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MEMÓRIAS IPITANGUENSES: Contos, crônicas e histórias da freguesia de Santo Amaro de Ipitanga

Thiara Reges - Em 02/08/2019

Capítulo 5: A mercearia de ‘Lindomar Castilho’
 
Itinga, com 70 mil habitantes, é o bairro mais populoso de Lauro de Freitas. Sua ocupação aconteceu de forma muito rápida, são pouco mais de 40 anos desde a venda dos primeiros lotes, um deles vendido para o sr. Firmino Teodoro dos Santos, 79 anos, que está entre os moradores mais antigos da comunidade. 
 
Quando ele chegou no bairro, havia apenas uma casa construída, todo resto era mato. Mesmo assim, ele enxergou ali uma oportunidade, e depois de erguer a sua casa, colocou uma mercearia, a primeira daquela região. “Vamos lá no Lindomar Castilho, era esse o meu apelido, por conta das músicas que tocavam no vinil e do meu bigode”, conta.
 
Mas precisamos voltar um pouco no tempo e conhecer melhor esse baiano de Cruz das Almas.
 
Na verdade seu Firmino nasceu em São José do Aporá, Muritiba (114 km de Salvador, integra a Região Geográfica Imediata de Cruz das Almas), mas bem pequeno foi com os pais e oito irmãos para o interior de Cruz das Almas, e desde cedo conheceu a rotina da vida na roça. “Era uma infância muito difícil, a vida era essa mesma, trabalhar na roça, dia de sábado ir para a feira e no domingo às vezes tinham umas corridas de cavalo”, lembra.
FOTO: Seu Firmino na varanda de sua casa, vestido com a camisa do Esporte Clube Bahia, sua paixão
 
Bom, quem conhece essa realidade sabe que não se tem muitas opções: logo cedo está na lida, para ajudar a garantir o sustento de casa, trabalha a semana toda ganhando pouco, e todo trabalho que aparece é sempre bem-vindo. Com 15 anos, o jovem Firmino já estava aceitando trabalho em outras cidades. A primeira vez que saiu de casa foi para Ubatã, distante cerca de 250km. “Terminava o trabalho eu voltava para casa, sempre voltava para casa”, diz.
 
Aos 19 anos, já casado com dona Martinha, foi com o cunhado trabalhar em Ubatã. O combinado eram dois meses de tempo de serviço. Terminado o período, retornando para casa, tomaram conhecimento de um caminhão que estava estacionado na praça, contratando pessoas para um trabalho no estado de Goiás. “A proposta era boa, estávamos precisando de trabalho e sem pensar fomos. Subimos em um caminhão que ao todo levava 45 homens. Foram dias e mais dias de viagem. Já naquela época estava proibido transportar pessoas assim para trabalhar, então o caminhão não seguia a estrada normal, tinha que dar voltas, usando estrada menos conhecida”.
 
“Quando chegamos em Conquista (Vitória da Conquista), um grupo vendo o caminhão passar começou a gritar: ‘olha a comida dos índios, olha a comida das onças”. Firmino quis saber que história era aquela, os outros falaram que era besteira, mas no fundo ele ficou preocupado, até porque a única coisa que de fato ele sabia era que estava indo para o Goiás. 
 
A viagem continuou. Firmino se lembra que uma noite dormiram em Uberlândia/ MG, e de manhã, na hora de sair, o motorista disse que não tomassem café pois já estava perto, iriam todos almoçar em Itumbiara, já em Goiás, que era o destino final. Deu oito horas, deu 10 horas, deu 12 horas, e nada de chegar. “O carro parou, nós vimos uma fazenda, já com os milhos secos no pé, e foi para lá que corremos. Caímos dentro comendo milho e umas abóboras que encontramos, tudo cru, mas ninguém se aguentava mais de fome”. 
 
Chegando, enfim, em Itumbiara, Firmino e o cunhado foram trabalhar em uma fazenda, e só voltariam para casa, em Cruz das Almas, um ano e dois meses depois.
 
Verdade seja dita que dona Martinha só veio saber das aventuras do marido depois que ele voltou, visto que ela já tinha até dado ele como morto.
 
“Na mesma época que fui para Goiás teve um acidente com um caminhão em uma estrada ali perto, e a família pensou que nós dois tínhamos ido embora (rsrsrsrsrs). Chegamos em Cruz num dia de sábado, descemos na praça, e fomos tomar uma cervejinha. Daqui a pouco chegou tanta gente da feira, chorando, aquela coisa, fiquei foi com medo da polícia me prender (rsrsrsrsrs). E Martinha no meio do povo, chorando”, conta aos risos.
 
E foi assim, de aventura em aventura que Firmino veio parar pelas bandas de cá, na década de 1960. Veio com um senhor que vendia jaca e outras frutas no Nordeste de Amaralina, em Salvador. Gostou, arrumou emprego e ficou por cerca de três meses. Alugou uma casa, lá no Nordeste de Amaralina mesmo, e foi buscar a esposa e o primeiro filho.
 
Morou no Nordeste de Amaralina cerca de 10 anos, onde nasceram mais dois meninos e uma menina. Nesta época trabalhava colando placas de publicidade. Um dia dona Martinha o encontrou no bairro de São Cristóvão, ela estava vindo olhar um terreno no novo loteamento para comprar. Jardim Independência, esse era o nome de uma das etapas do que hoje é o bairro de Itinga.
 
“No mesmo dia que fechamos negócio, 5.500 cruzeiros, a empresa entregou o terreno, e sem perda de tempo subimos uma casa de taipa, e por ali mesmo dormimos. Aliás, dormir não deu, porque nesse dia caiu uma chuva tão forte que um barranco desceu arrastando tudo, ficamos cheios de lama, a casa foi derrubada. Quando o dia raiou, eu já estava de pé levantando outra casa. E aqui nós estamos até hoje”.
 
Essa foi a primeira etapa loteada do terreno, provavelmente pela proximidade com um paiol da Base Aérea instalado ali perto e que grande parte dos moradores vieram do Nordeste de Amaralina, como seu Firmino e a família. Essa etapa veio antes inclusive do que hoje é conhecido como Largo do Caranguejo e Parque São Paulo, e como já estava ocupado, muita gente passava por alí para ver como estava o loteamento antes de fechar negócio. Seu Firmino percebeu nessa movimentação uma oportunidade de negócio. Não pensou duas vezes: abriu uma mercearia na parte de baixo da casa, como ele mesmo diz, “para catar o dinheirinho do povo que passava”.
 
“Não tinha carro, as pessoas passavam por ali sempre à pé, daqui até lá no Parque São Paulo, de manhã, de tarde e até de noite. Então abri o meu negocinho, quando chegou a energia foi ainda melhor, pois botei uma geladeira e fui crescendo aos poucos”.
 
“Ia no mercado que vendia peixe, sardinha, essas coisas, e comprava 10 kg de sardinha, passarinha e cavalinha. O dono do mercado perguntava o que eu ia fazer com aquilo tudo, eu falava que era para as crianças, (rsrsrsrs). Eu fazia a sardinha e cozinhava o ovo, colocava naquele suco de corante, o ovo ficava vermelho. Por aqui mesmo pegava cobra coral, a gente mesmo que pegava, ela podia até estar viva, era só colocar na cachaça. Até hoje, nas quitandas por aí você encontra. Aí a turma vinha e caia dentro, comendo o tira gosto e bebendo umas”, conta, rindo.
 
Das histórias daquela época, o que seu Firmino se lembra é que o lobisomem já morou em Itinga. “Do outro lado do rio tinha um homem, de nome João, que a turma dizia que ele virava o lobisomem, ele era assim meio amarelado e logo morreu. Se eu acreditava? Num sei, quem sabe, ninguém nunca viu!”.
 
A mercearia cresceu, vendia de tudo um pouco, e tinha, claro, a caderneta dos fiados. “Anotava durante a semana para receber na sexta-feira, aí o povo pagava que era para beber mais. Mas tem uns que até hoje me devem (rsrsrs)”. Mas a burocracia foi tornando tudo difícil e depois de cerca de 10 anos seu Firmino fechou a mercearia.
 
Hoje, aposentado, seu Firmino conta que sempre foi muito feliz morando em Itinga. “Minha esposa faleceu em 2004 e eu continuo aqui. Itinga cresceu demais nesses anos todos, está muito grande. Aqui desenvolveu menos, mas do Largo do Caranguejo pra lá é uma cidade. Hoje é bom por conta da facilidade de transporte, mas naquele tempo era mais maneiro, hoje não tem mais segurança”, concluiu.
 
NOTA DO EDITOR
Continuando com as histórias do povo de Lauro de Freitas, adentramos no bairro de Itinga, o mais populoso do município. E alí, história é o que não falta. Seu Firmino é o personagem de nosso quinto capítulo, contando suas aventuras e a descoberta do bairro onde mora há mais de 40 anos. Não deixe de conferir mais detalhes dessa história. Acesse o QR Code.
 
A coluna “Memórias Ipitanguenses: contos, crônicas e histórias da freguesia de Santo Amaro de Ipitanga”, surge da parceria entre a revista Vilas Magazine e a Escola Municipal Ana Lúcia Magalhães, através da Secretaria Municipal de Educação. Participaram da produção deste capítulo: Firmino Teodoro dos Santos, Antonio Cláudio, Caíque Barbosa e a jornalista Thiara Reges.
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