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TUDE CELESTINO DE SOUZA: Poesia, Memória e Identidade Ipitanguense

Tina Tude - Em 01/05/2019

O ano de 2019 marca na memória local a efeméride de 30 anos de ausência da mais célebre referência da poesia ipitanguense: o poeta Tude Celestino de Souza (25/6/1921 – 21/7/1989). Aliás, a memória de Tude Celestino está intimamente ligada à própria celebração da memória local, vez que fora o poeta o precursor do pensamento que rege a noção de memória e identidade ipitanguense como conhecemos hoje e que começa a ser, aos poucos, assimilada pelas novas gerações em propícia e fecunda iniciativa de reparação das pertenças originais de nosso território ancestral.
 
Tude Celestino, célebre figura da galeria de notáveis da cultura local, cânone da poesia ipitanguense, destacou-se em seu tempo, tanto pela atuação poética, quanto pela veemente atuação ideológica referente à preservação das matrizes ancestrais da memória e origem desta comunidade.
 
Nascido na região (que hoje compreende o território) de Campo Formoso, fora criado em Ilhéus, de onde partiu, ainda jovem, para a capital da Bahia, vindo se estabelecer nessas plagas por ocasião da fundação da Base Aérea de Ypitanga, em cuja construção veio atuar no ofício de agente administrativo – uma espécie de gestor de RH da época –, que lhe ofereceu a oportunidade de, entre os turnos em serviço, desenvolver suas notáveis habilidades intelectuais e, especialmente, a verve poética.
 
A despeito do limitadíssimo acesso à educação formal (tendo falecido o pai, Tude, junto ao irmão, fora levado a deixar os estudos no 4º ano primário para auxiliar a mãe a prover os sustento e estudo das irmãs mais novas), a sofisticação intelectual do poeta se fez notar precocemente e, autodidata, o ainda infante Codó (apelido familiar), dedicou-se com empenho devocional à leitura de clássicos universais que influenciaram, mais tarde, seu estilo e forma poética.
 
Já na capital, mancebo galante e gozando de ampla desenvoltura e circulação nas altas rodas da intelectualidade boêmia da “velha São Salvador” dos anos 40 (e até os já findos anos 70, quando encerrou as jornadas de “romarias noturnas” ao ser acometido pela cegueira proveniente do diabetes), o poeta inscreveu seu nome junto a personalidades do reduto das letras, das artes e do pensamento na Bahia e da poesia eminentemente nordestina.
 
Em seu tempo, entre os saraus sob a mangueira de seu quintal e as visitas ao Tabaris, Bar Brasil, Colón ou Cantina da Lua, Tude esteve sempre em efusiva atuação poética, tendo convivido com intelectuais e poetas seus contemporâneos como, os ainda ativos, Adelmo Oliveira, Ruy Espinheira Filho, Clarindo Silva, Bule Bule e Chico Pedrosa, além dos já saudosos Zé Laurentino, Fabio Amado, Angelo Roberto, Ederaldo Gentil, Ildásio Tavares, Fred Souza Castro, Gilberto Baraúna, Nelson Gallo, Fuad Maron, Wilson Mello e o mais habitual parceiro de rondas poéticas, o poeta e jornalista Jehová de Carvalho – que o declarou “um ente sagrado de impossível repetição”, no prefácio da segunda edição de O Ás de Ouro.
 
O ÁS DE OURO
Sobre “O Ás de Ouro”, único livro do poeta, aliás, cabe referência ao fato de uma segunda edição revista e ampliada estar em fase final de revisão editorial quando do falecimento do autor e, assim, aguardar, há já 30 anos, a oportunidade de um lançamento condigno, compatível com o vulto e envergadura da representatividade da poética tudina para as letras em nossa comunidade.
 
Enquanto “O Ás de Ouro – o Livro”, aguarda lançamento oportuno, “O Ás de Ouro - a Poesia”, segue cumprindo o curso de disseminação do estro poético do autor através da interpretação de eventuais récitas da Poesia Tudina.
 
A trilogia inaugurada pelo poema “O Ás de Ouro”, o mais emblemático de sua lavra, oferece a nosso imaginário uma comovente e atemporal saga fictícia sobre vingança e perdão, de onde se percebem ecos de Catulo da Paixão Cearense a Sófocles, Ésquilo e Dante.
 
De exuberante narrativa poética em primeira pessoa e sob notas do cordel e da tragediologia grega antiga, narra “uma como que epopéia da vida de seu pai, cujo nome se perdeu no apelido que dá nome ao poema”, como nos descreve Jehová de Carvalho no já referido prefacio.
 
A respeito da motivação para a composição da trilogia “O Ás de Ouro” – integrada ainda pelos poemas A Vingança de Zé de Aninha e Redenção –, teria dito o poeta: “Eu tinha dois caminhos para elaborar o sentimento de revolta e desejo de vingança: um, era me tornar assassino. Outro, era me tornar poeta”.
 
Assim, Tude Celestino sela seu destino como pessoa e literata, ao empreender uma catarse poética que nos convida a refletir as múltiplas faces da vingança e, sobretudo, o poder universal do perdão.
 
LAURO DE FREITAS: TOPÔNIMO E IDENTIDADE
Eram os anos 60, plenos anos de chumbo no Brasil, o então distrito de Ipitanga, outrora zona de interesse das forças armadas pela localização estratégica que levou a região a sediar o Aeródromo (mais tarde, Base Aérea e, por fim, Aeroporto de Ipitanga), agora se mostrava zona de interesse político, atraindo o olhar dos entusiastas dos populares movimentos de emancipações territoriais.
 
Junto ao território da Água Cumprida, propusera-se emancipar também o distrito de Ipitanga e, assim, nasce, junto a tal mobilização, a proposição de dar visibilidade à memória de personalidades relevantes para a Bahia e, por um mero casuísmo dos trâmites burocráticos, atribuiu-se o topônimo Lauro de Freitas a este território (que, inicialmente, inclusive, seria denominado Simões Filho – em honra ao notório jornalista Ernesto Simões Filho, fundador do jornal A Tarde).
 
Diante de tal panorama, então, o poeta Tude se manifesta contrário à atribuição do nome do célebre engenheiro Lauro Farani Pedreira de Freitas ao futuro município, argumentando justamente que (embora sendo o homenageado digno de honras devidas por sua indelével importância para o desenvolvimento do Estado, enquanto fundador da Cia. Leste Ferroviária), não lhe parecia justo enaltecer a memória de um único indivíduo em detrimento da memória de toda uma civilização – referindo-se, então, à pertença de matriz tupinambá resguardada na memória do território ancestral de Ipitanga.
 
Assim, tendo declinado da honraria de ser declarado oficialmente o primeiro Cidadão Laurofreitense, o poeta, guardando coerência com os princípios que seguia, recusou o título e se autoproclamou Cidadão Ipitanguense.
 
EMANCIPAÇÃO E MEMÓRIA DE IPITANGA
Se, por um lado, o poeta se dedicou intelectualmente, como cidadão, a manifestar publicamente seu descontentamento pela atribuição do topônimo Lauro de Freitas na ocasião de emancipação municipal (ocorrida em 31/7/1962), poeticamente, sua obra nunca registrou qualquer referência direta a tal posicionamento ideológico. Contudo, é em seu pensamento manifesto que se verificou um ato de irrefutável colaboração para a salvaguarda da memória e pertenças ancestrais de Ipitanga após a emancipação, ao situar toda e cada composição poética, em Ipitanga, Santo Amaro de Ipitanga ou Santo Amaro do Ipitanga.
 
Até o último verso composto, já em leito de morte, o poeta se referiu sempre a esse território por seu nome de origem, fazendo surgir na contemporaneidade o seu reconhecimento como patrono da noção de Identidade Ipitanguense e do que decorreria, por fim, a proposição de se declarar oficialmente o gentílico ipitanguense como política reparatória da memória local.
 
IPITANGA: BERÇO-RIO
Ao se declarar ipitanguense, Tude, muito provavelmente em ato plenamente espontâneo, não calculado, marca em seu tempo e memória a mais relevante referência à celebração da memória deste povo e lugar e, por via indireta, tal pensamento, oportunamente, vem corroborar com os anseios universais contemporâneos no que tange à necessidade de medidas emergentes para a salvaguarda ambiental de bens do patrimônio natural, em especial, do reino das águas.
 
A noção de Identidade Ipitanguense para Lauro de Freitas, em primeira instância, refere objetivamente ao reconhecimento do Rio Y-Pitanga como ente inaugural do território ancestral e, em tal feição, convida, sobretudo, ao compromisso pela revitalização de suas águas outrora vermelhas.
 
Segundo nosso imortal historiador Gildásio Freitas – contemporâneo e amigo de Tude Celestino, coautor (junto a Emanuel Paranhos, também amigo do poeta), do livro “História de Lauro de Freitas - Antiga Freguesia de Santo Amaro do Ipitanga”, estima- se que o elevado índice de minério de ferro nas águas do rio ocasionava uma coloração avermelhada e teria sido a provável motivação para a denominação atribuída pelos tupinambás.
 
A terminologia Y-Pitanga, portanto, em língua original, significa, literalmente, água vermelha – em alusão ao fruto de cor peculiar e de grande incidência no solo ancestral.
 
Esse entendimento do Rio Ipitanga como origem e pertença ancestral do município nos demanda medidas estratégicas para a gestão sustentável e manejo de recursos hídricos que apontam para o que parece ser a gênese de um despertar para o etnossociodesenvolvimento local sustentável. Reconhecer o Ipitanga como berço-rio implica uma veemente, profunda e favorável ação de ressignificação de nossa memória e identidade.
 
IDENTIDADE IPITANGUENSE
portunamente, ainda quanto à memória local e Identidade Ipitanguense, podem-se prever medidas concretas para implementação de uma política reparatória das pertenças ancestrais dos povos originais a serem adotadas com êxito em nossa comunidade. Se, no âmbito da salvaguarda do Patrimônio Material, podemos destacar o compromisso da municipalidade com a revitalização ambiental do Rio Ipitanga enquanto pertença hídrica elementar para o abastecimento da RMS, no que tange aos bens do Patrimônio Imaterial, cumpre-se integrar também a tal iniciativa um amplo programa de conscientização do imaginário popular a respeito do reconhecimento efetivo do Rio Ipitanga como elemento legítimo da identidade e origem local.
 
Tal entendimento, além de sublinhar a obra vultuosa que se prospecta em nível de despoluição do rio, cumprirá a demanda reprimida de consolidação da identidade municipal – outrora fragmentada pelos diversos infortúnios ocasionados por nosso controverso processo emancipatório (que, ao atribuir o topônimo Lauro de Freitas ao então emancipado município, comprometeu as referências ancestrais de memória e identidade desse povo nosso).
 
Convém lembrar que é justo neste panorama que surge a voz e pensamento do poeta Tude Celestino, em sua intervenção visionária, ao vaticinar que a atribuição do topônimo Lauro de Freitas a essas terras ancestrais do antigo distrito de Y-Pitanga, por ocasião da emancipação, deflagraria um processo de alienação da identidade deste povo.
 
CELEBRAÇÕES E HOMENAGENS AO POETA DE IPITANGA
Pensando, pois, em atos relativos à data memorial do poeta Tude Celestino de Souza, não seria demais, finalmente, atender à reiterada sugestão de Gildásio Freitas pela denominação do Centro de Cultura Tude Celestino de Souza ao antigo Cine Teatro de Lauro de Freitas.
 
Outra oportuna intervenção viria a ser a realização de uma edição especial de “O Ás de Ouro” e até mesmo a instituição da Lei da Memória do Ipitanga (PL 040/2015, que propõe o reconhecimento efetivo do Rio Ipitanga como origem do território municipal) e da qual decorreria, a posteriori, atribuição do gentílico Ipitanguense ao município de Lauro de Freitas.
 
Oxalá seja, em tal panorama futuro, caberá, afinal, a outorga do título póstumo de Cidadania Ipitanguense ao poeta que nos anteviu a memória e semeou o gérmen da reparação de nossa identidade.
 
Rua Queira Deus, entrada do terreiro de Mãe Mirinha, em Portão, nos idos de Santo Amaro de Ipitanga
 
CEGUEIRA E VISÃO ARGUTA
Tude, com a sabedoria e visão apurada dos cegos, anteviu o panorama atual da (des)identidade local. Previu o esboroamento das pertenças de identidade de seu povo e flagrou elementos que escapavam aos mais incautos dos emancipadores. Qual Tirésias, o sábio cego que alertou o Rei Édipo quanto à motivação para a peste que acometera Tebas, vendo (sem enxergar), o que o rei, com olhos sãos, não via, Tude, o poeta cego, viu o que os mandatários do poder não viram. Percebeu que, ainda que tardiamente, viria a conta a pagar pela violência simbólica de destituir o nome de um povo – um referencial basilar à constituição da identidade.
 
Ao apontar o distúrbio que ocasionaria o apagamento da pertença ancestral do Ypitanga, o poeta demonstrou sua arguta visão e profunda sensibilidade frente a causas próprias da natureza do intangível, como vem a ser a causa das questões do patrimônio imaterial, da memória e do simbólico. É da natureza do simbólico que trata, afinal, a causa da Identidade Ipitanguense. É da natureza do simbólico que trata, também, a reverência que se presta aqui à memória do poeta.
 
À guisa de considerações finais, eu, ativista pela perpetuação de seu pensamento, herdeira intelectual de sua obra, representante de seu legado e gestora de políticas públicas da Cultura em nossa comunidade, poderia dizer um tanto mais de palavras sobre a potência afirmativa da Poesia Tudina e da influência de Tude Celestino de Souza para a consolidação da Identidade Ipitanguense como política reparatória da memória dos povos inaugurais na contemporaneidade de Lauro de Freitas, mas, apenas hoje, peço licença para, apenas como filha, privada ao nascimento do mais elementar e prosaico olhar paterno, declarar apenas: “Painho, há 30 anos meus olhos buscam o azul dos teus. Painho, minha trajetória é minha homenagem e exercício filial. Obrigada, painho... por ‘tude’.”
 
Ipitanga, Março de 2019
 
Tina Tude é atriz, educadora e ativista pela salvaguarda das pertenças de identidade do território ancestral de Ipitanga, herdeira intelectual e intérprete da obra do poeta Tude Celestino de Souza, fundadora da cadeira Tude Celestino de Souza na Academia de Letras e Artes de Lauro de Freitas e titular da cadeira de Revisão Historiográfica, Memória e Identidade no Conselho Municipal de Políticas Culturais de Lauro de Freitas.

 

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