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MEMÓRIAS IPITANGUENSES Contos, crônicas e histórias da freguesia de Santo Amaro de Ipitanga

Thiara Reges - Em 04/11/2019

Capítulo 7: Seu Domingos: Um balaio de histórias!
 
De longe já dava para ver que estava acontecendo uma prosa boa na porta de casa. Ele, um negro bem vistoso, tomando um banho de sol nas primeiras horas da manhã, para garantir a vitamina D, logo mexia com quem parasse para lhe comprimentar. Muito bem humorado, rolava até uma cantoria.
 
“Bem ti vi avoou
para pegar uma barbuleta
Santo Amaro de Ipitanga
Passou a Lauro de Freitas”
 
“Hoje minha voz está assim, mas na época das festa debaixo do pé de Oiti, chamava atenção. Era eu, Norberto, João, Viturino, Domingão, Zé Grande. Era uma frota ‘desgraçada de homi (rsrsrs). Badinha? Essa, era o cão. E Caú também. Juntava todo mundo e a gente sambava a noite toda”.
 
Quem relembra é Domingos Ferreira da Cruz, 81 anos. Sua história começa lá em Ilha de Maré, mas ganha vida na saudosa Santo Amaro de Ipitanga. Se você vai com frequência ao centro comercial de Lauro de Freitas, ali pelas imediações da praça da igreja matriz, com certeza já deve ter visto o seu Domingos, conhecido pelo apelido conquistado pelo seu ofício: balaieiro.
 
Seus pais levavam uma vida simples na Ilha de Maré. Ao todo, somados os dois relacionamentos do pai, que ficou viúvo cedo, Balaieiro tem 18 irmãos. Menino, por volta dos 10 anos, quando saia para brincar, o pai logo o chamava, brabo: “Ei, vorta, e venha aprender. Mais tarde você vai ter uma mulher, que você não vai ficar só, e se tiver um trabalho ou não, você sempre vai ter um balaio para vender que é para comprar o pirão, que você não vai deixar sua mulher com fome”.
 
O pai era o balaieiro da Ilha de Maré, mas apenas Domingos e um irmão (já falecido) aprenderam o ofício. Após a morte da mãe, Domingos decidiu vir morar na capital, pois tinha uma tia que morava no bairro da Liberdade. Um conhecido dela ajudou a tirar seus documentos, pois até então só possuia a certidão de nascimento. “Meus irmãos e eu somos assim, todos pretos, mas uns pretos que sabem tratar as pessoas e quase todos os brancos gostam. Você não sabe assim, como eu e o senhor é?! (se referindo a sua amizade com professor Cláudio).
 
Com os documentos em mãos foi trabalhar no exército, no 19 BC, já morando em Santo Amaro de Ipitanga. Como o pai lhe ensinou, conciliava o trabalho com os balaios. “Fiz tanto balaio para dentro do exército; fazia balaio para a Base Aérea, para a Marinha, e para as padarias todas. Minha vida foi fazer balaio”, conta.
 
Mais ou menos por volta de 1960, ‘botou reparo’ em uma mocinha da cidade. Antônia. “Ela ficava espiando eu jogar bola (rsrsrsrs). O campo era ali na entrada da rua São Jorge, onde hoje tem um hotel. Eu passando, vi, gostei e ‘buli’ com ela, mas ela não gostou muito não. Pensei, será que sou tão feio assim? Voltei para falar com ela, e ela então sacramentou: só falando com a mãe dela, se a mãe deixasse ela aceitava”.
 
“De noite fui para falar com a mãe dela. Ela estava na janela e vi ela falando: ‘olha mamãe, é o rapaz que veio para falar com a senhora para namorar comigo’. Eu entrei”.
 
Depois de me apresentar para a mãe de Antônia, falar de sua família, parentes mais próximos, ela questionou se Antonia estaria realmente interessada, e eis que a moça confirmou que sim, caso a mãe permitisse. Foi a hora então de chamar o pai. “Naquele tempo era o diacho (rsrsrsrsrsrsrs), um povo brabo”.
 
A prosa não demorou muito, logo Domingos reconheceu o seu Pedro, pai de Antônia. Alguns dias antes, fardado com o uniforme do exército, passando pela feira das Sete Portas, em Salvador, avistou um moleque mexendo com um dos vendedores de frutas, já um senhor. Ele chegou, perguntou o que estava acontecendo. “Hoje não, hoje eu sou uma droga, mas naquela época eu era bem malcriado. O moleque veio pra cima, ‘piquei a mão’ nele, e botei ele para correr (rsrsrsrsrs); e avisei para o outro vendedor, de apelido 27, que se o moleque voltasse era para mandar me chamar”.
 
O vendedor de frutas que Domingos defendeu era justamente o pai de Antônia. Com isso, ter a aprovação para namorar com moça ficou mais fácil. “Ele perguntou: ‘você tem mulher?’ Respondi: ‘tenho não, perdi minha mãe agora, então eu preciso de uma pessoa que se desvelasse por mim e eu me desvelasse por aquela pessoa. Vi sua filha, gostei dela e vim falar. Vontade de casar eu tenho, e precisão também. Como diz que a precisão é o abrigo do ladrão (rsrsrsrsrsrs’)”. 
 
O casamento não foi na igreja, foi com Chiquito (escrivão na época), no cartório, e lembra até hoje do valor: 900 mil réis. Com Antônia, Domingos teve 15 filhos, todos criados com o seu ofício de balaieiro.
 
Para fazer os balaios achava a matéria prima aqui mesmo na margem do rio, próximo a ponte. Preferia a cana-brava, que tem uma massa na parte interna, mais macia. “Qualquer coisa serve para fazer o balaio, dendê, bambu, mas a canabrava tem mais carne e não fura muito. Aqui em todo lugar se achava cana-brava, até na beira do asfalto. Ia com meu facão, tirava uma quantidade, botava no ombro e vinha embora”.
 
A casa dele sempre foi no mesmo lugar, na rua Romualdo de Brito. As pessoas passavam, perguntavam o valor, pediam para ver. “Um dia chegou um rapaz, dei o preço: 50 o balaio; eu tinha um pronto, ele desceu do carro e veio olhar o balaio. Aí eu disse: ‘suba em cima’ (rsrsrsrsrsrs). O povo sentava no balaio, e ele firme, nem se mexia”.
 
Ele lembra até do primeiro balaio que vendeu quando firmou moradia em Santo Amaro de Ipitanga. “Foi para um senhor de nome Manoel, ele não era brasileiro. Depois dele, fui enchendo a cidade. Botei balaio nesta cidade como o ‘diacho’. Ave Maria, não podia sentar ali que já aparecia alguém querendo balaio”, lembra.
 
Certa feita, chegando com um feixe de cana-brava no ombro, percebeu um carro parado, próximo, parecia estar lhe observando, mas ele seguiu com a sua rotina diária: colocou o feixe no chão, raspou a casca, lascou no meio para tirar a bucha, e foi trabalhando até extrair a palha e trançar mais um balaio. O carro saiu, não demorou muito chegaram dois rapazes com umas ferramentas no ombro. “Perguntaram: ‘O senhor trabalha aqui exatamente onde?’ Mostrei o lugar e ele completou: ‘Mas hoje o senhor não vai trabalhar. Viu que tinha um carro aqui parado? Então. Era a prefeita (Moema Gramacho). Ela mandou que a gente viesse construir um banco para o senhor trabalhar. De tarde já vai estar pronto”.
 
Estava nascendo naquele momento uma relação de amizade e muita admiração.
 
Hoje seu Domingos não faz mais os balaios, tem uns dois anos, e o que lhe parou foi uma queda, bateu a coluna. Mas mesmo assim ainda existia a procura por balaio, mas ninguém na família se interessou em seguir com a tradição.
 
O fato de não poder mais fazer os balaios, que com o tempo se tornaram também uma distração para a mente, por vezes deixava seu Domingos muito agitado. Hoje ele gosta de fazer versos, que manda para os netos, e de falar com a prefeita Moema, de quem ele não esconde a estima. Sua filha, Rosane Santiago, conta que por vezes pega um telefone, coloca um pano para abafar a voz e finge ser a prefeita. “Ela tem um carinho muito grande por ele, e até me passou seu número pessoal para falar com ela quando precisar, mas não posso ligar para a prefeita todas as vezes que ele fica agitado, então faço isso. Só assim ele se acalma. Outra opção é ligar a TV e colocar algum discurso dela no Youtube. Ele se senta e fica quietinho, prestando atenção”, conta.
 
E o carinho não parte apenas do seu Domingos Balaieiro: “Todo mundo se lembra dele, ali sentado, fazendo os balaios, e se você perguntar quem é Moema Gramacho ele vai responder: minha filha. E sem dúvidas o sentimento é recíproco, é um pai que ganhei em Lauro de Freitas, e me emociono quando a filha dele conta que o que deixa ele calmo é ver meus vídeos, inclusive que ele conversa com a TV enquanto isso. Peço licença e desculpas aos filhos de sangue para dizer: ‘Seu Balaieiro, o senhor é um pai para mim e eu te amo”, se declara a prefeita Moema Gramacho, emocionada.
 
Nossa prosa seguiria por toda manhã, histórias ele tem várias, mas estava na hora de deixar ele descansar. Não antes de ouvir mais alguns versos, que saiam às vezes embolados entre boas risadas.
 
“Eu nunca achei um cantador
Que suba no meu cupim
E se subir não descamba
Se descambar eu dou fim”
 
NOTA DA REPÓRTER
Um homem conhecido por seu ofício, e que com uma vida de muito trabalho entrou para o legado de Santo Amaro de Ipitanga. Seu Domingos, ou melhor, Balaieiro, é isso: simplicidade e sabedoria juntos. Por mim, tinha passado a manhã toda escutando ele contar, com riqueza de detalhes, as importantes passagens de sua vida, dos ensinamentos que aprendeu do pai, do pedido para namorar e casar com Antônia, da amizade com a prefreita Moema Gramacho e dos muitos balaios que fez e vendeu. Quer saber mais? Aponte a câmera do seu smartphone para o código abaixo e confira mais detalhes dessa história.
 
NOTA DO EDITOR
Com a história de Balaieiro a coluna Memórias Ipitanguenses se despende, ou como prefiro dizer, ‘dá um até logo’. Foram sete capítulos de muitas lembranças, boas descobertas, e novas amizades que nasceram. Sabemos que ainda não contamos todas as histórias da saudosa Santo Amaro de Ipitanga, mas esperamos ter mostrado um pouco das características do nosso povo. A coluna “Memórias Ipitanguenses: contos, crônicas e histórias da freguesia de Santo Amaro de Ipitanga”, surgiu da parceria entre a revista Vilas Magazine e a Escola Municipal Ana Lúcia Magalhães, através da Secretaria Municipal de Educação. Participaram da produção deste capítulo: Domingos Ferreira da Cruz, Rosane Santiago, Moema Gramacho, Mara Campos, Antonio Cláudio, Caíque Barbosa e Thiara Reges.

 

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