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MEMÓRIAS IPITANGUENSES: Contos, crônicas e histórias da freguesia de Santo Amaro de Ipitanga

Thiara Reges - Em 01/09/2019

Capítulo 6: TIÃO, O corredor de Itinga
 
Todo final de ano, mais precisamente no dia 31 de dezembro, acontece em São Paulo a tradicional corrida de São Silvestre, que este ano, na sua 95ª edição, deve reunir novamente uma multidão de atletas profissionais e amadores celebrando o esporte. O que eu não sabia até outro dia é que um ilustre morador do bairro de Itinga já esteve lá, no meio dessa multidão.
FOTO: Tião hoje, aos 72 anos. Só deixou de correr por conta do glaucoma.
 
Seu nome: Raimundo Gonzaga Diana, 72 anos, conhecido nas corridas como Tião Corredor ou Diana. FOTO: Medalha de participação não era com ele: “corria fortíssimo, queria mesmo era ganhar as corridas”
 
Natural de Salvador, filho de uma lavadeira e um engraxate, criado no bairro da Barra, em sua infância dentre as brincadeiras gostava muito de ‘descer’ de papelão no Farol da Barra, e empinar ‘periquito e arraia’ (uma folha de papel ou papel de seda, talisca de folha de coqueiro ou vareta de bambu, cola branca, barbante para a rabada, linha e bastante criatividade). Os lugares preferidos para a brincadeira eram no Farol da Barra e no Morro (atualmente Cristo da Barra). FOTO: Tião fez parte da equipe do Clube dos Empregados da Petrobrás
 
Mas a infância foi curta. Desde dos 10 anos já trabalhava como capoteiro de automóveis, e depois como impermeabilizador de lajes e piscinas. Já adulto, alí pela década de 1980, casado com dona Valda Maria e com os seis filhos que já tinham na época, veio para Itinga, incentivado pela indicação de um amigo corretor. “Ele me falou de um lugar novo, mas que iria se desenvolver bastante e me sugeriu comprar um terreno com ele. Assim eu fiz”, conta. FOTO: Registro de uma corrida em homenagem ao 2 de Julho. Tião é o nº 885
 
Quando chegou aqui ainda não tinha nada. “Era só lama e mata. As casas eram contadas de dedo. Eu vim na frente, para construir, e quando tinha um lado da casa quase pronto fui buscar a família. Na época, daqui para o final de linha dos ônibus não dava para ir andando. As compras eram feitas na cidade, pegava um ônibus para o aeroporto, descia no bambuzal, e de lá vinha andando”.
 
Sua história com as corridas começou de brincadeira, no quintal de casa. “Ia até o final e voltava, correndo por dentro do mato, e pensei que dava para encarar o atletismo. Sempre fui assim, alto, magro, não tinha barriga, meu porte físico era de corredor mesmo. Quando passava pelas ‘bibocas’, algumas pessoas gritavam, me chamando de maluco. Conheci tudo isso aqui correndo, ia para o Jambeiro, Areia Branca, Parque São Paulo, Capelão, conheço tudo. Por fim, o ‘maluco’ superou tanto que foi até para fora do estado, para correr”, conta com orgulho.
 
Mesmo trabalhando para garantir o sustento de casa, treinava todos os dias, até conhecer um grupo de corredores do Nordeste de Amaralina, onde aprendeu mais e se desenvolveu no esporte.
 
O amor pelo atletismo sempre ajudou a superar as dificuldades, que não eram poucas. “Não tinha isso de patrocínio. Durante 10 anos participei de uma equipe no Clube dos Empregados da Petrobrás, recebi o apoio de Jonas Brito, que era o diretor de esportes do clube, e foi um período que ‘pingava’ um pouco de dinheiro das corridas. Mas no geral não, mas acho que a gente gostava mesmo era de sofrer (rs). Nem sempre tinha dinheiro para pagar o hotel, então muitas vezes tinha que dormir no chão do ginásio, mas não desistia do esporte”, conta.
 
De lá para cá, Tião até perdeu as contas de quantas corridas participou. E essa história de correr apenas para fazer volume não era com ele. “Eu corria fortíssimo, eu ía para o tudo ou nada, meu negócio era chegar, e chegar logo, na frente dos adversários. Tinha a medalha de participação,  mas essa não servia para mim, eu queria subir no pódio, que era o mais importante”.
 
A memória tem traído o Tião, e ele não se recorda muito bem das datas, mas lembra que participou de todas as corridas realizadas em Salvador a partir dos anos 90, a exemplo das corridas de Tiradentes, Independência, Esquadrão Águia, maratonas e mini maratonas. Em 1999 participou da corrida em comemoração aos 37 anos de Emancipação de Lauro de Freitas, sendo o vencedor.
 
“Sou filiado à Federação Baiana de Atletismo e à Confederação Brasileira de Atletismo, e participei de muitas corridas em Salvador, como fui também para Porto Alegre, Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro, Paraíba, Santa Catarina, Juazeiro… isso fora as que esqueci (rs)”.
 
“Todas as corridas são importantes, todo mundo chegava quebrado, aos pedaços. Gostava de correr longas distâncias, tanto que certa vez fui homenageado por uma instituição de ensino de São Paulo, como um dos melhores corredores de longa distância da América do Sul, superando trajetos de 100 km. Fiquei em oitavo”, destaca.
 
Ao todo foram 35 anos de corridas. Quando parou de correr, já estava com mais de 60 anos. “A última corrida que participei foi em Juazeiro, 21 km. Já havia perdido a visão de um olho para o glaucoma e não estava bem preparado, mas gostei muito de participar”, conta.
 
Estivemos em sua casa às véspera de seu aniversário, comemorado em 30 de agosto. Seus 10 filhos ainda vivos (ao todo foram 18 filhos, com a mesma esposa, já falecida), todos criados e independentes, estariam reunidos com o pai para  festejar mais um ano de vida. Nenhum deles seguiu seus passos no esporte, mas já deu uma dica: “Disse aos meus filhos que se eles conseguirem guardar os troféus que tenhp, será uma recordação minha para os netos e bisnetos. E olha que não estão todos aí, esses são de 10 anos para cá”, concluiu mostrando a pilha de troféus.
 
 
NOTA DO EDITOR
Este mês corremos juntos com Tião Corredor e seus mais de 35 anos dedicados ao esporte. Na verdade o que o tirou da corrida não foi a idade, mas o glaucoma. Mas o amor pelas corridas é perceptível e os troféus, aqueles que ele conseguiu guardar, decoram boa parte de sua casa em Itinga. Não deixe de conferir mais detalhes dessa história.
 
A coluna “Memórias Ipitanguenses: contos, crônicas e histórias da freguesia de Santo Amaro de Ipitanga”, surge da parceria entre a revista Vilas Magazine e a Escola Municipal Ana Lúcia Magalhães, através da Sec. Municipal de Educação. Participaram da produção deste capítulo: Raimundo Gonzaga Diana, Antonio Cláudio, Caíque Barbosa e Thiara Reges.

 

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