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Ancestralidade, cultura e muita fé nas homenagens ao padroeiro de Lauro de Freitas

Thiara Reges - Em 31/01/2019

Passavam das 9 horas da manhã do sábado, 12 de janeiro, quando o cortejo em louvor à Santo Amaro de Ipitanga começou. Pelas ruas do centro da cidade, antes movimentadas por carros e pessoas apressadas para cumprir com suas obrigações, ecoavam as batidas de tambores e cânticos em homenagem ao padroeiro da cidade de Lauro de Freitas.
 
Nas calçadas, comerciantes locais, famílias e muitas crianças acompanhavam o desfile dos grupos culturais, puxados pela charanga Vem Com a Gente e a vistosa Ala das Baianas. E nem o sol forte diminuiu a determinação da população de cumprir o cortejo até o final.
 
Na Bahia é muito comum ter a lavagem das igrejas antes de festas católicas, sendo a Lavagem do Bonfim, em Salvador - este ano realizada em 17 de janeiro - a mais conhecida delas. Em Lauro de Freitas, a tradição popular de lavar a Igreja Matriz para a missa do padroeiro é bem antiga, mas só ganhou o formato atual, há 36 anos, dando início ao desfile cultural, de resgate à ancestralidade e respeito a Santo Amaro de Ipitanga.
 
José Mendes da Silva, 77 anos, um dos precursores deste movimento, se lembra ainda da década de 1983, quando no governo de Gerino de Souza Filho, assumiu o Setor de Turismo, que corresponderia hoje a uma secretaria. “Antigamente acontecia apenas a missa e mais nada. Reunimos então um grupo de amigos e articulamos com as baianas. Foi assim que começou a história da Lavagem de Santo Amaro de Ipitanga, sempre um sábado antes da missa do padroeiro”, conta.
 
O cortejo era puxado por dois bugres, acompanhado pela Ala das Baianas e a bandinha da Base Aérea. O trajeto sempre foi o mesmo: saia do estádio até a praça da Igreja Matriz. “Nestes anos eu vi a cidade se transformar: onde hoje tem a praça, era apenas um barreiro e a igreja. Eu morava ali em frente e todos os domingos, até hoje, vou à missa. Sou devoto de Santo Amaro e é uma alegria fazer parte dessa história”, conclui.
 
Quem também guarda boas memórias é Reginalda dos Reis Brito, 76 anos. Baiana desde quando? Desde sempre, responde convicta. Ela se lembra da época, meados dos anos de 1960, quando a comunidade se reunia para encher as latas d’água no rio e lavar não só as escadarias: “lavávamos o chão, os bancos. Era uma grande faxina, para que tudo estivesse pronto no dia 15, dia de Santo Amaro. Não tinha que estar vestida de baiana, isso começou depois que virou cidade. Antes era com qualquer roupa, até porque íamos buscar a água aqui no rio, e subíamos esse beco com as latas d’água na cabeça”, lembra.
 
Conversei brevemente com Regi, como prefere se chamada, sob a sombra de uma árvore, já na praça da Matriz, momento em que familiares vieram lhe comprimentar. “Minha família é toda daqui, e é com muito prazer que hoje, com 76 anos, continuo me vestindo de baiana para homenagear Santo Amaro de Ipitanga, de quem sou devota. E olha que eu nem vinha esse ano, fiz uma cirurgia nos olhos e não deveria estar aqui. Mas hoje eu acordei e senti que não poderia ficar de fora”, frisa.
 
Regi confessou não estar com a roupa que gostaria, “um Richelieu lindo”, que ela não conseguiu gomar. Pegou uma renda mais simples, que não diminuiu em nada sua beleza, e lá estava ela, por mais um ano, sorridente, toda paramentada de baiana, com sua quartinha na mão. “Que Santo Amaro proteja a nós todos nesse ano de 2019, e que seja melhor que o ano passado”, conclui.
 
A devoção a Santo Amaro de Ipitanga e a tradição do cortejo é passada de mãe para filha, a exemplo de Jaciara Oliveria, 46 anos, e sua filha Ariele, que tem 11 anos de idade e igual tempo vestida de baiana. Nascida em Barra (676 km de Salvador, no oeste da Bahia, localizada no encontro do Rio Grande com o Rio São Francisco), Jaciara precisou vir morar com seu irmão, Marciano, no bairro da Itinga. Ao ser convidada para participar da festa vestida de baiana, não pensou duas vezes. “Eu enlouqueci, rs! Está em nossas origens, eu sou do candomblé, e a emoção é muito grande. Fiquei tão apaixonada pela festa de Santo Amaro que passei a vir todos os anos, vinha até de barriga (grávida)”, conta.
 
Ariele é a caçula dos cinco filhos de Jaciara, e conta que apesar de não se lembrar de todos os detalhes – afinal começou a participar quando ainda estava na barriga da mãe –, gosta muito da energia que a festa irradia. “Me divirto muito e a cada ano é uma emoção diferente, pra melhor”, conclui.
 
O cortejo chegou ao seu destino por volta do meio dia. Na chegada à praça, a charanga Vem Com a Gente, a fanfarra Renovação da Bahia, o berimbau dos grupos de capoeira e os tambores dos grupos culturais tocam o mesmo ritmo, arrastando entusiasticamente a comunidade até as escadarias da igreja. Missão cumprida por mais um ano, renovando as energias e a fé em Santo Amaro de Ipitanga.
 
9 DIAS DE FESTAS
A imagem de Santo Amaro de Ipitanga completa 411 na cidade de Lauro de Freitas. As festas começaram dia 6 de janeiro, com a novena, no Espaço João Paulo 2º, e a quermesse, na praça da Matriz. Sob o tema “Unidos pelo Evangélio”, as atividades mobilizaram a comunidade católica, que mesmo com a reforma da igreja, não deixou de participar dos preparativos para a celebração do seu padroeiro.
 
No dia 12, sábado que antecedeu o dia consagrado ao santo, foi a vez do cortejo cultural, que reuniu 17 grupos culturais da cidade, puxados pela tradicional Ala das Baianas. Durante o cortejo, a prefeita de Lauro de Freitas, Moema Gramacho (PT), destacou a força da cultura no município e a importância dessa celebração. “Lauro de Freitas possui um potencial cultural muito grande, e mais uma vez ficou provado nesta festa de Santo Amaro. O cortejo cívico levou muita gente às ruas, com uma receptividade muito grande, além do nosso patrimônio imaterial que são as nossas baianas. A presença de representantes políticos só reforça a importância desse momento, e eu sou muito feliz por estar aqui mais uma vez”. 
 
O domingo, 15, dia oficial do padroeiro, começou com alvorada, as 6 horas, seguida pela missa campal celebrada por dom Estevam dos Santos, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Salvador, acompanhado pelo pároco Juraci Gomes, padres e diáconos. Em sua homilia, dom Estevam exaltou a importância de cultivar características como a tolerância, piedade, alegria, entusiasmo e oração, reforçando sempre a importância do padroeiro Santo Amaro de Ipitinga para o município. Padre Juraci, que conduz as atividades na igreja, não esconde seu respeito ao santo, e revela sempre aos fies seu desejo de ver a cidade voltar a se chamar Santo Amaro de Ipitanga.
 
Após a missa, a imagem do santo seguiu em carreata para a comunidade de São Pedro, no Jóquei Clube. De lá, na parte da tarde, saiu a procissão, em cânticos e orações pelas ruas do centro, até retornar à Igreja Matriz.
 
Os festejos ao padroeiro foram encerrados com um show do padre Alexandro Campos – o padre sertanejo, como ficou conhecido pelo visual e estilo musical –, que proporcionou ao público momentos de descontração e fé através das brincadeiras e da pregação que fez durante sua apresentação. Sua participação na festa foi um pedido especial da comunidade católica, atendido pela Prefeitura de Lauro de Freitas.

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