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MATO GROSSO: coisa de maluco

Heloísa Helvécia / Folhapress - Em 22/08/2017

Ufoturistas e viajantes em busca de interação com a natureza encaram trilhas no cerrado cercadas por rochas, nascentes e sequências de cachoeiras, uma mais bonita que a outra
 
Bocaina do Inferno era o nome original da principal imagem ligada à Chapada dos Guimarães. A queda-d’água de 86 metros virou mais uma das cascatas “Véu de Noiva” que jorram pelo Brasil. Foi rebatizada pelo arcebispo Aquino Correa (1885-1956), primeiro mato-grossense a entrar na Academia Brasileira de Letras. Nota-se.
(Foto: Lagoa das Araras, Bom Jardim)
 
É um nome comum para a cachoeira sem par, circundada por paredões erodidos à moda chapadense, frequentada por araras de vozes estridentes e cores idem.
 
Pena estar vetada ao contato íntimo. Em 2008, um grupo de jovens em excursão desceu a trilha até o lago ao pé do Véu da Noiva e foi surpreendido em pleno banho pelo desabamento de uma rocha de arenito. Uma garota morreu. Agora, visitantes ficam protegidos da Bocaina do Inferno. E vice-versa.
 
ORELHÃO E SUVENIR
O que há então é contemplação à beira das grades, restaurante, quiosque de suvenires e orelhão em forma de arara. O acesso ao mirante é feito pela entrada principal do Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, no km 50 da rodovia MT-251.
 
Mirante Morro dos Ventos, em condomínio rural na Chapada dos Guimarães
 
A portaria é uma ruína moderna, obra abandonada há quase dez anos e em fase de “replanilhamento”, como esclareceu depois por telefone Marcus Ogeda, coordenador de infraestrutura turística da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico.
 
O carro fica no estacionamento e encara-se uma trilhinha de 550 metros de preferência levando chapéu, protetor solar e água porque, mesmo no outono, a vegetação é baixa, não faz sombra, e a Chapada é quente.
 
Ainda que sua temperatura seja considerada “amena” e chegue a atingir cinco graus abaixo da registrada em Cuiabá (por causa dos ventos e da altitude, 800 metros acima do nível do mar), o sol castiga até em junho.
 
Véu da Noiva visto, incrível. Não é a coisa mais emocionante nesse lugar que ostenta 450 cachoeiras catalogadas, sete delas no parque.
 
Pela lateral da portaria se faz o acesso a outras belezas mais palpáveis: Cachoeirinha e dos Namorados, uma a uns 50 metros da outra.
 
Chega-se a elas entrando na trilha de 1.200 metros no máximo até o meio-dia, e só depois de ler a placa com recomendações de segurança e assinar um “termo de conhecimento de risco”.
 
O caminho é uma transição entre o cerrado – paisagem mais encardida de árvores baixas e tons terrosos – para a mata de galeria dos livros de geografia, corredores verdes sempre acompanhando cursos de riozinhos.
 
Quase no fim da trilha há muretas e degraus de pedra já cobertos por vegetação, restos de ocupação descaracterizante que incluía restaurante, churrascos dominicais, o diabo. Farofas do passado; agora, nem fumar se fuma.
 
Depois de uma sequência de cipós grossos pendendo de árvores finas e altas surge a Cachoeirinha. Uma queda de 15 metros, formada pelo rio Coxipozinho, com prainha e piscina rasa.
 
Casal de araras sobre a cachoeira
 
Parece que você mergulhou num calendário da seicho-no-iê, especialmente se houver uma população de borboletas rebuscando a cena. Caipiras urbanos piram e levam picadas de mosquitopólvora, o “porvinha”.
 
Ao lado, a cachoeira dos Namorados, formada pelo córrego Piedade, com queda de sete metros, é outro banho certo. A cortina de espuma escorrega pela escarpa de ponta a ponta e dá para andar e se esconder atrás dela, talvez daí o nome romântico.
 
PARAÍSO DE MALUCO
A caça à água doce segue pelo Circuito das Cachoeiras, também conhecido por Caminho das Águas (muita coisa na Chapada tem mais de um nome), passeio que exige guia e agendamento. Isso porque há um teto de carga diária definido para todo ponto de visita localizado dentro da reserva.
 
São 144 pessoas no máximo no caso desse roteiro, informa a analista ambiental Cintia da Câmara Brazão, chefe do parque, que tem 32.630 hectares e é administrado pelo ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade).
 
O circuito de seis quilômetros, ida e volta, exige caminhada de umas cinco horas. Dá em recompensa, sem falar no caminho em si, seis quedas-d’água e piscinas naturais formadas pelo córrego Independência.
 
É tudo liberado para mergulho, com exceção da cachoeira Independência, também chamada cachoeira dos Malucos, porque, informou o guia Vitório Santos, da agência Confiança, uma moçada alternativa arrepiava os locais nos anos 1980 praticando naturismo naquele éden.
 
Malucos, ufoturistas, pesquisadores, ambientalistas, fotógrafos e produtores de TV são atraídos pela Chapada, a borda do Planalto Central, o “coração da América do Sul”, como diz a propaganda.
 
Culpa das paredonas avermelhadas pela ação do óxido de ferro no arenito, das formações esculpidas no vento, da concentração de nascentes, grutas, vales, e de tudo estar assentado sobre uma das placas geológicas mais velhas da Terra, com sítios arqueológicos e signos das mutações espalhados: fósseis, pinturas rupestres, conchas.
 
Chapada foi geleira, mar, deserto. Mas o que nutre mais o papo místico lá é a polêmica sobre a cidade ser ou não ser o centro geodésico do continente, o “ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico” no qual desceria de um disco voador “um índio”, na canção homônima de Veloso. Só que o centro fica mesmo em Cuiabá. O que há, na face sul dos paredões chapadenses, é uma plaquinha com um marco de altitude, loucamente cultuada, em um mirante com vista para a planície pantaneira.
 
INFERNO E CÉU
Pode pular esse, porque mirantes não faltam. Entre eles, o Portão do Inferno é o mais cercado de misticismo. E cercado também por tapumes de zinco, em razão da degradação ambiental e do risco de desabamentos.
 
São formações rochosas à beira de um precipício de mais de 50 metros cuja entrada fica em frente a uma curva letal da MT-251, que liga Cuiabá à Chapada, bem no limite entre os municípios.
 
Tirando acidentes de carro, quedas fatais e suicídios recorrentes ali – e tirando umas histórias de almas e a lenda segundo a qual o magnetismo do lugar traga tudo para baixo –, é um pecado o Portão do Inferno estar fechado à visitação.
 
De lá dá para ver, preservadas no arenito, dunas de areia do deserto extinto, coisa de mais de 150 milhões de anos.
 
Por ora você só testemunha, através da cerca de arame, o fóssil de uma lanchonete pintada de vermelho com a marca da Coca-Cola.
 
Logo depois do Portão do Inferno, na mesma rodovia, vem a Porta do Céu (também falam “lá na Mata Fria” referindo-se ao lugar), uma parada da estrada antiga onde viajantes alimentavam os animais e rezavam. Às margens há rochas figurativas estranhas, que parecem talhadas por gente, como a Pedra do Camelo e a Pedra do Sapo.
 
Esta última foi vítima recente de um ato de vandalismo redundante. Acharam bacana fixar um sapo de cimento em cima da escultura natural que lembra o anfíbio, moldada por chuva, vento e sabe-se lá por quantos milhões de anos.
 
Já a estátua de ET que recebe o turista na entrada da Casa do Mel Buriti foi feita por humanos mesmo. Trata-se de um complexo com apiário, pousada, lanchonete, piscina, lojinha e, o principal, muita visão panorâmica.
 
De lá sai a Trilha do Mel (ou dos Dinossauros): pagam-se R$ 20 para percorrer seis quilômetros, ida e volta, de cara para formações esculturais.
 
O apicultor Sidarta Spíndola, arrendador da propriedade da família, administrador da trilha e testemunha ocular de objeto voador não identificado tem ali 120 caixas de abelhas.
 
Ele diz que é “muito difícil tirar mel do cerrado”. Por isso vale provar, valorizar e levar o tipo silvestre, com favo, que custa R$ 38 o vidro.
 
O gosto salgado do cerrado está representado na versão chapadense do arroz de carreteiro: carne seca fatiada, frita, refogada, depois cozida com arroz em panela de ferro e levada à mesa com farofa de banana e feijão. O nome do prato é Maria Izabé, conforme o cardápio do restaurante Morro dos Ventos. Fica em condomínio rural, a um quilômetro da cidade. Em frente há uma plataforma de aço que avança no abismo sobre aqueles cânions sem fim. O melhor cenário de selfie até agora.
 
Só que o pôr do sol acontece no ponto de maior altitude da Chapada, 860 metros. É um mirante a 17 quilômetros do centro, dentro de uma fazenda. Há uma estrada de terra e um bar onde se paga alguma coisa antes de tomar uma trilha de 800 metros que leva a uma passarela e a um deque de madeira de onde se tem a visão mais completa desses relevos loucos. Pode ser que haja um casal de noivos posando para o álbum, ou um povo da ioga fazendo aula ao ar livre.
 
Da plataforma você vê a depressão cuiabana, o Pantanal, o rio Cuiabá, o lado mais fotogênico do morro de São Jerônimo, que para alguns é “aeroporto de óvni”, a capital do Estado. Cuiabá sinaliza o fim do show quando acende todas as luzes.
 
É a deixa para vestir o agasalho, caprichar no repelente e pegar a trilha de volta. O dia acabou no bem batizado mirante do Alto do Céu.
 
O rio Triste, cercado de mata ciliar e próprio para flutuação, que fica numa fazenda a 17 km de Bom Jardim
 
BANHO DE TRANSPARÊNCIA
Você flutua em águas claras, interage com os peixes e se acaba nas trilhas; parece Bonito, e é lindo
 
A água é sempre morna.” O guia incentiva os visitantes a entrar no rio, mas nem precisa. São convites suficientes a transparência, mostrando os cardumes de peixes, e o tom de verde, doado pelo leito de calcário.
 
O rio Triste é um dos pontos de mergulho de superfície em uma região próxima à Chapada dos Guimarães que despontam como destino com alto potencial turístico. Fica na Fazenda Água Branca, em Rosário Oeste, a 17 km de Bom Jardim, vila que é distrito de Nobres (MT) e cujo slogan é “Bom Jardim é lindo” – para se comparar a Bonito, em Mato Grosso do Sul.
 
E se equipara mesmo em atrações naturais. Não se compara em reconhecimento e infraestrutura, o que para alguns é ponto contra, mas para outros é a favor.
 
A flutuação por 1.200 metros de rio cercado de mata ciliar é feita depois de uma trilha de meio quilômetro. Sem repelente ou protetor, para não sujar o Triste. Segue a lista do que é preciso: snorkel, colete, máscara, sapatilha – e guia local.
 
Flutuar com o Bugio é mesmo um passeio. Ele dá nome aos bois, apresenta ao visitante os peixes com os quais vai dividir a experiência de ser levado pela água sem fazer força: piraputanga, curimbatá, dourado, piau.
 
Borboletas na piscina natural ao pé da Cachoeirinha, que é formada pelo rio Coxipozinho, na Chapada dos Guimarães.
 
O guia também avisa se você estiver viajandão e sujeito a trombar num tronco ou pedra, ou se não perceber a arraia, difícil de dar as caras.
 
Bugio é uma figura. Gosta de mostrar as moedas que recebeu de gringos, colou em papel e sob as quais escreveu o nome de cada país.
 
Tudo em Bom Jardim exige guia, pagamento e agenda, o que pode chatear um forasteiro menos sistemático. Para qualquer passeio é preciso comprar o voucher único em uma das agências. O mergulho de superfície no Triste dura uma hora e meia e custa R$ 100 por adulto.
 
O modelo, inspirado em Bonito, tem dois objetivos, segundo Vicente Campos, presidente do Conselho Municipal de Turismo e pioneiro na exploração do lugar. Um é garantir a arrecadação para a cidade (uma porcentagem vai para o fundo de turismo), e outro é controlar a visitação.
 
“É a forma de evitar o excesso de pessoas nas atrações naturais e também gerar empregos para filhos de colonos, que são os nossos guias.”
 
AQUÁRIO ENCANTADO
A vila de Bom Jardim era a sede de uma fazenda de 50 mil hectares, comprada por um carioca. Como ele não pagou o empréstimo feito para o negócio, a terra foi tomada pelo Banco do Brasil. Nos anos 1980, Dante de Oliveira (aquele das Diretas-Já, 1952-2006), então ministro da Reforma Agrária do Sarney, dividiu aquilo em lotes de até cem hectares, chamando para o assentamento 700 famílias de várias partes do país.
 
A 12 quilômetros da vila, no meio da mata de transição entre cerrado e vegetação amazônica fica o Aquário Encantado, com nome e visual de desenho animado.
 
Na piscina límpida de seis metros de profundidade tem a nascente do rio Salobra para espiar, além dos peixes. O rio está a 300 metros, dentro de uma fazenda, como tudo.
 
Antes disso há um restaurante, o receptivo onde o turista pega equipamento de flutuação e segue em uma carreta puxada por trator até a trilha de um quilômetro, pela qual se topa com um bico-de-brasa aqui, uma seriema lá, um macaco.
 
Ao lado fica o Refúgio Água Azul, onde uma das diversões é a tirolesa de 20 metros com queda no rio. Outra é apenas mergulhar na água que passa de azul-turquesa a verde, dependendo da hora.
 
Tem quem sinta “formigamento” no banho. São peixes miúdos que parecem mordiscar o corpo da pessoa, estão tirando células mortas da sua pele. Os locais chamam o bicho de “tiquira”, mas quem der um Google só vai achar cachaça com esse nome.
 
O refúgio tem plataforma, passarela e escadinha de madeira, até aí tudo bem. Mas fixaram, no deque rústico, uma fileira de bancos de ônibus. Plástico velho e alumínio no meio do santuário. Parece até intervenção artística.
 
No centro da cidade, montaria e a igreja Santana, resto da arquitetura colonial
 
Bem mais perto do lugarejo fica o Balneário do Estivado, com prainha, piscina natural cheia de peixes e quiosque com telhado de sapé para comer e beber. É calmo, ao menos numa segunda-feira.
 
Emoção mais forte é a cachoeira Serra Azul, na fazenda do Sesc. Mas a trilha de 800 metros com quase 500 degraus exige condicionamento. Só para quem pode.
 
Para todos existe a lagoa das Araras. O antigo açude, criado para o gado beber, virou ponto de observação de pássaros, com mirantes.
 
No fim do dia, as aves voltam para os ninhos construídos no oco dos caules das palmeiras mortas. É interessante chegar bem antes da confusão de araras, para só ficar contemplando a coleção de buritis duplicada no espelho d’água, as garças, os gaviões-casaco-de-couro. O silêncio é quebrado aos poucos por maritacas, periquitos e outros bichos até a apoteose, quando as donas do pedaço vão aparecendo aos pares, na maior gritaria.

 

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