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Viciados em celular

Leonardo Volpato / Folhapress - Em 30/05/2019

Vício em celular pode ser comparado ao vício em drogas; por isso, especialistas alertam: use com moderação

Que não dá mais para desapegar do celular, isso todos já sabemos. Porém, especialistas alertam que o vício em celular pode ser comparado a outros tipos de dependência, como em drogas. Por isso, é preciso estar atento para não se prejudicar.
 
Pesquisa internacional da consultoria Deloitte sobre o uso de dispositivos móveis (Global Mobile Consumer Survey), de 2018, mostra que o celular é o meio mais popular de acesso à internet (95%), bem à frente do computador (64%).
 
Também revela que mais de 60% dos dois mil entrevistados no Brasil usam o smartphone para fins profissionais fora do horário de trabalho. Além disso, a distração com o aparelho durante o expediente ocorre com alguma ou muita frequência para 43% dos participantes, e 30% deles disseram não conseguir dormir no horário pretendido.
 
Para Nelson Destro Fragoso, professor de psicologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP), a pesquisa indica um cenário preocupante no Brasil conectado. “Todo vício pode reduzir o raciocínio e provocar irritabilidade, agressividade. É igual em todos os casos de dependência. As características são semelhantes, a diferença é que a sociedade tolera [o celular]. É preciso se cuidar.”
 
Mario Louzã, psiquiatra formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, dá mais detalhes e traça paralelos entre o comportamento de quem usa drogas e o daqueles que não largam o celular. “O princípio de qualquer dependência é muito parecido, seja químico ou comportamental. Você tem desejo intenso de buscar aquilo. O segundo aspecto é a síndrome de abstinência. E o terceiro ponto é a tolerância. O uso contínuo faz a pessoa querer aumentar a dose para ter o mesmo efeito”, explica.
 
A Organização Mundial da Saúde também entrou no assunto. Em maio, o órgão emitiu nota em que recomenda que crianças de até cinco anos não fiquem mais de uma hora por dia em frente às telas.
 
Para Wilton Neto, palestrante e mentor da área de desenvolvimento humano, o distanciamento social é outro sintoma das pessoas muito apegadas ao telefone. “É ruim se isolar e olhar o mundo lá fora através do aparelho. Pior ainda é quando a comunicação de uma pessoa se resume ao celular, mesmo que ela e outra estejam no mesmo ambiente. Isso é perigoso, pois há um rompimento de relações”, analisa o especialista.
 
Ele conta que observou de perto um exemplo desse isolamento e suas consequências. “Uma mãe descobriu que a filha de 16 anos, que sofria bullying no colégio, procurou refúgio na internet para poder conversar sem ser julgada. Mas isso fez com que ela conhecesse um homem maior de idade que tentou convencê-la a fugir.”
 
Hiperconectada, a modelo e empresária Renata Spallicci, 37 anos, trabalha com o celular e resolve tudo pelo aparelho – segundo ela, 80% das pendências do dia a dia são resolvidas por meio do WhatsApp. Ela se lembra da única vez em que teve de desapegar do “melhor amigo”. “Meu celular, uma vez, foi atropelado, mas sobreviveu. Em outra, uma onda quase o levou. Na terceira, vez ele caiu e apagou. Foi naquele dia que eu fiquei incomunicável.”
 
VÍCIO DÁ SINAIS E TEM TRATAMENTO
Quando o uso do celular começa a afetar outras atividades, é hora de buscar ajuda profissional. Segundo o psiquiatra Mario Louzã, o primeiro passo é admitir que existe um problema. “O tratamento é com psicoterapia, com análise”, afirma. De acordo com o profissional, é preciso saber distinguir o uso que deriva de uma necessidade real daquele que representa uma “necessidade fútil. Se você ia à academia e deixa de ir para ficar no celular, isso chama a atenção. É preciso buscar um profissional [psicólogo ou psiquiatra] para entender o problema, o grau dele”, explica.
 
O médico lembra, ainda, que alguns aparelhos e aplicativos indicam quanto tempo o usuário gastou em uma rede social, por exemplo. De acordo com Cintia Rios, especialista em medicina funcional, o hábito de levar o celular para a cama é extremamente prejudicial à saúde física e mental. Ela recomenda largar o aparelho pelo menos uma hora antes de dormir, para dar tempo de o cérebro ‘desligar’. “Tomando esses pequenos cuidados, nossa qualidade de sono estará preservada e diminuiremos muito nossos níveis de estresse”, afirma.
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