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Contos, crônicas e histórias da freguesia de Santo Amaro de Ipitanga

Thiara Reges - Em 28/02/2019

Capítulo 1: Dona Aidê, a festeira de Portão
 
Caíque Barbosa grava depoimentos de dona Aidê
 
Aidê Nascimento dos Anjos, 65, ou simplesmente dona Aidê, é uma figura bem conhecida da cena cultural de Lauro de Freitas. Mestre de Cultura Popular e responsável pelo Terno de Reis de Portão, dona Aidê tem orgulho de ser nascida, criada e residir até hoje no bairro de Portão. “Sou portãozeira”, afirma com fervor. As memórias da época de infância a fazem viajar no tempo e sorrir.
 
“O nome do bairro é Portão porque tudo isso aqui antes era uma fazenda, muito grande, tinha muito mato, e um portão que era realmente muito grande, mas que estava sempre aberto para a comunidade. Para ir de um lugar a outro, acessar o rio, tinha que passar por ele, e assim ficou. Portão!”. 
 
Filha de Manoel dos Anjos e Defina do Nascimento, dois irmãos, e uma vida muito simples, numa casa de taipa. O colchão, eles mesmos faziam, com palha que buscavam na vizinhança. A água tinha que buscar na fonte do Dendezeiro para encher o tonel, e ainda vendia para quem precisasse, por ‘10 mil réis’. Para cozinhar, tinha que cortar a lenha. Nos dias de festa, como São João e Natal, a casa era enfeitada com ‘areia alva’ e pitangas.
 
Participando de grupo de dança, nos anos 70
 
Apesar de tudo isso, dona Aidê não tira o sorriso do rosto. Da infância, lembra ainda das pescarias na beira do rio Joanes, das brincadeiras com bonecas de pano, da casinha com móveis feitos de caixa de fósforo coladas com goma, de jogar ‘baleou’ com as outras crianças, ou até mesmos dias inteiros lavando roupa, no ‘paiti’. “Já saia de casa com a farinha, o sal e um molho. O peixe era pescado na hora. No final da tarde voltava para casa com as roupas já dobradas dentro do balaio”, lembra.
 
Ainda criança, acompanhou a chegada de um circo na cidade. Ficou encantada e quando foram embora ela decidiu fazer seu próprio circo em casa. Pegava um biquíni e as anáguas de sua mãe, e dizia que era uma bailarina. Seu pai era muito rigoroso e quando viu aquela fantasia, deu-lhe uma surra. “Naquela época tudo era muito rigoroso, mas era aprendizado e me fez ser a Aidê que sou hoje”, diz.
 
As gincanas eram uma diversão à parte. “A gente sempre trazia o primeiro lugar, fazíamos de tudo. Num ano descobrimos com antecedência que iam pedir numa das provas para levar um bicho, uma coruja. Pensei: ‘Vamos para o mangue agora procurar esse bicho’. Atravessamos para o outro lado do rio, a ponte ainda era de madeira que dava para ver o rio embaixo, em tempo de cair na água. Pegar esse bicho deu trabalho. Uma das meninas lembrou que o bicho só saia de noite. Fomos para casa, deu de noite voltamos, naquela época não fazia medo, e achamos uma coruja enfiada dentro de um tronco. Ganhamos a gincana daquele ano”.
 
Sua mãe fez questão que todos os filhos estudassem. Dizia que eles precisavam dar exemplo a toda família. “Eu andava sempre alinhada, não porque pudesse, mas porque tinha uma tia que morava no Rio de Janeiro e me mandava roupas de presente. O uniforme da escola era bem passado. Todas as crianças usavam kichute, mas eu tinha um vulcabras, um sapato de luxo na época. Eu andava toda bonita”, conta.
 
Sonhava em ser professora. Com 16 anos juntava as crianças da rua para ensinar. O pai, carpinteiro, fazia as carteiras, e o resto era por sua conta. “Pouco tempo depois começaram as aulas da turma do Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização) ensino para adultos, idosos, pessoas analfabetas da cidade, no Colégio Constantino Vieira, e eu fui convidada para dar aula. Ainda hoje encontro com pessoas que foram meus alunos”.
 
Seu irmão é carpinteiro, sua irmã é pedagoga e dona Aidê se formou em PESSOALAdministração. Mas não foi assim tão fácil. “Primeiro fui fazer Contabilidade, lá no Lomanto, em Salvador. Mas não deu certo. A música e a dança eram muito fortes dentro de mim. Em vez de ir para aula, ia para o Malê de Balê. A dança sempre mexeu comigo, gostava muito. Quando tinha festa em Arembepe, Jauá, nós estávamos lá. Não tinha transporte. Íamos andando, mas não se perdia a festa”, conta sorrindo.
 
Como havia perdido a vaga em Contabilidade, foi preciso encontrar outro caminho. Começou a estudar no Colégio Ipitanga, mas era particular. Para conseguir o dinheiro para custear a escola, ajudava a mãe a lavar e passar roupas. “Minha mãe pegou roupa de três capitães da Base Aérea (Aeronáutica) para lavar. Eu ajudava ela. Saia de casa cedo, ia para a escola, e depois ia até a Base Aérea para fazer a entrega. Da escola para casa vinha andando pela ‘Pintangueira’. Não existia Vilas do Atlântico, transporte só tinha um, a ‘Matraca’. O nome é porque ‘matracava’ mesmo, só andava cheia e devagarzinho”, lembra. Por fim, deu certo. Dona Aidê se formou em Administração. 
 
Não se casou. “Namorei muito, muito mesmo. Naquela época a gente achava que só de encostar na pessoa já pegava barriga (rs). Morria de medo de engravidar, porque não queria ter filhos, não queria criar uma criança naquelas condições, numa casa de taipa. E minha mãe sempre dizia: ‘Se tiver seus filhos, não traga para eu criar!’. E ela estava certa, já havia criado nós três, não era obrigação dela. Mas posso dizer que tenho muitos filhos, tenho a minha comunidade de Portão”.
 
“Eu não posso passar pela rua de baixo,
todo mundo me chama, ôh cumadre gomar,
ôh goma, ôh goma, ôh goma de gomar” 
 
“Essa cantiga lembra de mim. Quando passo pelas ruas a criançada já vem perguntar quando sai o Terno de Reis, quando sai a Burrinha. Ensinei muita criança a dançar, fiz e faço muitos projetos culturais. No Carnaval deste ano saí no Ilê Aiyê e no Bankoma. Vou dizer que minha vida é ruim? Não posso! Tenho orgulho de ser a mulher negra de Portão”, conclui.
 
NOTA DO EDITOR A série “Memórias Ipitanguenses: contos, crônicas e histórias da freguesia de Santo Amaro de Ipitanga”, surge da parceria entre a revista Vilas Magazine e a Escola Municipal Ana Lúcia Magalhães. Nosso objetivo é contar as várias histórias de personagens da cidade de Lauro de Freitas, desde quando ainda se chamava Santo Amaro de Ipitanga. O pontapé para esse trabalho foi a produção do filme documentário “Memórias de Santo Amaro de Ipitanga”, (veja edição 241, janeiro de 2019). Podermos presenciar a história oral da comunidade, trazer luz para personagens que construíram referências da cidade e capturar as emoções de suas memórias através do olhar, nos é plenamente gratificante. Neste primeiro capítulo, conhecemos a história de dona Aidê, mestre de Cultura Popular, orgulhosa de sua infância e juventude bem vividos no bairro de Portão. Além de ler, você também pode assistir a história em vídeo. Confira no QR Code. Participaram da produção deste capítulo: Aidê Nascimento dos Anjos, professor Antonio Cláudio, Caíque Barbosa e a jornalista Thiara Reges.

 

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