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MEMÓRIAS IPITANGUENSES: Contos, crônicas e histórias da freguesia de Santo Amaro de Ipitanga

Thiara Reges - Em 01/05/2019

Capítulo 3: O samba de dona Detinha

 

“Ai ai, eu sei tocar, eu sei sambar, você ainda não viu quem eu sou no samba”
 
“Estavam todos parado na porta da casa de dona Ana, perguntei logo: Oxente, nós vamos ficar aqui assim é? Eu vim me divertir, não vim ficar calada não. Começamos a tocar pra cá, tocar pra lá, foram chegando mais pessoas, chegou a turma do Quingoma, chegou um monte de homem, aí eu puxei o samba”:
 
Esse homem do pé sujo
Ele hoje dorme só
Ele tem a unha grande, vai rasgar o meu lençol
Esse nego é o cão, no pé do fogão
Esse nego é o cão, no pé do fogão
Deixa eu vê seu pé aí 
 
“Eu estava com o pandeirinho na mão, baixava o pandeiro
e falava: tira o sapato que eu quero ver seu pé. O povo que se acabava de rir. Tá se fiando em quê? Da cintura para cima eu estou moleca”.
 
A dona de toda essa energia é Basilia Bispo dos Santos, 78, mais conhecida como Detinha, contando como tinha sido o último fim de semana, na casa de sua amiga, dona Ana.
 
Chegamos em sua casa logo cedo, e fomos recebidos com um bom e cheiroso café, para esquentar o dia de chuva. Aproveitamos uns minutos de tempo firme, para explorar o quintal da casa, e benza Deus! Um cantinho de natureza em meio ao asfalto da cidade, e decidimos conversar por ali mesmo, próximo ao bananal.
 
Ela fala de sua origem e infância no Quingoma, com gosto de quem superou as dificuldades sem perder a beleza das coisas simples da vida. “Sou filha de Marta Sales da Paixão e Donato Bispo dos Santos, e venho do Quingoma desde os meus avós. Ainda conheci umas senhoras que foram escravas, mas não alcancei essa época. Meu pai trabalhava de roça, cortava madeira para fazer ‘cauvão’ e assim ganhar o sustento. Passamos fome e não tinha o que vestir. Só entrava alguma coisa quando meu pai vendia o ‘cauvão’ ou quando minha mãe fazia a farinha”, lembra.
 
“Minhas duas avós eram parteiras, pois naquele tempo nem existia maternidade por aqui. Minha infância foi muito boa lá no mato, as bonecas eram de pano, compradas na feira. Já os meninos faziam seus próprios brinquedos, com coco verde, lata, pedaço de pau, faziam os carrinhos e saiam brincando. Dos meus irmãos os três mais velhos já morreram, agora nós somos três mulheres e um homem”.
 
Mas naquela época, a infância não podia ser vivida em sua plenitude. Desde cedo todos eram envolvidos na lida, não havia emprego com facilidade, as formas de conseguir dinheiro eram muito limitadas. Detinha com cinco anos já sabia todo o processo para a fabricação da farinha. “Nasci dentro da casa de farinha, criatura. Com cinco anos em diante já sabia fazer tudo. Desde a minha mãe e os outros antigos, já se fazia beiju para vender. Minha mãe tinha casa de farinha”.
 
Detinha se mudou com a família para a comunidade de Areia Branca quando da morte do pai, e a mãe leva junto a casa de farinha do Quingoma para a nova morada. “Naquela época não tinham muitas casas por aqui, apenas a de minha mãe e de uma senhora conhecida como Mocinha. Depois cada um foi fazendo a sua casa de farinha e virou tradição aqui. Sem mentira nenhuma, daqui de casa dava para ouvir os homens lá na casa de farinha, do outro lado do rio, aboiando”, lembra.
 
Sem máquinas, o processo de fabricação da farinha era exaustivo. A primeira etapa era ir na roça colher a mandioca. Se o terreno fosse bom, levava os animais para trazer a colheita, mas se não fosse, todos traziam a mandioca até a casa de farinha, quer fosse nos braços, quer fosse em balaios na cabeça.
 
“No outro dia ia raspar, cevar, puxar o rodete. Os que estavam pequenos, minha mãe botava um caixote, com o maior de um lado e o menor do outro, que era para alcançar o veio do rodete, era muito pesado. Quando tinha muita mandioca era farinhada, fazia farinha dois ou três dias. Todo mundo estava em alguma função que era para dar conta de toda a mandioca. Naquela época nem era prensa, ainda usávamos o tapiti, com cada pedra pesada que você nem imagina. Depois de toda massa pronta, ia para o forno secar. Só depois de sequinho era que se arrumava no balaio, ia fazendo a roda, até encher. Naquela época não era beiju de goma, era beiju seco, de massa, redondo parecendo uma bolacha, e custava um tostão”.
 
Fazer a farinha era algo tão normal na rotina das pessoas, que não existia, como em outras culturas, o hábito de se fazer festa para celebrar a colheita ou a produção. Na verdade, Detinha se lembra bem que a primeira fornada de massa era para matar a fome da família. “A primeira fornada da farinha, com a farinha ainda mole, minha mãe fazia a ‘malangosta’: pimenta, coentro de boi, limão, cebola; aí fazia aquela ‘jacuba’, botava aquela farinha dentro… ai que maravilha, que coisa gostosa”, lembra, aos risos.
 
Eram tempos bem difíceis. “Já vi gente vestir saco de alinhagem, porque não tinha outra coisa para vestir. Saia para pescar e mariscar no Rio Joanes. Já carreguei muita madeira no ombro, sei até arrumar metro ”.
 
Católica, Detinha sempre participou das festas religiosas: rezar Santo Antônio, oferecendo sua casa para receber as pessoas, guardar a semana santa: “Naquela época tinha muito respeito com a Semana Santa. Quando entrava a última sextafeira, varria a casa e juntava a sujeira em um canto, só poderia recolher depois da sexta-feira da Paixão. Na quinta-feira já começava a pilar os temperos, castanha, camarão, enfim, já deixa tudo pronto. Na sexta-feira ia apenas cozinhar a moqueca, feijão de leite, vatapá, caruru, e era muita comida, e não tinha quem comesse. Ao longo do ano, quando ia na feira já ia comprando o peixe seco e guardando, para a sexta-feira santa ter muito peixe para a moqueca. Começava a cozinhar pela manhã, meio dia ainda estava na cozinha, com as panelas de barro e o fogão à lenha. Hoje até som você escuta na sexta-feira. Nem o cortejo da Via Sacra é respeitado”.
 
De repente, um período que nem está tão longe assim, me pareceu muito distante. Estou me referindo à vida harmônica que as pessoas levavam, em comunidade, independente de sua religião. “Toda a vida fomos católicos, só que nós ía lá na macumba dar uma olhada. Até porque quando morava no Quingoma tinha a casa de um pai de santo chamado Porfiro. Quando tinha festa lá vinha gente do ‘arco da velha’, e nós estava lá, foi assim que aprendi a bater o tambor”.
 
O atabaque, por sinal, ficou ao seu lado durante toda a entrevista, revelando a sua forte ligação com a música.
 
 Vou cantar lauêe
Vou cantar lauêe
E que agora aparece
Vamos louvar a Maria
E quem louvar Jesus sou eu
Vamos louvar a Maria
E quem louvar Jesus sou eu 
 
“Essa era a chegada do rei”.
 
Detinha se refere a Festa de Reis, tradicional em sua época. O Boi Estrela passava pelas ruas, guiado pelo boiadeiro, adentrando nas casas dos moradores. Se chegasse e a porta estivesse fechada, cantava até abrir.
 
 Ei, abra a porta de supetão,
Debaixo da cama tem um garrafão,
Debaixo da cama tem um garrafão,
Abra a porta com toda alegria,
Que hoje é a véspera, amanhã é o dia,
Que hoje é a véspera, amanhã é o dia 
 
Outra festa que também ficou marcada para dona Detinha, foi ‘enterrar o véio no primeiro dia do ano’, uma brincadeira inventada na comunidade. “Meu sogro fazia um caixão, pequeno, de tábua. O povo cortava um pedaço de bananeira que coubesse no caixão. À meia noite, saía para enterrar o ano véio, juntava muita gente, e quem não ia ficava nas portas de casa. Mas era muito bom”.
 
♫ Bora gente, vamo sem demorar, Enterrar o ano véio, que já passou da hora 
 
“Levava até a porta do cemitério. Todos com os ramos de folha para tanger o véio. Chegava na porta do cemitério fazia o buraco. Até o coveiro, Pedro Gago, saia com a enxada no ombro. Quem estava dormindo, tinha que abrir as portas de casa para nós sambar. Uma festa só. E a tradição existe até hoje”.
 
Sem dúvida estamos falando de outra época, onde as pessoas tinham o prazer de se reunir, saiam pelas ruas sem medo, em qualquer horário, com valores puros e genuínos, capazes de conservar tanta alegria em uma pessoa com uma vida de tantas dificuldades.
 
“Sempre fui ‘pra frente’, se você vê as minhas irmãs como são moles (rs). Casei cedo, não tive infância, com 15 anos tive a primeira filha. Tive duas mulheres e cinco homens. Faz 16 anos que fiquei viúva e graças a Deus que eu estou livre, agora a minha infância chegou. No lugar que eu chego eu apronto (rs). Não tive vida fácil, mas ninguém me vê triste. Tenho todo orgulho de ser negra, só não sei ler. No meu tempo tinha apenas uma escola no Quingoma, ali no Capiarara, e a professora se chamava Flora. Só um irmão meu estudou, minha mãe não deixava ‘menina mulher’ estudar. Mas eu sei assinar meu nome, aprendi depois de velha, e onde chego não passo por analfabeta. Mas é tudo o que sei”.
 
"E lá vem é chuva, e a palestra vai acabar é aqui!", conclui.
 
 
NOTA DO EDITOR
Seguimos em busca das histórias que dão o tom a Lauro de Freitas. E no 3º capítulo o samba ecoou com muita força. Dona Detinha é isso: samba de roda, festas tradicionais populares e uma risada contagiante. Além de tudo, beijuzeira.
 
A coluna “Memórias Ipitanguenses: contos, crônicas e histórias da freguesia de Santo Amaro de Ipitanga”, surge da parceria entre a Vilas Magazine e a Escola Municipal Ana Lúcia Magalhães, através da Sec. Municipal de Educação. Participaram da produção deste capítulo: Basília Bispo dos Santos, Gildete de Melo, Antonio Cláudio, Caíque Barbosa e a jornalista Thiara Reges.

 

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