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Costureiras, Sapateiros, Alfaiates: Profissões tradicionais correm risco de extinção

Thiara Reges - Em 01/05/2019

Aristóteles Santos e Maria de Jesus, são moradores de Lauro de Freitas e compartilham de algo em comum: exercem profissões que estão entrando para a lista do esquecimento. Ele é sapateiro e ela é costureira de corte e costura.
 
Esses são apenas dois exemplos de profissões tradicionais com elevado risco de extinção. 
 
A revolução tecnológica e digital tem provocado grandes mudanças no modelo de mercado que estávamos acostumados. Além de telefonista e agente de viagens, por exemplo, que há um bom tempo não ouvimos falar, a previsão, segundo dados do Instituto Sapiens, é que até 2050 não existam mais secretárias, caixas de loja e supermercados e funcionários de banco.
 
Para Shirlei Santos, gestora do Sebrae em Lauro de Freitas, o desinteresse por essas profissões está relacionado também às mudanças de comportamento do consumidor, que moldam o ritmo do mercado. “Hoje existem lojas que atendem aos mais diversos nichos de mercado, e as pessoas já encontram roupas prontas que se encaixam tanto no seu corpo como em seu estilo, o que diminui por muito tempo a procura pelas costureiras. No caso dos sapatos, podemos destacar também que a indústria da moda segue ciclos para as suas coleções, lançando sempre algo novo, o que torna os produtos, e o consumo, de certa forma descartáveis”, afirma.
 
Maria de Jesus, costureira há 43 anos, destaca que até já foi procurada algumas vezes para dar cursos de corte e costura, mas não consegue encaixar o convite em sua rotina do cotidiano. Com a redução da presença de costureiras a demanda por pequenos ajustes e confecção de roupas, principalmente vestidos de festa, sempre cresce.
 
Na sapataria, ambiente que Aristóteles Santos conhece desde menino, a realidade não é diferente. No espaço de tempo em que estive com ele para a nossa entrevista, fomos interrompidos pelo menos cinco vezes por clientes levando ou buscando sapatos.
 
Ao longo do mês de abril, procuramos por um alfaiate, sem sucesso. Segundo seu Aristóteles, todos que ele conhecia já faleceram, sem conseguirem formar sucessores nesta nova geração.
 
COLA E CERA. SOLADO E SALTO
Encontrar seu Aristóteles Santos, 72, foi um pouco difícil. Tote, como é mais conhecido, mantém sua sapataria no centro comercial de Lauro de Freitas, sem nenhuma placa ou divulgação, mas o movimento é constante.
 
Ele é sapateiro desde os 13 anos de idade. “Aprendi o ofício lá no meu interior, Paripiranga. Na minha época, quando a criança chegava nessa idade, tinha que estudar e aprender um ofício, e eu escolhi este de sapateiro. Era tudo muito manual, não tinha ferramentas. Me lembro que a sola do sapato era raspada com vidro e o acabamento era feito com cera, a mesma de encerar piso, então esquentava com o fogo da candeia, e passava a escova”, lembra.
 
Veio para Região Metropolitana de Salvador em 1974 trabalhar na fábrica de calçados Tamba. “Você nem sujava a mão, tinha máquina para tudo, para lixar, prensar, montar o sapato”, conta. Quando a Tamba fechou, ele se instalou em Lauro de Freitas e montou um pequeno fabrico. Em média a produção diária era de 15 pares, no caso de sapato fechado, e 30 pares, quando fazia sandálias de tiras.
 
Tem cerca de cinco anos que seu Aristóteles fechou o fabrico, e se dedica apenas aos pequenos reparos. “Já sou aposentado, mas não quero ficar dentro de casa para morrer mais cedo (rsrsrs). É isso que eu sei fazer”.
 
“Hoje ninguém mais quer seguir essa profissão. Tenho esse rapaz (aponta para o ajudante) que fica aqui comigo, ele estuda, é músico, e vem aqui apenas como hobbie, não vai seguir a profissão. E da mesma forma, se você for em Salvador, é muito difícil encontrar. Antigamente a Baixa dos Sapateiros, o Taboão, eram cheios de fabrico de sapatos, mas hoje é difícil se encontrar”, ressalta.
 
Pode até ser difícil encontrar um sapateiro, e talvez seja por isso que ele não pare um segundo. A todo momento chegava um cliente, para buscar ou deixar sapatos que precisam de reparos: “Nem coloquei placa aqui na frente, pois não iria dar conta da demanda. Se eu abrir de domingo a domingo, terei trabalho todos os dias”, conta, com um sorriso de satisfação.
 
COSTUREIRA DE CORTE E COSTURA
Maria de Jesus, 52, mais conhecida como Lia, é costureira há 43 anos. Nascida em Tobias Barreto (SE), a cidade das confecções, costurar não era exatamente algo raro. “É muito comum na minha cidade, crianças de nove ou 10 anos costurando, e comigo não seria diferente. Minha mãe mandou fazer uma roupa e quando ficou pronta eu não gostei. Disse que se eu tivesse uma máquina eu mesma fazia. Meu pai comprou a máquina. Era um modelo simples, máquina doméstica, e eu não tive curso, na minha família ninguém costurava. Pegava uma roupa velha, descosturava toda, colocava sobre o pano e fazia o corte. Assim eu aprendi”, conta.
 
Com 12 anos Lia já era costureira profissional, trabalhava para terceiros e fazia roupas para os familiares. A inspiração veio de dona Lindinalva, a mãe de uma amiga. “Quando acabava a aula, ia para a casa de minha amiga e fica a tarde toda observando a mãe dela fazer bordado, bordado de máquina”, lembra. Depois de um tempo Lia foi morar em São Paulo. Lá ela comprava revistas de costura que vem com molde, e foi ficando cada vez mais experiente.
 
Veio para Lauro de Freitas, há 26 anos, trabalhar em fábricas, mas hoje mantém parceria em um ateliê de costura. “Aqui temos demandas, tanto de ajustes como de fazer a peça desde o início. Muitas pessoas me procuram para fazer roupas para festa, pois querem um modelo exclusivo. Sinto que ficou mais difícil encontrar costureiras de corte e costura, e percebo até pela reação de felicidade das pessoas quando descobrem que no ateliê vão conseguir fazer a roupa do seu jeito”, ressalta.
 
Hoje na família de Lia, contando com ela, são quatro costureiras, mas a profissão está com os dias contados. “De nós quatro, apenas eu sou costureira de corte e costura; a minha irmã mais nova já não se interessou, e das minhas sobrinhas, nenhuma quis seguir a profissão”, finaliza.
 
NOVO MOLDE
Mas nem tudo está perdido, pelo menos para a costura. Michele Queiroz, 41, sócia do Atelier Lull, tem várias turmas de segunda a sexta, nos dois turnos, como homens e mulheres, interessados em aprender molde, corte e costura. A empresa existe desde 2013, no bairro do Rio Vermelho, em Salvador, mas pela grande procura de interessados de Lauro de Freitas, há um ano ela montou uma filial em Vilas do Atlântico.
 
“Tem três públicos que nos procuram com mais frequência: donos de lojas, que terceirizam esse serviço e decidem aprender; pessoas a partir de 30 anos, que buscam um hobbie ou um resgate de suas memórias afetivas e querem costurar, porque suas avós costuravam, mas se descobrem e começam a costurar profissionalmente; e pessoas em busca de colocação no mercado de trabalho ou renda extra”, afirma.
 
Michele mesmo é um exemplo. Formada em administração, ela foi em busca do curso como hobbie, há cerca sete anos, quando ainda trabalhava no Pólo Industrial de Camaçari. Depois do Pólo abriu uma loja de roupa infantil que não deu certo. Foi então que Sara Costa, sua professora de costura, lhe convidou para avançar de aluna para sócia, e expandir o negócio.
 
Quanto ao grande número de pessoas que buscam pelo curso, tanto em Lauro como em Salvador, Michele destaca o despertar contemporâneo para o consumo consciente, em todas as suas vertentes. “A busca pelo consumo consciente tem um papel importantíssimo, e leva as pessoas a procurar pelo curso de costura. As pessoas têm mais acesso à informação, e assim começam a dominar questões, como qualidade dos produtos, mas também investigam sobre o percurso da roupa, desde a confecção até o seu armário, levando em consideração fatores sociais, como a escravidão trabalhista, por exemplo”, destaca.
 
O curso inicial dura um mês. Este é o período para conhecer e dominar a máquina e todos os seus recursos. Depois, cada alunoa monta sua grade de aulas de acordo com a sua necessidade. “Tenho pessoas que fazem apenas o primeiro mês. Tem gente que está comigo há três meses, e uma aluna há um ano”, conclui.
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