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“Se pensamos o mercado como um todo, estamos muito atrasados”

Thiara Reges - Em 01/05/2019

Em entrevista à jornalista Thiara Reges, Eduardo Lobo, presidente da
Abas, fala sobre os desafios para o desenvolvimento das startups na Bahia
Empreender. Com tantas incertezas no mercado de trabalho, resultado da crise política e econômica de 2014, esse termo se tornou frequente no vocabulário dos brasileiros. Algumas pessoas se viram sem opções e começaram meio que ao acaso. Já outras, enxergaram nas adversidades a oportunidade de iniciar seu próprio negócio. O que se sabe ao certo é que cresce a cada dia o número de novos empreendedores no Brasil, sobretudo em forma de startups.
 
Segundo levantamento da ABStartups (Associação Brasileira de Startups), a instituição encerrou 2017 com 5.147 startups cadastradas, um crescimento de 104% em relação a 2012. Mas estima-se que o número seja ainda maior, cerca de 10 a 15 mil, se levar em consideração aquelas que ainda estão no processo de formalização.
 
Eduardo Lobo, 31, presidente da Abas (Associação Baiana de Startups), destaca que além do estado de crise, que favorece a formação de empreendedores, o fortalecimento do setor de tecnologia e inovação de grandes instituições e do conceito de comunidade, foram essenciais para este despertar. “Nesse contexto o papel da ABStartups ganha força; o Sebrae criou uma área de startup dentro da instituição; o próprio SENAI CIMATEC, que já era muito forte na inovação, criou a Acelera CIMATEC, e hoje quase todas as grandes empresas que operam no Brasil possuem um programa de inovação e startups, a exemplo do Bradesco, Itaú, Braskem entre outros. Então várias peças do quebra-cabeça se juntaram, formando uma massa crítica mais relevante de empreendedores, que começaram a desenvolver esse papel e nesse caminho foram surgindo também as iniciativas locais, que é o caso da Abas”, frisa.
 
Em Salvador já existem 150 empresas mapeadas pela Abas, um número ainda baixo se comparado com outras capitais brasileiras com o mesmo potencial econômico. Mas apesar disso, o ecossistema All Saints Bay, como é chamada a comunidade de startups de Salvador, já chama atenção dos investidores nacionais e internacionais, e não demora, muito em breve teremos um unicórnio (empresa de tecnologia avaliada em mais de US$ 1 bilhão no mercado).
 
APOIO E INCENTIVOS
Empresário com mais de dez anos de experiência e CEO da startup QrPoint, Eduardo acredita que no caso da Bahia ainda existem alguns entraves a serem superados. Além de termos começado tarde, se comparado a outros centros nacionais com a mesma densidade comercial, falta também um olhar mais criterioso de instituições públicas, não apenas no que tange ao investimento financeiro.
 
Ele lembra que em 2015 foi ao Rio de Janeiro conhecer um projeto de inovação e tecnologia da Universidade Estácio, e voltou determinado a trabalhar com inovação. Apesar de já ter uma empresa, Eduardo demorou dois anos para conseguir formalizar sua startup. “Ali eu percebi quanto era difícil para as startups que estão começando e que não tem qualquer apoio. Um jovem de 18 anos pode ter uma ideia maravilhosa, mas vai acabar morrendo assim que esbarrar nessas burocracias. Até no Sebrae eu tive dificuldade de acessar naquele primeiro momento”, conta.
 
Do ponto vista das ações públicas, o governo federal desenvolve projetos desde 2014, através do Ministério da Ciências e Tecnologia, com recursos do BNDES, da ABDI (Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial), além de programas de aceleração, como o Inovativa. “Esses programas funcionam, mas basicamente tudo se concentra no BNDES e não é tão fácil acessar esse capital”, frisa.
 
No âmbito estadual, apesar de existir a SECT (Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação) e o Parque Tecnológico, uma ideia muito boa mas que está esquecida, muitas atividades esbarram na burocracia. As startups que se instalaram no parque, por exemplo, destacam que apesar do aluguel bem mais barato, não tem estrutura física e nem assistência.
 
Mas na esfera municipal o cenário é animador. A prefeitura de Salvador inaugurou em 2018 o Hub Salvador, que está ativo, sendo administrado por iniciativa privada, além das ações realizada pela SECIS (Secretaria de Sustentabilidade, Inovação e Resiliência). “A equipe da secretaria está muito focada, ouvindo os empreendedores. Estamos agora na expectativa da inauguração do Colabore, no Parque da Cidade, uma iniciativa que vai fomentar muitas startups sociais. Então percebemos que a prefeitura conseguiu extrapolar os editais e programas, colocando a demanda das startups na pauta da gestão”, afirma Eduardo.
 
SAN PEDRO VALLEY: EXEMPLO A SER SEGUIDO
O ecossistema San Pedro Valley, em Belo Horizonte, nasceu quando cinco empreendedores de startups, por coincidência, tomavam café da manhã todos os dias no mesmo local, isso em meados de 2013. De lá pra cá, BH vem se destacando no cenário nacional, uma consequência da cultura de inovação e tecnologia que nasce dentro da universidade federal.
 
Em parceira com a UFMG, a comunidade San Pedro Valley desenvolveu um curso de empreendedorismo, com as aulas ministradas por empreendedores do ecossistema, de forma completamente colaborativa sem gerar custos para a instituição, e este ano formam a quinta turma de novos empreendedores. Além disso, desde 2006 o Google mantém em BH um centro de engenharia, único dedicado exclusivamente a pesquisa e desenvolvimento na América Latina.
 
“Estamos há dois anos e meio em diálogo com a UFBA, para implantação de um curso no mesmo modelo aqui em Salvador, e esbarramos na burocracia. Existe a possibilidade que o curso aconteça no segundo semestre deste ano, mas ainda não é certo”, frisa Eduardo.
 
Ele destaca que para obter sucesso as startups precisam basicamente de quatro coisas: capital, clientes, pessoas e tecnologia. “Para ter tecnologia precisamos das universidades desenvolvendo pesquisas de qualidade. Os grandes centros são o que são por conta das universidades, e o maior exemplo disso é o Vale do Silício.
 
Além disso, se a universidade não desenvolve pessoas, não temos nível técnico necessário, e não podemos contar apenas com os autodidatas. Na UFBA, por exemplo, não é explorada a linha pesquisa para mercado. No último ano melhorou muito, mas por conta das universidades privadas. Unifacs e Unijorge, por exemplo, já possuem núcleo de empreendedorismo.
 
ABAS E ALL SAINTS BAY
Mas apesar dessas adversidades algumas startups baianas começam a se destacar acima da curva. Um desses casos é a JusBrasil, o maior portal jurídico do mundo. A empresa já existe há nove anos, mudou várias vezes seu modelo de mercado, e hoje, líder do segmento, está no processo de internacionalização recebendo investimentos do Vale do Silício.
 
“A sede da JusBrasil é aqui em Salvador, e isso foi uma escolha da empresa, muito pautado no conceito de ecossistema. Se pensarmos bem, nenhuma das grandes empresas que nasceram em Salvador estão aqui, a maioria foi para São Paulo. Mas no caso das startups o sentimento é diferente, existe o senso de pertencimento”, conta Eduardo. E neste contexto, outro exemplo é a Sanar, uma startup voltada para educação na área médica, que mantém seu escritório em também em Salvador com mais de 120 funcionários, e meta de ampliação para 200 até o final do ano.
 
Para ajudar no fomento das startups é que surge a Abas, em 2016. No primeiro ano, a atuação foi voltada para apresentar a associação para os empreendedores e instituições. “Começamos com três startups e sete parceiros. A partir daí passamos a conhecer e entender o que cada startup precisava para então ajudar a realizar. Entre 2017 e 2018 executamos muitos projetos, com densidade, entramos no mapeamento de ecossistemas e startups da ABStartups, conseguimos pautar a imprensa, e ser os representantes desse segmento junto à esfera pública”, frisa.
 
Um dos projetos realizados pela Abas, ‘Atire a primeira pedra’, com objetivo de validação de ideias, onde as startups e empreendedores que estão iniciando têm a oportunidade de apresentar seus pitch para uma banca de especialistas, revelou mais um case para o mercado baiano: a Construcoach. A startup foi acelerada por um investidor e hoje é uma empresa que vale R$ 3,5 milhões.
 
Para 2019 estão previstas algumas ações como o lançamento do portal o All Saints Bay, além de fortalecer e expandir os eventos. “All Saints Bay, foi criado agora, em 2017, estamos atrasados em comparação aos outros centros, e o nosso esforço terá que ser maior. Mas o que posso destacar desses dois anos é que o senso de comunidade, de ecossistema, é muito maior do que a associação, e é assim que tem que ser, tanto por parte dos empreendedores como das instituições. É que empreender é uma missão tão solitária que esquecemos de olhar para o lado, de ajudar o próximo e de nos ajudar. Por isso o ecossistema é tão importante”, conclui.
 
Cases de sucesso em Lauro de Freitas
 
Singelo
A ideia nasceu de uma necessidade de Uelinton Palma, 24, mas que com certeza já aconteceu com várias pessoas: como encontrar um profissional de serviço, com garantia de ser uma mão de obra qualificada? Do pensamento para a execução não demorou muito. Ueliton usou os próprios conhecimentos de programador, para montar um site, e agora trabalha no desenvolvimento de um aplicativo para celular, com lançamento previsto para este mês. A meta é que o Singelo ajude na intermediação entre profissionais de serviços e pessoas que procuram por mão de obra qualificada. “O mercado está aberto para as startups na Bahia, e na minha opinião isso se dá pelo fato de presenciarmos cases de sucesso perto de nós. O fato de pequenos grupos de pessoas, com grandes ideias e poder de execução, alcançarem o sucesso, incentiva e inspira aqueles que um dia sonharam em ter seu próprio negócio. Eu me arrisco dizer que daqui há alguns anos, a Bahia esteja nas primeiras posições em polos de startups do Brasil”, destaca Uelinton.
 
Mini Maker Labs
Tudo começou com o projeto de mestrado de Peterson Lobato, 45 anos. Usar a impressão 3D para estimular o ensino de robótica nas escolas, através de atividades lúdicas baseadas em problemas da vida real. O primeiro passo para que o projeto evoluísse para uma startup, foi a participação na Campus Party. O projeto teve uma repercussão muito grande e recebemos apoio da aceleradora do SENAI CIMATEC.
 
Hoje, após um ano de empresa, o Mini Maker Lab leva para as escolas um mini laboratório, disseminando a cultura maker e estimulando a aprendizagem. Peterson acredita que o mercado está aberto para as startups, inclusive do ponto de vista de aporte financeiro. “Existem possibilidades reais para que pessoas com ideias inovadoras iniciem o seu projeto. Ficamos de olho no vários editais abertos, SENAI, CNPQ, e, no nosso caso foi acessível, foi fácil atender o que nos foi solicitado e conseguimos o apoio. Sou aluno de doutorado, meu sócio é aluno de graduação, não tínhamos recursos próprios para investir e olha onde já chegamos”, frisa.

 

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