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Envelhecimento: você já pensou no seu?

Thiara Reges - Em 30/05/2019

Envelhecimento. Quantas vezes você parou para refletir sobre o seu envelhecimento? Sim, todos nós estamos ficando velhos, e isso acontece desde o exato momento que nascemos: cada minuto que se passa envelhecemos mais um pouco. É que por tanto tempo o envelhecimento esteve associado a doenças, solidão, depressão, desprezo, que o assunto virou tabu. As mulheres então, não querem sequer falar suas idades.
 
Mas não dá para fugir da realidade. No ano passado o IBGE divulgou a projeção da população até 2060. O cenário demonstra um rápido envelhecimento da população. Em 2040, o número de idosos já será superior ao número de crianças e adolescentes com até 14 anos, 17,4% de idosos contra 16,8% de adolescentes. Em 2060 o índice de idosos já será de 25,5%. Se olharmos apenas o estado da Bahia, esse número é ainda maior que a média nacional, sobe para 34,4% da população. Dados divulgados pelo IBGE em 22 de maio, mostra que já em 2018, pessoas acima de 60 anos representavam 14,4% da população na Bahia.
 
E a tendência é que esses números venham a se consolidar cada vez mais, visto que o relatório divulgado pela OMS em abril deste ano sinaliza um crescimento de 5,5 anos da expectativa de vida global, elevando de 66,5 para 72 anos. Esse índice não é igual em todos os países, sendo impactado principalmente pela renda: países com menor renda, a expectativa de vida pode ser até 18,1 anos menor. No Brasil, segundo o IBGE, os números chegam a 72 anos e 5 meses para os homens e 79 anos e 4 meses para as mulheres.
 
Com base nesses dados, voltamos a perguntar: quantas vezes você parou para refletir sobre o seu envelhecimento? Se ainda não o fez, está na hora.
 
O que você tem feito para garantir um bem viver, com o equilíbrio do corpo e da mente? E mais do que isso: é preciso avaliar também como as cidades estão se estruturando para garantir serviços, entretenimento, o direito básico de ir e vir, o direito a uma vida de qualidade.
 
CIDADES AMIGAS
Atentos ao expressivo envelhecimento da população, a OMS desenvolveu a Rede Mundial de Cidades e Comunidades Amigas das Pessoas Idosas, com objetivo de incentivar que as cidades a despertem o olhar para o envelhecimento, repensando e adaptando estruturas e serviços, de forma a incluir as pessoas de todas as idades.
 
Em 2018, quatro cidades brasileiras receberam a certificação internacional. São elas: Pato Branco (PR), Esteio (RS), Porto Alegre (RS), e Veranópolis (RS). Ao todo já são mais de 600 cidades, em 37 países, trabalhando em rede para proporcionar um envelhecimento saudável.
 
Olhando para a realidade de Lauro de Freitas, não é preciso andar muito para perceber que a cidade não está estruturalmente preparada para o envelhecimento dos seus moradores. Segundo o fisioterapeuta Tiago Bispo, 39 anos, “é importante que sejam observados tantos os aspectos que garantam um tranquilo ir e vir, como também o fácil acesso a serviços e entretenimento. Então, falamos tanto das condições das vias públicas e calçadas, com os buracos e ambulantes que ocupam os passeios; como de opções de transporte, altura dos batentes dos ônibus e das opções de entretenimento, que não existem”, destaca o profissional.
 
Lauro de Freitas, segundo dados do último Censo Populacional, realizado pelo IBGE, em 2010 já possuía 11.695 pessoas acima de 60 anos, representando 7,15% da população. A Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social e Cidadania possui em sua estrutura tanto o Departamento de Assistência à Pessoa Idosa, como o Conselho Municipal de Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa, que organizou a 5° Conferência Territorial dos Direitos da Pessoa Idosa, em abril, reunindo no auditório da Unime representantes das 13 cidades da Região Metropolitana (RMS), debatendo as políticas públicas voltadas aos idosos atuais e futuros.
 
A reportagem procurou a SEMDESC para entender melhor o que vem sendo realizado na cidade, mas por conta das fortes chuvas que castigaram a cidade dias 10 e 11 de maio, toda equipe da secretaria estava empenhada no trabalho para dar suporte às famílias desabrigadas.
 
MUDAM AS CIDADES, AS ROTINAS E AS CASAS
Em casa, também é importante pensar em soluções que garantam o bem viver. Isso tem ajudado no fortalecimento de uma profissão nova: os cuidadores de idosos.
 
Segundo Maria Olivia Crisóstomo, diretora da empresa Cuidare, com atuação em Salvador e Lauro de Freitas, cuidador de idosos é a profissão que mais cresceu no Brasil, na última década: exatos 547%. “O cuidador é responsável direto por todas as esferas de vida do assistido: alimentação, higiene pessoal, administração de medicação, observar funções fisiológicas, integridade física e psíquica, estimular a autonomia, autoestima e segurança pessoal, além de seguir as orientações dos terapeutas e família”, explica.
 
A profissão ainda não está regulamentada, não existindo regras muito claras sobre cursos e capacitações. “Hoje um curso de cuidador gira em torno de dois meses. Na Cuidare, buscamos profissionais que possuam no mínimo o curso de técnico em enfermagem, para então iniciarmos os treinamentos e capacitações específicas da profissão”, completa Maria Olívia.
 
Do ponto de vista da estrutura, a casa também precisa de cuidados diferenciados. “Algumas medidas que podem ser tomadas de imediato é a aplicação de piso antiderrapante, mesmo que seja um piso vinílico, inclusive no banheiro e cozinha; não usar tapetinhos; os móveis precisam estar firmes, presos até, porque geralmente são usados como apoio; tudo muito bem iluminado e preferencialmente ao alcance das mãos, para que a pessoa não invente de subir em escadas ou cadeiras para buscar nada”, afirma a arquiteta Gabriela Giannotti.
FOTO: arquiteta Gabriela Giannotti destaca importância de adaptação dos ambientes da casa
 
Ela ressalta que essa adaptação age diretamente na qualidade de vida, por garantir ao idoso segurança nas atividades diárias, associada a liberdade de fazer coisas básicas sem precisar ter alguém sempre ao seu lado. Mas infelizmente esse tópico nem sempre é levado em consideração. “A procura por projetos de adaptação de espaços ainda é muito pequena, e muitas vezes, quando o cliente recebe o orçamento, ele opta por fazer sozinho, colocar umas barras no banheiro e um papel de parede florido, e acha que será suficiente”, frisa.
 
A BUSCA POR CONHECIMENTO NÃO TEM IDADE
Nas carteiras da faculdade Unime, em Lauro de Freitas, encontramos uma estudante extremamente inquieta pelo saber. Juciara Queiroz, 63 anos, está finalizando graduação em psicologia. Aposentada, casada, mãe de três filhos, e avó apaixonada de sete netos, ela conta que encontra conforto e entusiasmo nos livros, e que, de forma alguma, conseguiria ficar em casa sem fazer nada. “Você ficar só em casa cozinhando e lavando, tomando conta de netinho? Para uma pessoa que trabalhou mais de 30 anos isso é muito complicado”, conta.
 
Psicologia na verdade é a sua segunda graduação. O empurrão quem deu foi o esposo, Jair Queiroz, que optou em fazer Teologia, depois de já estarem aposentados. Na época em que estava na ativa, conseguiu conciliar o trabalho apenas com um curso técnico, na área de meio ambiente. “Trabalhei quase a minha vida toda na Petrobras. Depois que aposentei, meu esposo decidiu fazer Teologia e eu fui com ele, aos 50 anos. No curso me despertou o interesse em saber porque as pessoas procuram a religião, e busquei a psicologia, por acreditar que aqui eu poderia ter essas respostas. E descobri que através da psicologia podemos ir além, ajudar muitas pessoas, e isso é muito bom”, frisa.
 
Neste período da graduação, Juciara conseguiu ainda concluir Lato Sensu do Ensino Superior, em Filosofia e Sociologia. “A diferença que senti da especialização para graduação é apenas que aqui, como são pessoas mais jovens, ainda falta um pouco de maturidade em alguns aspectos. Mas não senti qualquer discriminação por eu ser idosa. Eu fui abraçada, fui muito bem acolhida. As dificuldades que surgiram para mim foram as mesmas para todas as pessoas no curso”, destaca.
 
Juciara já está no 10º semestre, fazendo estágio na área, e já tem planos para quando concluir a graduação. “Não podemos parar de sonhar, é isso que nos mantém vivos, motivados. Tenho planos de ter meu consultório; tenho planos de fazer inglês; viajar, conhecer outros lugares; estou até aprendendo violão”, conta empolgada.
FOTO: Juciara Queiroz está no último semestre de Psicologia e já pensa nos próximos desafios
 
O exemplo de Juciara, na busca por conhecimento, é cada vez mais frequente nas instituições de ensino. No levantamento mais recente, Censo de Educação Superior de 2017, constam 18,9 mil universitários no Brasil, com idades entre 60 e 64 anos, e 7,8 mil com faixa etária acima de 65 anos. Na Unime, só no semestre de 2019.1, são 50 alunos com mais de 60 anos matriculados. A graduação mais buscada é Direito, com 18 alunos, seguida por Psicologia, com 10 alunos.
 
Ezevaldo Saltos, coordenador do curso de Psicologia da Unime, destaca que não existem diferenças entre os alunos por conta da idade. “O que se tem percebido nos últimos anos é uma grande acolhimento e troca de experiências. Participam de tudo que é proposto, são muito bons no processo de avaliação, não existe avaliação diferenciada, destaca.
 
Mas com um olhar para além da sua realidade na faculdade, Juciara destaca que nossa sociedade ainda precisa evoluir muito no cuidado e respeito com os idosos. “Os orientais tem a concepção de que os mais velhos ajudam os mais jovens, transmitem conhecimento e experiências, e por parte dos jovens existe uma base de respeito muito grande. Na nossa cultura não é assim. Aqui se você é idoso, você está velho, fica jogado nos cantos. Acho que envelhecer te dá liberdade: você tem experiência, tem voz, tem direito de escolha. Quando você quer realmente algo, tem que seguir em frente, não tem idade para aprender, não tem idade para se relacionar, não tem idade para conhecer o mundo”, afirma.
 
“Formei meus três filhos e agora vou me formar. Isso me torna muito feliz. Sei que superei as expectativas, não imaginava chegar até aqui. Mas agora quero ir mais além”, conclui.
 
GERONTOLESCÊNCIA
Quem frequenta o calçadão de Vilas do Atlântico já deve ter se esbarrado com o Adilson Teixeira, 72 anos, fazendo suas caminhadas. Morador do loteamento desde 1985, ele não desperdiça a oportunidade de estar em contato com a natureza e ao mesmo tempo exercitar o corpo e a mente.
 
“Sempre gostei de fazer exercícios, joguei muito futebol aqui no clube, sempre fiz minhas caminhadas, e acredito que isso, associado a uma boa alimentação, tenha sido o diferencial para ter a qualidade de vida que tenho hoje. Trabalhava no Pólo Petroquímico, sempre estive em contato com produtos químicos, e com muita disciplina, respeitando também as orientações de segurança da empresa, não sinto hoje os sintomas que muitos colegas da minha época apresentam”, conta.
FOTO: Faça chuva ou faça sol, diariamente Adilson Teixeira está no calçadão de Vilas do Atlântico fazendo a sua caminhada
 
Desde que se aposentou, em 1996, passou a frequentar a praia duas vezes por dia. “Faço acompanhamento anual com a cardiologista, que me aconselha a continuar com as caminhadas. Não é mais na areia e nem consigo ir até o farol de Itapuã, como já fiz algumas vezes. Mas não deixo de fazer. Faça chuva ou sol, estou aqui no calçadão”, afirma.
 
A paixão é tanta que mesmo quando está fazendo alguma viagem, leva na mala o tênis e o short, e a primeira coisa que procura é um lugar onde possa fazer sua caminhada com segurança. Tentou até transformar a esposa, Noelia, 72 anos, em sua companheira de exercícios, mas não conseguiu. “Chamei para ser a minha companheira de caminhada. Ela disse que não aguenta o meu ritmo. Garanti a ela que ia diminuir, ir mais devagar, mas que também não poderia ser nesse passinho de cágado (rs), mas ela não se convenceu. Hoje ela faz pilates”, conta. 
 
E exemplos como o de Adilson serão cada vez mais comuns. Para um dos maiores especialistas em envelhecimento da atualidade, Alexandre Kalache, a chegada à velhice da geração que nasceu no pósguerra (1945-1964), os baby boomers, provoca uma nova construção social, por serem pessoas com mais vitalidade, mais saúde, mais informação, do que as gerações que os antecederam. E tudo isso ganha um nome: gerontolescência.
 
Luta contra ditadura, revoluções na música, revolução sexual, o uso da pílula, tudo isso tem forte influência na construção dessa nova velhice, e diferente da adolescência, que dura entre quatro e cinco anos, a gerontolescência pode durar mais de 40 anos.
 
Kalache já atuou como diretor de envelhecimento na Organização Mundial da Saúde, lecionou em universidades como Oxford e hoje dá palestras até no exterior sobre o assunto. Uma delas aconteceu em Salvador, em abril, realizada pelo Projeto Maduramente (leia aqui).
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