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Comida Pura

Eron Rezende. Ilustrações: Túlio Carapiá. Conteúdo licenciado pela Agência ATarde - Em 15/10/2017

A Obsessão por comer alimentos saudáveis pode acabar virando uma doença de nome esquisito, a ortorexia, e levar a outras desordes alimentares ainda mais graves

Você já parou para pensar o quanto você pensa sobre o que come? Você já pensou sobre a virtude do prato à frente – o quanto colorido ele é, o quanto saudável ele parece ser, o quanto “instagramável” ele deve ficar?
 
E como estamos no assunto, o que a sua comida diz sobre você? Diz ao mundo que você é limpo e virtuoso? Essa fatia de pizza gelada na manhã de um domingo é um lembrete gentil de que você sabe se divertir ou um recado de que você não sabe se controlar? Há quem pense sobre tudo isso extensivamente – e faça da vida uma cruzada regada a filé de frango e brócolis ao vapor.
 
Quando completou 17 anos, Kévia Martins começou a sentir coceira em todo o corpo, que veio acompanhada de manchas vermelhas. O diagnóstico, uma alergia desenvolvida à soja, acendeu seu olhar para os rótulos dos produtos. Kévia levou a leitura de tabelas nutricionais e ingredientes a sério. Decidiu ficar saudável cortando a soja e – porque não? – a gordura excessiva e o açúcar. Ao final de um ano, dez quilos a menos e elogios de amigos e familiares a mais, enveredou para o vegetarianismo.
 
Kévia lembra de ter ido a um encontro com um rapaz, que a levou a um restaurante e depois, ao cinema. Ela comeu, como uma concessão, um spaghetti à carbonara e passou todo o filme incapaz de se concentrar no palco, ruminando sobre como “impuro” era comer aquele macarrão com bacon. Evitou que o rapaz a beijasse por se sentir “indigna”. Ao fim do encontro, teve um ataque de pânico, correu a um drive-thru e comprou um enorme hambúrguer – forçou-se a comer o que não queria como castigo pela impureza.
 
Demorou três anos para Kévia, 20, buscar a ajuda de terapeuta e nutricionista. O escrutínio exagerado de rótulos e os crescentes cortes arbitrários de grupos alimentares a tinham deixado esbelta, mas pálida; com fotos curtidas, e queda de cabelo. “É complicado perceber que há um problema quando todo mundo a sua volta parece desejar o seu corpo”, diz ela.
 
Aconselhada pelo nutricionista, reintroduziu a carne na dieta. A pedido do terapeuta, deixou de seguir perfis que propagam uma alimentação saudável. “Estava tão obcecada em nutrição que atravessei a linha que separa a consciência saudável da paranoia”.
 
MENOS MEDO E CULPA
Não é uma linha complicada de atravessar, ainda que a paranoia em questão tenha muitos matizes. Desde que existe, o homem pensa em comida. Nossos antepassados pensavam em como derrubar um pássaro, nossos avós pensavam em como oferecer diversidade e fartura. E nós pensamos em comidas funcionais e dietas restritivas. A  racionalização sobre aquilo que comemos – que se revela no agitado mercado editorial de livros sobre alimentação saudável, em programas de TV com receitas saudáveis, em conversas de trabalho sobre marmitas saudáveis, em papos de academia sobre um pré e pós-treino saudável e em prateleiras de mercado com produtos saudáveis – é uma resposta à potente industrialização dos alimentos. Mas até que ponto a preocupação em ser saudável, que nos promete um reino distante dos conservantes e das toxinas modernas, tem nos deixado com menos medo e menos culpa?
 
“O princípio fundador dos modernos regimes de bemestar é que nosso modo atual de comer está nos envenenando lentamente”, diz a terapeuta nutricional Regina Vicentini, autora de um estudo sobre a crescente “medicalização da comida”. Ela cita como exemplo o número de cursos de nutrição no Brasil (mais de 80 mil nutricionistas formados atuam hoje no país, quase duas vezes mais do que no início deste século),que tem colocado no mercado profissionais moldados ao discurso da “limpeza alimentar”. “Comer de forma ‘limpa’ é uma resposta disfuncional a um fornecimento de alimentos ainda mais disfuncional: é como se fosse um sonho de pureza em um mundo tóxico”.
 
CORREDOR POLONÊS
Caminhar em um supermercado moderno é como passar por um corredor polonês de lanches salgados e oleosos, de cereais açucarados, de bebidas baratas e adoçadas e de carnes de animais mantidos em condições cruéis. Mas é também caminhar no onírico universo dos produtos “free”, livres de tudo aquilo que acreditamos nos fazer mal. O movimento em frente a prateleiras sem glúten e sem lactose tem ar de religião e publicidade – de 2009 a 2015, por exemplo, o número de americanos que evitavam o glúten em suas dietas, apesar de não sofrerem de intolerância à substância, mais do que triplicou.
 
Num grande escritório de advocacia no bairro de Ondina, em Salvador, Andreia Rodrigues, 29, é uma espécie de celebridade. Sua alimentação é uma amostra do que pode ser encontrado de novidade nas prateleiras “livres” dos mercados. Para os colegas de trabalho, suas marmitas repercutem como um universo moralmente superior. “Zero glúten, zero leite, zero açúcar, zero conservantes, zero soja, 100% óleo de coco, sal rosa”, descreve Andreia, que possui nove mil seguidores no Instagram, grande parte deles consumidores das marmitas congeladas que a advogada passou a comercializar há seis meses.
 
O caminho percorrido por Andreia, do “descontrole alimentar à moderação”, como ela define, foi tortuoso. Uma refeição fora de casa, onde as condições de temperatura e pressão fugiam ao seu controle, gerava culpa e ansiedade. No dia em que saiu com os amigos e passou vinte minutos examinando os sucos naturais disponíveis no supermercado, sem decidir qual levar, foi apresentada ao termo ortorexia nervosa, o distúrbio que caracteriza a obsessão por comer de forma correta. “Um amigo me mandou artigos e histórias sobre o assunto. Fui lendo e me identificando, a ponto de ver o quanto neurótica eu estava ficando”, diz ela. “Mantenho uma dieta controlada, mas já me permito experimentar de tudo”.
 
A obsessão por consumir apenas alimentos puros e perfeitos foi descrita pela primeira vez como um distúrbio alimentar pelo médico norte-americano Steven Bratman, no livro “Viciados em comida saudável” (1997).
 
Ao contrário da anorexia ou da bulimia, que visam exclusivamente à relação com o peso, a ortorexia tem como foco a saúde. Aliando a palavra “correto”– do grego orthos – com “apetite”– orexis –, Bratman deu nome a uma disfunção que leva até as últimas consequências a filosofia do “meu alimento, meu remédio”, propagada em hashtags como clean,- orgânico, foco , vidasaudável.
 
“Não há como pensar que alguém está saudável quando está evitando lugares, pessoas e eventos simplesmente porque não tem o controle sobre a procedência e o preparo da comida. O problema é que essas mesmas pessoas são vistas como corretas e viram alvo de admiração”, diz a nutricionista Carla Rodrigues, integrante do Genta, grupo especializado em nutrição e transtornos alimentares, com sede em São Paulo.
 
“Para confundir ainda mais, estudos sobre a alimentação levam muito tempo, e resultados que exigiriam interpretações cuidadosas e confirmação em pesquisas mais elaboradas ganham destaque na imprensa e nas redes sociais como se apresentassem sentenças definitivas”.
 
LOBBY
No ramo das pesquisas alimentares, há casos emblemáticos de como a precipitação e o lobby da indústria alimentícia pesam nas dietas de todos nós. Quase toda semana, por exemplo, saem novas pesquisas sobre o efeito nocivo que o açúcar produz no corpo humano. Trata-se de uma mudança radical: ao longo das três últimas décadas, o papel de arquivilão foi atribuído à gordura, não ao açúcar – os nutricionistas recomendaram reduzir gordura e colesterol, e, em vez de ficarmos mais saudáveis, ficamos mais gordos e doentes. A demonização completa da gordura, portanto, soou como um grande equívoco. Como já soa, também, o endeusamento do óleo de coco – embora vendido como milagroso, ainda não há evidência científica de seus benefícios.
 
Páginas do Facebook e do Instagram são termômetros de como a ideia de fugir da indústria alimentícia tradicional é, em si, uma indústria. Musas fitness tomam chá de hibisco, marcas de alimentos funcionais vendem novos pratos. Hoje, a maioria de nós provavelmente conhece pelo menos uma pessoa que, em um esforço para ser saudável, passou a uma dieta diária, cortou grupos de alimentos inteiros ou os substituiu por algum tipo de suco por alguns dias.
 
Supermercados são abastecidos com produtos sem glúten, enquanto restaurantes com opções vegetarianas brotam todos os meses em uma grande cidade. Comer de forma “limpa” parece mais do que uma simples dieta, e sim um sistema vigoroso de crença, que propaga a ideia de que a maneira como a maioria das pessoas come não é simplesmente gorda, mas também impura.
 
“A forma como a patrulha e o radicalismo em torno da alimentação crescem confirma o quão vulnerável as pessoas se sentem em relação a suas dietas – o que realmente significao quão perdido nos sentimos em relação a nossos próprios corpos”, diz Carla. “Estamos tão desanimados que colocamos nossa fé em qualquer mestre que nos prometa que nós também podemos nos tornar puros e bons”.
 
DRAMA ALIMENTAR
O drama alimentar moderno é que as dietas que pregam uma forma de comer limpa e segura não são totalmente falsas. Elas contêm “um núcleo de verdade”, como coloca Gilberto Cavalcanti, da Unidade Metabólica do Centro de Pesquisa Fima Lifshitz, da Ufba. “Quando você tira todo o pseudomessianismo que há nesse discurso, se está absolutamente certo ao propagar que devemos comer mais vegetais, menos açúcar refinado e menos carne”, diz ele, tomando um café preto (sem açúcar) em sua sala no Complexo Hospitalar Universitário Professor Edgard Santos, onde passa seus dias investigando doenças metabólicas. 
 
Para Gilberto, não há dúvida de que os alimentos baratos e abundantes na sociedade moderna são açucarados e gordurosos e que essa é uma receita para diabetes tipo 2, obesidade e doenças cardiovasculares. O problema surge quando é quase impossível abraçar de forma sensata – e não espartana – o discurso da comida saudável sem escapar do universo de alimentos tóxicos ao redor.
 
“Quando a alimentação mainstream começa a adoecer pessoas, não é surpreendente que muitos de nós procuremos outras maneiras de comer para nos proteger de danos. Nossa ansiedade coletiva em torno do que comemos foi exacerbada por uma impressão geral de que os alimentos não são confiáveis”, diz Gilberto. “Mas a busca por uma alimentação limpa e pura faz com que o ato de comer bem e de forma saudável se torne caro, exclusivo e difícil de alcançar. O conselho de nossas avós – coma de tudo – já não se aplica mais, porque comer de tudo implica consumir produtos que, hoje, estão abarrotados de substâncias nocivas a nossa saúde”.
 
DILEMA
No início de agosto, o Centro de Pesquisa Fima Lifshitz promoveu uma série de palestras sobre o que é comer bem neste século. A julgar pelo que foi exposto, uma preocupação que a medicina precisará encarar é: como lutar contra o absolutismo da dieta hipercontrolada sem que isso tenha como consequência o retorno a uma celebração sem sentido do ambiente alimentar moderno, frequentemente marcado por alimentos que têm falhado na tarefa básica de nos nutrir? Na falta de uma resposta clara, médicos continuam a receitar o equilíbrio e pequenas mudanças de hábito. 
 
“Há evidências, comprovadas por meio de pesquisas epidemiológicas, que aumentar a ingestão de frutas e legumes de zero para uma ou duas porções por semana já é o suficiente para retardar o avanço de uma série de doenças”, explica a endocrinologista Lilian Sampaio, uma das palestrantes do evento. “Há uma selva de informações desencontradas, então permanece o conselho: coma frutas, saladas e verduras. Mas com liberdade”.
 
Há quatro anos, movido por uma conversa com um amigo, o personal trainer André Trigueiro, 33, cortou o leite da dieta, trocando-o por bebidas à base de arroz e amêndoas. Reduziu drasticamente, também, o consumo de carne. Há oito meses, após quase desmaiar no trabalho, recebeu um puxão de orelha do nutricionista. André estava desenvolvendo um quadro de anemia, e o remédio era voltar a consumir os alimentos cortados da dieta.
 
“O nosso sistema alimentar está precisando desesperadamente de uma reforma”, diz ele, que no auge de sua dieta restrita tatuou em um dos braços a máxima “você é o que você come”. “Estamos gastando a nossa energia na descoberta da novidade da última semana sem olhar para o que de fato interessa, que é a produção de alimentos básicos, como a carne e o leite, feita de forma honesta, não processada e verdadeiramente saudável”. Na academia na qual é umdos sócios, André tratou de pichar uma nova máxima aprendida: “Sem obsessão, sem detox: a dieta não é a resposta”.

 

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