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A vergonha

Jaime de Moura Ferreira - Em 04/08/2017

Embora a vergonha seja uma emoção e, muitas vezes, transfigura a consciência humana, parece que nem todos os seres racionais exercitam essa dádiva.
 
O que leva o ser humano a não se envergonhar de algumas de suas práticas fora dos padrões sociais? Vários apresentam suas atitudes, princípios e valores de forma extravagante, identificando o não exercício desse donativo divino. Alguns até se conscientizam do que estão fazendo.
 
A maioria exibe atos que ferem a si, aos outros ou ao seu grupo, achando normal sua maneira, muitas vezes desconhecendo essa expressão humanitária.
 
Sem dúvidas, a vergonha é uma comoção e pode contribuir para a evolução social dos humanos, quando a ela é reconhecida. Certas pessoas exercem suas atividades dentro de normas e princípios estabelecidos, tendo vergonha de ultrapassá-los. No entanto, outras atuam sem qualquer escrúpulo ou pudor, se expondo publicamente, não levando em consideração que o pudor faz parte da vulnerabilidade humana.
 
A vergonha poderá ser provocada pela pessoa ou por outras. Quando pela própria pessoa, registra-se um sentimento penoso por ter cometido deslizes e o pejo instiga a essa procurar mil desculpas e defesas para encobri-los e justificá-los, ou um ‘buraco para se esconder’, a exemplo da avestruz.
 
Quando é estimulada por terceiros, poderá ser verdadeira ou falsa. Neste último caso dá-se a violação de valores externos e internos, podendo ocorrer a destruição da dignidade da pessoa atingida, acrescentando a humilhação, desonra e infâmia. Nesse caso, é lamentável. Pior, quando esse embaraço é público, tornando-se um ato indecoroso, que provoca a indignação da pessoa atingida e daqueles que o conhecem de perto e esse ato se torna difícil de cicatrizar.
 
A vergonha é um dos pilares da socialização dos seres humanos, pois é necessária para estabelecer limites, em algumas pessoas, e pode formar a consciência.
 
Em países asiáticos (Japão e China, principalmente) foi estabelecida a “cultura da vergonha”, que exprime a situação dos viventes, quando praticam alguma atitude que lhes causam desonra ou à sua família, obrigando-os ao suicídio.
 
Rui Barbosa, intelectual baiano, jurista, escritor, orador (5/11/1849, Salvador/BA; 1º/3/1923, Petrópolis/RJ) sempre foi um defensor tanto da honra quanto da vergonha. Em uma de suas frases, expressou-se: “maior que a desonra de não haver vencido é a vergonha de não ter lutado”.
 
Para determinados seres humanos os acontecimentos de sua família, grupo e religião criam-lhes a vergonha pelo que ocorre e sentem, internamente, mais pejo que os provocadores. Também, nessa situação, situam-se os fatos amorosos, sociais e políticos, com resultados extravagantes para esses viventes.
 
Lamentavelmente, segundo a imprensa diária, a vergonha é substituída pelo cinismo, mentira e imprudência para os nossos representantes dos três poderes republicanos, gerando a indignação de alguns da nossa sociedade.
 
Os filhos podem ter vergonha de seus genitores. Uns, por serem excluídos da sociedade de valores, quando os pais não possuem as condições materiais exigidas pelos ambientes sociais; e outros pelo comportamento dos seus benfeitores, como transgressão de valores e princípios éticos, embriaguez, desregulação, descumprimento das normas sociais e leis estabelecidas. Sem dúvidas, essas crianças sofrem demais, principalmente nas escolas, que recebem a humilhação do bullying.
 
A vergonha, segundo os estudiosos, representa a adrenalina no sistema nervoso, identificada, para alguns, pela umidade das mãos, tremedeira, gaguejar, rubor inoportuno, etc. Essa situação demonstra a confissão de mal procedimento, revelação de fraqueza e dificuldades diversas, quase sempre denotando, fisicamente, um rosto corado. No entanto, tem pessoas que fazem caso da vergonha e conseguem controlar essa adrenalina.
 
A vergonha está muito ligada ao grupo de convivência do ser humano, pois, em determinados ajuntamentos ela é mais praticada que em outros, sem haver a questão da culpa e de cobranças.
 
Também, está muito ligada à atuação do líder. Basta que ele considere que a prática do mau comportamento não seja um atentado para o grupo, então é liberada e alguns dos componentes o seguem, instalando-se a deterioração do convivente.
 
Dessa forma, a vergonha se configura em dois aspectos diferentes, conforme a prática: irresponsabilidade, caráter descompassado e desapego à dignidade, ou, ajustamento social, respeito ao próximo e condições indispensáveis para a prática do bem.
 
Jaime de Moura Ferreira
Administrador, consultor organizacional, professor universitário, escritor, ambientalista,
sócio fundador do Rotary Club Lauro de Freitas. E-mail: jamoufer@atarde.com.br

 

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