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A arte milenar sob as mãos e a alma de uma professora ‘amiga’

Thiara Reges - Em 15/10/2017

Traços finos e delicados traduzem umas das expressões artísticas mais refinadas da história da humanidade. As evidências apontam que a pintura em porcelana teria nascido na China entre os séculos 6 e 7, mas ganhado destaque internacional a partir do século 8, quando o explorador Marco Polo levou algumas peças da China para a Europa.
 
Ainda hoje a arte impressiona pela riqueza de detalhes, e apesar da grande força da indústria de massa, não perdeu seu valor e espaço na decoração.
 
Há 23 anos se dedicando a arte da pintura em porcelana, a artesã Lúcia Margarida de Barros Fontoura, 71 anos, além de criar peças únicas, decidiu compartilhar seu conhecimento, ensinando a técnica e transmitindo toda paixão pelas porcelanas. O início foi difícil e só aconteceu após muita insistência de uma amiga. Lúcia viu sua vida mudar de ponta cabeça quando perdeu um dos seus três filhos em um acidente, e o acalanto ao seu coração veio justamente através da união do requinte das porcelanas, a leveza dos traços e a força do fogo.
 
Sua mestra é Carmem Nagao, artista plástica com nível superior em desenho. Na época em que se conheceram, Carmem estava chegando do Rio de Janeiro para abrir o seu ateliê em Salvador, e Lúcia foi uma das suas primeiras alunas. Ela já possuía uma relação com as artes, através dos cursos de extensão que participava quando trabalhava na Universidade Federal da Bahia, mas nunca havia pensado em se dedicar de forma tão intensa. “Vejo a pintura em porcelana como uma terapia, algo renovador, que recomendo para qualquer pessoa”, frisa.
 
Ao longo de todos esses anos Lúcia foi se aprimorando. Compartilha sua rotina de casa, cuidados ao marido, amor dos filhos e netos, com as suas criações, que já participaram de diversas exposições, algumas internacionais. Mas ainda havia um novo passo a dar, e há três anos Lúcia abriu o seu ateliê, em Lauro de Freitas, para compartilhar conhecimentos e experiências.
 
A técnica desenvolvida por Lúcia é o canetado com óleo de copaíba. Traços finos e delicados riscados na porcelana
 
“As amigas”, como Lúcia se refere às suas alunas, se encontram uma vez por semana. A tarde se passa numa velocidade que, sem nem perceber, já está de noite. Cada novo amigo que chega ao grupo possui características específicas, os traços seguem estilos por vezes bem opostos, mas as experiências e a vontade de ver a peça finalizada superam as diferenças e criam laços que perduram para fora do ateliê.
 
“Recordo que meu primeiro aluno tinha Mal de Parkinson. Ele vinha para as aulas com a esposa. O trabalho dele era de um detalhismo impressionante. Quanto mais minucioso, mais ele se empenhava, e o resultado final era incrível. Tenho hoje alunas mais conservadoras, mais tradicionais em seus traços, como tenho as contemporâneas, cujo os desenhos fogem completamente da tendência que geralmente vemos em porcelanas, mas ambas se esmeram e tudo fica lindo”, completa.
 
A pintura em porcelana é uma arte conhebem delicada, e que desde a China, por cada continente que passou, foi adquirindo novas técnicas. Lúcia trabalha com o canetado e óleo de copaíba. As peças são riscadas e passam por processos de pintura e queima no forno, em temperaturas que chegam a 1.300°C.
 
Alunas Amigas do curso de pintura em porcelana (a partir da esq.): Tânia Accioli, Maria Luci de Sá e Edmildes Carmo
 
Sobre a relação da pintura em porcelana, tão manual e detalhista, com a evolução tecnológica que a sociedade vem passando, Lúcia acredita que a arte não se perderá, pois ao comparar uma peça pintada manualmente e uma peça fruto da indústria, a diferença é facilmente encontrada e os amantes da arte valorizam um bom trabalho. Mas ela frisa que o incentivo para atuais e novos artesãos e artistas é inexistente.
 
“Temos vontade de desenvolver algo voltado para crianças e jovens, mas emperramos na falta de apoio, sobretudo governamental. Não temos a atenção do poder público nem quando a nossa associação, a União Baiana de Pintores em Porcelana e Faiança, que promove uma exposição, em que eles são convidados para o coquetel. Ninguém aparece. Por parte das pessoas existe sim o reconhecimento do valor do artesanal, de todo empenho que o artesão e o artista transmitiram para a confecção de uma peça”, ressalta.
 
Em seu ateliê, Lúcia tenta fazer ao menos um pouco para que a arte não se perca no tempo. O amor pela pintura está sendo transmitido para a netinha de quatro anos, que ao final das aulas exclama: “Vovó, a senhora é muito exigente!”.
 
As aulas acontecem uma vez por semana no ateliê de Lúcia

 

DEPOIMENTOS

“Sempre gostei de arte, sabia que queria fazer atividades neste ramo mas a vida vai encaminhando nosso destino. Sou contadora por formação, trabalhei anos na área, mas sei que nunca é tarde para aprender algo novo. Foi folheando as páginas da Vilas Magazine que avistei, no cantinho de uma página, um anúncio sobre aulas de pintura em porcelana. Pensei: é isso! Liguei pelo menos umas cinco vezes, cheguei até a acreditar que o anúncio era falso. Mas não desisti. E quando deu certo, vim logo conhecer o ateliê e me apaixonei”. Maria Luci Dantas Moraes Torreão de Sá, 67 anos.
 
“Sou artesã, trabalho com diversas técnicas e matérias-primas, e não acreditava que me adaptaria ao curso, por não gostar de florzinhas, miudinhas e delicadas, com o são a maioria dos produtos de porcelana que geralmente encontramos. Mas logo na primeira aula quebrei todos os meu paradigmas e percebi que não há limites para a nossa criatividade. Minhas peças são as mais diferentes aqui do ateliê, gosto de retratar o dia-a-dia, o povo baiano, e estou apaixonada em poder fazer isso em porcelanas. Além disso conviver com Lúcia é uma grande satisfação, é uma troca de conhecimentos e um aprendizado de vida constante”. Tânia Accioli, 61 anos.
 
“Também descobri Lúcia pelo anúncio na revista Vilas Magazine. Na verdade, desde que iniciou o processo de minha aposentadoria que venho buscando alguma atividade que me completasse. Me incomodava muito o rótulo “aula para a terceira idade”. Não queria nada excludente, nada que restringisse os meus contatos. Queria algo que qualquer pessoa, de qualquer idade, pudesse fazer. Quando vi o anúncio foi meio que a união do útil ao agradável. Além de ser uma arte linda, o ateliê fica pertinho de casa”. Edmildes (Mimi) Carmo, 61 anos.
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