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Terreiro São Jorge da Goméia celebra 70 anos de fundação

Redação Vilas Magazine - Em 01/05/2019

Seminário de dois dias recebeu convidados para visitas guiadas ao Terreiro, em Portão
 
Terreiro de São Jorge Filho da Goméia, de Portão, encerrou no final de abril as comemorações dos 70 anos de fundação – marcados no ano passado – com uma programação que se estendeu por dois dias, num seminário sobre a trajetória de Mãe Mirinha de Portão (21/12/1924 – 18/02/1989), que fundou a Casa em 23 de abril de 1948. O Terreiro é tombado como Patrimônio Cultural do Estado da Bahia desde 2004.
 
Filha de Santo de Joãozinho da Goméia, Altanira Maria da Conceição Souza, a Mãe Mirinha, foi responsável pela continuidade do legado dele, símbolo da preservação da cultura Banto na Bahia e é uma das matriarcas citadas na obra de referência “Mulheres Negras do Brasil”, de Schumaher e Vital Brazil (2007), que trata do papel da mulher negra na história e na construção da identidade nacional.
 
A Mameto Kamurici, Lúcia Neves, ou Mãe Lúcia de Portão, neta e herdeira de Mãe Mirinha, voltou a destacar a necessidade que a cultura de matriz africana tem de cultivar seus grandes nomes para preservar a própria herança cultural. Em abril, o Terreiro promoveu visitas guiadas e palestras sobre a importância do candomblé como celeiro cultural promotor de políticas públicas, esta proferida por Mãe Jaciara do Axé Abassa de Ogum.
 
“Mãe Mirinha era enfermeira parteira, agência de emprego, guia espiritual, era também a ‘voinha’ de todas as crianças da época da minha infância”, disse a Mameto em depoimento para o registro histórico do Terreiro. “Não tinha medo de ir buscar benefícios para o seu povo, tinha orgulho de suas vestes e indumentárias” – contou. “Saía vestida com suas jóias, seu pano de cabeça bem gomado, ia até o gabinete do governador, em Salvador e só saía depois de ser atendida” – e isso nos anos 50, quando o cenário era bem mais adverso.
 
Nascida na Fazenda Portão – origem do bairro de mesmo nome – em Santo Amaro de Ipitanga, Mãe Mirinha passou a vida empenhada em lutar pela sua comunidade. O transporte público regular, a construção do Hospital Geral Menandro de Faria, a criação de postos de saúde e ações de segurança alimentar foram algumas das pautas da religiosa.
 
O propósito das comemorações foi retratar e reconhecer a história de uma das Mameto Nkisi mais importantes da Bahia. Mirinha teria sido iniciada na religião em 17 de outubro de 1937, aos 12 anos, quando morava com a madrinha em Salvador. Filha de santo de Joãozinho da Goméia, símbolo de preservação da cultura Banto na Bahia, Altanira Maria Conceição Souza, a Mãe Mirinha, teve papel de destaque também na vida de Portão, desenvolvendo amplo trabalho social e atuando sempre junto ao poder público por melhorias na comunidade.
 
A relevância de Mãe Mirinha para Portão e Santo Amaro de Ipitanga ficou registrada em “História viva: exposição da história de vida de Mãe Mirinha de Portão”, de 2012, do Projeto Cultural Afro Bankoma. A construção do Hospital Menandro de Faria, por exemplo, ainda hoje o único hospital geral da cidade, nasceu das gestões de Mãe Mirinha junto ao então governador Roberto Santos.
 
João Alves Torres Filho, o Joãozinho da Goméia, por sua vez filho de Manuel Severiano de Abreu, Jubiabá – outra figura lendária do candomblé baiano – é tido como o primeiro pai de santo a perceber o poder da comunicação, muitas vezes por meio de polêmicas, usando-o para diminuir a discriminação, realidade muito mais grave há 70 anos.
 
Amiga de Jorge Amado, Mãe Mirinha participou das filmagens de Pastores da Noite, de Marcel Camus (1975) e de Tenda dos Milagres, de Nelson Pereira dos Santos (1977). Nomes como Hugo Carvana, Antônio Pitanga e Grande Otelo, que atuam nos filmes, ajudaram a propagar a cultura negra da Bahia em todo o país e no exterior.
 
O roteiro de Tenda dos Milagres menciona o terreiro “da Mirinha do Portão”, onde uma rara sequência registra uma festa com a Mameto Mirinha a presidir. No contexto dos anos 70, quando se começava a discutir a inclusão social da população negra – e a combater a negação da realidade racista brasileira – a participação da mãe de santo no filme ainda hoje é objeto de pesquisa.

 

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