Vilas Magazine
Lauro de Freitas
+26°C

Máx +29°

Mín +25°

Dom, 02.02.2014

MEMÓRIAS IPITANGUENSES: Contos, crônicas e histórias da freguesia de Santo Amaro de Ipitanga

Thiara Reges - Em 30/05/2019

Capítulo 4: Cadê as estrelas do céu?
 
O ser humano possui muitos encantos, pelo menos eu, com minha visão por vezes romântica até demais do mundo, encontro beleza sempre. Um dos exemplos está na nossa entrevistada do capítulo 4 do Memórias Ipitanguenses: Dona Augustinha de Melo, ou simplesmente Dona Nenzinha. Mulher, negra, sem estudos, 12 filhos (alguns morreram logo após nascer), 36 netos, mais de 40 bisnetos, 2 tataranetos. No auge de seus 91 anos, ela carrega a certeza de ser uma pessoa realizada.
 
O começo da vida não foi simples, foi difícil mesmo. Seu pai Manoel (que ninguém conhecia por esse nome, apenas como Jonico do Quingoma), e sua mãe Teodora, tiveram seis filhos. Trabalho, naquela época, só em roça ou casa de farinha. Quando Nenzinha completou 10 anos sua mãe faleceu, sendo então criada pela avó Andressa de Melo, para quem ela desenvolveu mais que amor, admiração.
 
“Minha bisavó foi escrava, no engenho. Minha avó Andressa, não alcançou mais o engenho, mas era quem contava esses causos pra gente. Isso aqui tudo era mato. Casas, era uma aqui, outra ali; a nossa era de palha. Não tinha muito o que minha avó me ensinar, apenas cuidar da casa, lavar uma roupa, botar um feijão no fogo. Me lembro que eu achava muito ruim ter que ir na fonte lavar roupa, mas hoje percebo que época boa mesmo era aquela”, fala com tom de saudade.
 
Da infância se lembra que era um misto de ajudar em casa e aproveitar os momentos de diversão, que toda criança inventa. “Não tinha escola, então o que tinha para fazer era ir tomar banho na fonte, comer jaca verde e banana verde cozida. Até porque, comida estava tão difícil naquela época, e quando teve a guerra foi ainda pior”, conta.
FOTO: As marcas da idade,
e de sabedoria, estão no rosto sem nenhuma vergonha, pela certeza de ser uma pessoa realizada
 
Mas a criança logo cedeu espaço à mulher. Casou-se com 20 anos. O noivo, Tomé, era ali mesmo da comunidade, tinha 26. “Namoro? hahahaha. Era ele lá, e eu cá. Ele foi meu primeiro namorado, com esse mesmo eu casei. Ele era seis anos mais velho que eu, aí fui falar com minha avó, e ela: ‘É minha fia, pote velho é que dá boa água’. E deu! Graças a Deus vivemos muito bem até o dia que Deus levou ele, e eu fiquei, já tem 25 anos”. 
 
“Dizia para minha vó: ‘quando casar quero ter 12 filhos, quero a casa cheia de meninos e moças’. Tive 12 e nunca fiz um exame. A parteira era uma tia minha, Almerinda, que morreu com 115 anos. Não tinha pré-natal e nem nada disso. Mas também metade nascia, metade morria”.
 
Dona Nenzinha conta que a vida a dois não é fácil, é preciso ouvir o outro e ceder. Mas ela sente que apesar das dificuldades foi muito feliz no casamento. “Quando casamos fomos morar em uma casa do tamanho de uma cozinha, de chão batido. Meu marido arrumava o que comer, e eu trabalhava para conseguir comprar umas roupas para os filhos. E foi assim, a gente sempre se ajudou, nunca gostei de ficar parada”.
 
E quem a conhece sabe que é verdade. Da casa de farinha ela conhece cada passo, do plantar a mandioca ao fazer a farinha, aprendeu com a avó Andressa. Trabalhou na usina de farinha, da família Sá, por mais de um ano. “As mocinhas daqui trabalhavam todas lá. Tinha uma máquina para bater a mandioca e raspar, mas não deu jeito, porque quando batia muito a mandioca ficava roxa. Então tirou a máquina e colocou a gente para raspar a mandioca. Ia na segunda-feira só voltava no sábado. Recebia 5 mil réis por dia, dava 30 mil por semana. Esse dinheiro era para comprar roupa, coisas de casa, carne para a minha avó, carne seca para levar para o trabalho”, conta.
 
“Meu primeiro emprego mesmo foi em casa de família, lá fiquei três anos. Aprendi a conhecer dinheiro, a conhecer número, aprendi a fazer conta, mas não aprendi a ler. A patroa labutou para me ensinar, mas não teve jeito. Trabalhei muito com enxada. Muito! Quando vou ao banco receber meu dinheirinho, precisa assinar. Mas assinar como? Meu lápis foi a enxada. Mas tá bom”.
 
Nenzinha não tinha medo e nem vergonha de correr atrás do trabalho. “Saia daqui, andando, com balaio na cabeça para chegar na Valéria e pegar o carro para ir para Salvador. Andei muito com meus beijus pelo carro de João Expresso. Ia para o Largo do Tanque, mas saia mercando pela rua mesmo e vendia muito. O lugar onde mais eu vendia era na Liberdade. Levava as meninas comigo, levava Detinha e as outras meninas, mas elas tinham vergonha de mercar, mas eu não. ‘Óia o beiju, óia o beiju’”, conta aos risos.
 
“Estou aqui com 91 anos, mas tenho uma disposição que a senhora nem imagina. Hoje moro só, e tem uma filha que vem dormir comigo. Mas já teve uma época que o povo dizia que minha casa era o Cortiço de Jordana, é que teve uma novela assim. 18 netos moravam comigo. Era um quilo de feijão por dia, 18 pratos de comida, e eu achava maravilhoso. No dia que tinha arroz, comia com arroz; quando não tinha, era com farinha. Quando tinha ovo, quebrava tudo na panela e mexia a farinha, todo mundo comia, e todo mundo era feliz”.
 
“Me lembro ainda menina, um período muito difícil, passamos fome. E eu falei: meu Deus estou passando tudo isso agora, mas quando for velha eu terei tudo. E tenho! Meus netos não me deixam faltar nada. Os netos que eu criei saíram daqui de casa praticamente todos casados, consegui encaminhar todo mundo na vida. São a minha alegria”.
 
Serena, ela conta que hoje acorda na hora que quer, faz suas coisinhas aos poucos, com a tranquilidade de quem deixa um legado de força. No auge de seus 91 anos, dona Nenzinha percebe que o mundo mudou, nem tudo para melhor, mas às vezes a única coisa que nos cabe é observar.
 
“O mundo de antigamente era um, e o de hoje é outro. Eu não sou Cristã. Os meus filhos todos são, mas eu não. Sou a mesma coisa que minha avó. Aqui tinha muito terreiro, e quem ia para o terreiro também ia na igreja católica. Tinha festa de Santo Antônio, todo mundo estava na Igreja, tinha caruru, ia para o terreiro. Não tinha separação. Aqui também se chamava Santo Amaro de Ipitanga, não gostei quando mudou de nome. Era tudo muito diferente de hoje. Lembro que me sentava na porta aqui de casa com minha avó para ver as estrelas. Nas noites que não tinha a lua, o mundo era todo coberto de estrelas. Mas esses dias saio aqui para olhar, e agradeço a Deus quando consigo ver quatro estrelas. Está chegando os dias do fim, não tem mais estrela no mundo”.
 
Dona Nenzinha com a família e amigos, em foto de 2010
 
NOTA DA REPÓRTER
Duas mulheres, ambas com suas origens no Quingoma, negras, beijuzeiras, mas com caminhos de vida tão diferentes. Dona Nenzinha, assim como Detinha (estrela do Capítulo 3), também ama o samba, as festas populares, mas o seu enredo de vida se concentrou na família. Um casamento descrito por ela como muito feliz, e os filhos, que lhe deram sua maior alegria: os netos.
 
A coluna “Memórias Ipitanguenses: contos, crônicas e histórias da freguesia de Santo Amaro de Ipitanga”, surge da parceria entre a revista Vilas Magazine e a Escola Municipal Ana Lúcia Magalhães, através da Secretaria Municipal de Educação. Participaram da produção deste capítulo: Augustinha de Melo, Gildete de Melo, Antonio Cláudio, Caíque Barbosa e Thiara Reges.

 

Publicidade
Você Viu? Ago/2019
Artigos Caminhos
Tribuna do Leitor LOTEAMENTO MARISOL
Tribuna do Leitor Sumiram as faixas de pedestres
Tribuna do Leitor Árvores cheias de graça
Veja todas as notícias de Ago/2019
Vilas Magazine© 2013. Todos os direitos reservados.
Desenvolvido por: Webd2 - Desenvolvimento Web