condutor de carinho entre as pessoas. Assim nasceu o projeto Quero Abraçar esse Polvo.
 
QUERO ABRAÇAR ESSE POLVO
O início foi tímido, reunindo amigas e divulgando a ideia no boca a boca. Com um projeto debaixo do braço, Rita ia em hospitais e ongs na busca de parcerias. Através de uma publicação no Facebook, pedindo doações de novelos e oferecendo oficinas para ensinar o crochê, o projeto ganhou força e novas demandas surgem diariamente.
 
A ideia de usar polvos de crochê como terapia para crianças prematuras surgiu na Dinamarca, em 2013, quando a mãe de uma criança prematura fez o primeiro polvo. As melhoras na criança foram perceptíveis, e a arte foi passando de mãe para mãe, até ganhar toda Europa.
 
Estudos do Hospital Universitário Aarhus identificou melhoras nos sistemas respiratório e cardíaco dos bebês, além de um aumento dos níveis de oxigênio no sangue. Ao abraçar o polvo, os recém-nascidos se sentem mais calmos e protegidos. Os tentáculos remetem ao cordão umbilical e ajudam a passar uma sensação de segurança.
 
O projeto chegou no Brasil através da ONG Prematuridade, e hoje os polvos já alcançaram todo o país. “Se foi tão importante para mim, por que não levar para outras pessoas que também estejam em momentos de fragilidade e ainda mais, levar carinho para crianças. Os prematuros estão em um momento que requer um cuidado extremo, mas todas as crianças, sejam as com microcefalia, Down, abandonadas em orfanatos, todas precisam de amor”, frisa Rita.
 
Apesar de seguir os mesmos parâmetros do projeto dinamarquês (Octo Project) quanto às normas para a confecção dos polvos, Rita percebeu na arte a possibilidade de ampliar a quantidade de pessoas beneficiadas. “O crochê é uma arte belíssima, e através desse polvo podemos proporcionar a troca de amor entre as pessoas.
 
No caso da Ong Abraço, começamos as oficinas no dia 25 de maio, e as mães, que na sua maioria precisaram abandonar por completo suas profissões, além dar o polvo para seu filho, auxiliando ainda mais no seu desenvolvimento, tem a oportunidade de fazer uma atividade que acalma a sua mente, e quem sabe, transformar isso em uma nova fonte de renda”, complementa.
 
 
O projeto tem apenas dois meses de atividade, mas já expande seus tentáculosos: Vitória da Conquista, Jequié e Barreiras já implantaram o uso dos polvos como terapia com crianças prematuras, fazendo os estudos para verificar o desenvolvimento delas, bem como o controle de infecções, um dos itens mais discutidos pelo Ministério da Saúde. “O protocolo de higienização é algo imprescindível nesse processo, sobretudo quando o destino dos polvos são crianças prematuras. Cada hospital tem seu protocolo, que deve ser seguido e respeitado”, lembra Rita.
 
Com o crescimento da demanda, as oficinas de crochê seguem a todo vapor. Com turmas de no máximo 10 alunos, Rita ensina o bordado para pessoas que já tem algum conhecimento básico e também àquelas que nunca tiveram contato com o crochê, mas que se encantam pela possibilidade de fazer o bem. Hoje o projeto já conta com 60 artesãs em Salvador e Região Metropolitana. Interessados em colaborar, mas não levam muito jeito para o bordado, podem participar doando novelos de linha, por exemplo.
 
“Cada pedacinho que puxamos desse novelo nos desabafa novas histórias”, declara Rita, que quer ir longe. “Nossas próximas metas apontam chegar nas crianças em tratamento de câncer, suas família, em lares de idosos, onde o crochê possa demonstrar para cada pessoa como seus conhecimentos, seu tempo e seu carinho são úteis”, finaliza.
 
AS RESSALVAS
Apesar dos resultados amplamente difundidos por toda mídia, o Ministério da Saúde não recomenda o uso dos polvos de crochê em hospitais. Em nota publicada em abril, as principais ressalvas são para um possível interrompimento do Método Canguru, instituído no Brasil desde o ano de 2000, e que busca sempre o envolvimento dos pais e famílias; o caráter puramente lúdico, onde qualquer brinquedo teria o mesmo efeito; e o grande risco de infecções.
 
A médica pediatra Rosane Azevedo ressalta que apenas os estudos poderão comprovar a eficácia dos polvos, porém a iniciativa é válida. “Já está comprovado que crianças na incubadora, quando colocadas na posição que se assemelha à posição que ela estava dentro do útero, se acalmam. Da mesma forma acredito que as pesquisas vão confirmar que os tentáculos do polvo exercem efeito benéfico nas crianças por sua semelhança ao cordão umbilical”, destaca.
 
Quanto à expansão do projeto, abraçando também crianças com algum comprometimento neurológico, além daquelas em tratamento de câncer, Rosane destaca que o conceito muda, mas o resultado final continua sendo positivo. “O toque, o estímulo, para crianças em geral, ou crianças que tenham alguma deficiência neurológica, como é o caso da microcefalia, é fundamental no desenvolvimento; quanto mais estimular, mais as crianças vão se desenvolver. O polvo para essas crianças vai atuar tanto de forma lúdica como terapêutica”, finaliza.
 
Para doar materiais ou participar das oficinas siga o Projeto nas redes sociais (@queroabracaressepolvo), ou faça contato pelo telefone (71) 99191-0408.
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