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Emancipação política garantiu desenvolvimento há 56 anos

Redação Vilas Magazine - Em 01/07/2018

Cinquenta e seis anos depois de emancipada – a comemorar em 31 de julho – e Lauro de Freitas é cada vez mais uma extensão de Salvador, como se fosse mais uma região da capital. A conurbação não deixa alternativa e esfumaça os limites, que deixam de fazer sentido na vida prática da população – a não ser pela diferença no valor de IPTU que cada município cobra.
 
O crescimento populacional das grandes cidades brasileiras transformou os desafios urbanos em problemas metropolitanos, envolvendo os vários municípios do entorno. Não por acaso, são cada vez mais comuns as instâncias de gestão intermunicipais – e mais ainda as metropolitanas, sugerindo inclusive uma gestão centralizada.
 
Os governos estaduais têm assumido o papel de gestores metropolitanos onde não há outro recurso, mas continua ausente o planejamento urbano conjunto. Além disso, no que se refere por exemplo à mobilidade na Região Metropolitana de Salvador e conforme destaca um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) de 2014, “as articulações mais desenvolvidas em âmbito institucional se restringem aos municípios de Salvador e Lauro de Freitas”.
Foto: Nivaldo Santos Nery na praça da Matriz, hoje urbanizada: filho do juiz de paz que deu posse aos primeiros vereadores eleito
 
Essa cooperação específica está relacionada à implantação da linha 2 do metrô, que deverá seguir até a metade da avenida Santos Dumont, onde está em construção um shopping center. Embora inclua no sistema o transporte público rodoviário, o metrô não tem uma gestão uniforme dessa integração. Em função de um limite municipal qualquer, subitamente uma linha de ônibus deixa de ser “urbana” e passa a ser “metropolitana” – embora nem a paisagem mude e sem que a realidade do transporte de passageiros o exija.
 
Nem sempre foi assim. Em 1962, quando o distrito de Santo Amaro de Ipitanga foi emancipado de Salvador e passou a se chamar Lauro de Freitas, o transporte para a capital exigia uma verdadeira viagem. “O ônibus era a marinete de João Expresso, de Portão”, conta Nivaldo Santos Nery, 74 anos – que na época tinha 17.
 
O primeiro prédio da prefeitura nos
anos 60 e hoje, ocupado pelo Banco
de Serviços: autonomia administrativa
é cada vez mais relativa
 
A autonomia política e administrativa teve vantagens objetivas para a localidade, conta Nery. A rua Romualdo de Brito, uma das principais do Centro de Lauro de Freitas hoje, era de barro há 56 anos. Foi numa casa dessa rua, antigamente de palha, que ele e seus nove irmãos nasceram e onde ainda hoje a família mora. Depois da emancipação, a chamada “rua da lama” logo foi “patrolada”, por intervenção política local.
 
Os primeiros vereadores eleitos foram empossados pelo pai de Nivaldo Nery, que era Juiz de Paz em Santo Amaro de Ipitanga. Jaime da Silva Nery veio de Amargosa para Santo Amaro de Ipitanga em 1941, como tantos outros, para trabalhar na Base Aérea da Aeronáutica, sob orientação de militares americanos, interessados na infraestrutura em meio à Segunda Guerra Mundial.
 
Outras bases no litoral do Nordeste foram cedidas aos americanos na época, em troca de equipamentos militares e do financiamento da construção da primeira usina siderúrgica brasileira, em Volta Redonda (RJ). O Brasil só romperia com a Alemanha um ano mais tarde.
 
Em 1941, conta Nery, os trabalhadores moravam em barracas nos limites da Base Aérea, onde hoje existe a rótula que dá acesso a um dos portões e à avenida Dois de Julho, atrás do Restaurante Popular. Ainda hoje uma área sujeita a alagamentos por causa do córrego que passa ali, a área foi desocupada quando houve a primeira enchente com moradores no local.
 
“Alguns ficaram em Santo Amaro” – mais acima, subindo a ladeira da Igreja Matriz – “enquanto outros se mudaram para São Cristóvão, que na época se chamava Cascalho – assim contava minha avó”, diz Nery. Já Santo Amaro de Ipitanga, para os trabalhadores da Base Aérea, era “a Guaximba”, nome que se dava a qualquer localidade nas proximidades de áreas militares. Os moradores eram chamados de “guaximbeiros”.
 
Jaime da Silva Nery mudou-se naquela época para a rua do fogo, nome que se dava a uma das ruas no início da atual avenida Luiz Tarquínio Pontes. Depois comprou, “por um conto e quinhentos”, a casa de palha onde viria a criar a família. Toda a “rua da lama” tinha casas de palha.
 
O desenvolvimento inicial de Santo Amaro de Ipitanga esteve intimamente ligado à vida militar. O primeiro prefeito, Celso Alves Pinheiro da Silva, nascido em Cachoeira de São Felix, foi enfermeiro da Base Aérea. Amarílio Tiago dos Santos, filho da terra que perdera a primeira eleição, governou apenas dois anos – acabou cassado pela Câmara Municipal.
 
A partir de 1973, com a posse do prefeito biônico Ismael Ornelas Farias, indicado pelo regime militar, a influência da Base Aérea só aumentou. Lauro de Freitas havia sido designada “área de segurança nacional” um ano antes. O próprio Ornelas trabalhou por décadas na Base Aérea.
 
Nery conta que certa vez, já nos anos 70, o comandante da Base perguntou a sua esposa, Lindóia, que também era da Aeronáutica: “Ornelas já calçou a sua rua?”. E foi então que a lama se foi. Calçaram desde certa esquina “até este poste”, em frente à casa da família, conta Nery. O Coronel então teria perguntado ao prefeito: “Ornelas, já calçou a rua de Lindóia?”. O prefeito confirmou, mas deixou claro que fez só ate à metade.
Foto:Calçamento de ruas no Centro de Lauro de Freitas nos anos 70: influência da Base Aérea
 
A emancipação “fez uma diferença” na cidade, diz. Os vereadores passaram a dar apoio ao pessoal do comércio, por exemplo. As verbas públicas passaram a desempenhar um papel importante na criação de empregos, sobretudo públicos. Antes disso, Santo Amaro de Ipitanga contava apenas com Abelardo Andrea, militar do Exército e vereador de Salvador até 1951, que apadrinhava o distrito na Câmara da capital. Há uma rua com o nome dele no Centro de Lauro de Freitas.
 
Hoje, resolver os problemas de mobilidade de Lauro de Freitas exige mais do que um comandante bem intencionado: é preciso ter verba federal e obras do estado para abrir novas estradas e trazer o metrô.
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