Vilas Magazine
Lauro de Freitas
+26°C

Máx +29°

Mín +25°

Dom, 02.02.2014

Liberdade de cultos: em qual direção vai a sua fé?

Thiara Reges - Em 04/01/2020

Qual a sua religião? Uma pergunta bem simples na verdade, mas não se espante se num grupo de 10 pessoas você escutar 10 respostas diferentes. Com toda diversidade que existe entre os povos que habitam o planeta Terra, não é possível, nem de perto, identificar quantas religiões existem pelo mundo.
 
Para se ter uma ideia, o encontro da Assembleia Mundial das Religiões pela Paz, que acontece há cada cinco anos, reuniu em agosto de 2018, em Lindau, pequena cidade alemã, mais de 900 representantes de diferentes religiões.
 
Segundo dados do site de religiões Adherents.com, que reúne informações de diferentes fontes, e do ‘The World Factbook’, documento elaborado anualmente pela CIA (Agência Central de  Inteligência dos Estados Unidos), os maiores grupos religiosos, em número de seguidores são o cristianismo, com 2,1 bilhões de adeptos; o islã, 1,5 bilhões; agnósticos e ateus, 1,1 bilhão; e hinduísmo, com 900 milhões.
 
O Brasil, segundo Censo 2010, dados mais recentes divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), segue sendo a maior nação católica do mundo, cerca de 123 milhões, porém em visível declínio. Se em 1970, 91,8% da população se declarava católica, em 2010 esse número cai para 64,6%. A migração se dá principalmente para as religiões evangélicas, que aparecem em segundo lugar, com 22,2%, seguidas pelas pentecostais, 13,3% e espíritas, 2,02%. Umbanda e candomblé, principais religiões de matriz africana praticadas no Brasil, aparecem com 0,31%, e as pessoas que se declaram sem religião, somam 8,04%.
 
E mesmo com tantos caminhos religiosos possíveis, existe algo que une todas elas: a fé. Palavra com apenas duas letras, explicada pelo dicionário, mas sem grandes explicações na vida prática. Por que? Como? A fé simplesmente acontece; é o ato de ligar-se de forma incondicional a algo que não se pode ver e nem tocar, apenas sentir.
 
O QUE MOVE A FÉ
Em junho de 2019, a zona norte de São Paulo foi ocupada por uma multidão, cerca de dois milhões, segundo os organizadores,para participar da Marcha para Jesus, evento realizado pela Igreja Renascer em Cristo. Em outubro, em Belém do Pará, aproximadamente a mesma quantidadede fiéis acompanhou a procissão do Círio de Nossa Senhora de Nazaré, uma das maiores manifestações católicas do mundo. E logo mais, no dia 2 de Fevereiro, as praias de Salvador e de todo o Brasil, vão receber os milhares de presentes oferecidos a Yemanjá. São números que impressionam e que traduzem a importância da fé na vida das pessoas.
FOTO: Realizado em Belém do Pará, desde 1793, o Círio de Nazaré é uma das maiores e mais belas procissões católicas do Brasil e do mundo. Reúne, anualmente, cerca de dois milhões de romeiros numa caminhada de fé pelas ruas da capital do Estado, num espetáculo grandioso. Por sua grandiosidade, o Círio de Nazaré foi registrado, em setembro de 2004, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), como Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial. É a mais importante data dos paraenses.
 
“Religião vem da palavra regilare, conexão com a força maior. É muito importante que as pessoas acreditem que exista algo maior que elas, que rege a vida; inclusive o próprio fluxo das marés, de dias e noites, significa que existe uma forma maior”, destaca a psicóloga Regina Gama.
 
Eugênia Santos Silva, 39 anos, experimenta a sensação de viver para a fé desde 1995, quando se tornou paroquiana na comunidade de Nossa Senhora Aparecida, no bairro de Itinga. Segundo ela não existiu nenhum fator externo para essa busca, apenas a grande vontade de estar na igreja, ajudando no que fosse necessário e fortalecendo sua conexão espiritual. De lá pra cá, Eugênia já organizou quatro romarias para o Santuário Nacional, em Aparecida. Em 2014, segunda romaria da paróquia, a comunidade foi agraciada com uma réplica da imagem original, que hoje fica exposta na igreja em Itinga, que comemorou em 2019 o jubileu de 25 anos.
 
“Independente de religião, cada pessoa tem uma devoção especial, e a minha é à Nossa Senhora Aparecida; me vejo ali, nas dores do parto e rezando por ela, pedindo intersecção, tanto que minha filha tem Maria em seu nome. É indescritível a sensação de estar no Santuário, em Aparecida; as palavras não conseguem definir, é muito profundo para todos aqueles que são devotos, é uma sensação ímpar”, conta.
 

E grandes sacrifícios, oferendas e obrigações são comuns em todas as religiões. Segundo Regina Gama, jejuns e outros sacrifícios são barganhas que as pessoas fazem com as divindades, em busca de benefícios. “Se eu me sacrificar, andar de joelhos, eu terei tudo. Dar um pouco de si para que as coisas aconteçam. Mas não é tão simples assim, pois estamos num mundo dual, onde coisas ruins também acontecem com pessoas boas, não depende apenas dessa negociação com a divindade”, frisa. 
 
Ela destaca ainda que outro aspecto muito comum nesta relação é a transferência de responsabilidade. “‘Oh meu Deus, o que eu fiz de errado, por que isso aconteceu comigo?’. De alguma forma as pessoas estão sempre transferindo a responsabilidade, se isentando, se acreditando melhores ou mais merecedoras do que são. Mas as coisas simplesmente acontecem, por estarmos vivos, e existem coisas boas e ruins. Mas eu acredito que se cada um assumisse sua própria responsabilidade com sua vida, aí sim, as coisas poderiam melhorar”.
 
“Quando algo dá errado as pessoas procuram a religião como se isso tivesse acontecido por elas terem se afastado de Deus. Só que essa ligação não é uma coisa prática, é uma conexão interna que não necessariamente você precisa estar em um templo ou participando de uma religião específica. Tem pessoas, inclusive, que não tem religião alguma mas são pessoas extremamente espiritualizadas, mesmo não acreditando em Deus, por exemplo, mas estão em paz consigo mesmas”, conclui Regina.
 
A minha fé é maior que a sua?
O balanço da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos destaca que apenas entre os anos de 2011, quando o Disque 100 passou a aceitar denúncias de discriminação por religião, e 2016, o canal registrou um aumento de 3.706% no número de denúncias. E os números só crescem.
 
Em 2018 o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH), que recebe denúncias por meio do Disque 100, apurou 152 casos de discriminação religiosa contra terreiros e adeptos de religiões de matriz africana, um aumento de 5,5% comparado ao ano anterior. Cabe destacar que no mesmo período as denúncias de discriminação religiosa contra adeptos de outras religiões, excluindo as de matriz africana, caiu 9,9%. 
 
Trazendo para dados locais, o Grupo Especial de Proteção aos Direitos Humanos e Combate à Discriminação do Ministério Público da Bahia (MP-BA), registrou em 2019 um crescimento de 81,4% de casos de intolerância religiosa, apenas em Salvador.
 
Os dados estão disponíveis no aplicativo Mapa do Racismo, criado há um ano como alternativa para denunciar, mapear e combater atos de racismo e intolerância religiosa na Bahia. Entre novembro de 2018 e novembro de 2019, foram registrados 45 casos de intolerância contra religiões de origem africanas, três casos contra religiões cristãs evangélicas e um caso de intolerância contra adeptos do islamismo e ateus.
 
Um caso que aconteceu em Salvador entre outubro e novembro de 2019, chamou atenção da cidade e gerou protesto e a intervenção do MP. Antes da chegada na cidade do navio Logos Hope, administrada pela organização alemã de origem cristã Good Books For All (GBA), e que abriga a maior livraria flutuante do mundo, foi publicado um post em suas redes sociais com pedido de orações para proteção, associando Salvador a ‘espíritos e demônios’.
 
Como resultado, o povo de santo se organizou em um protesto em frente ao navio, no porto de Salvador, onde foi realizado um ebó (oferta de comida ou objetos ao orixá Exu), e um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) foi firmado com o Ministério Público da Bahia (MP-BA), onde a empresa foi obrigada a publicar um vídeo sobre intolerância religiosas em suas redes sociais.
 
Já em Lauro de Freitas, em setembro, aconteceu um marco para as religiões de matriz africana, sendo julgado o primeiro caso de intolerância religiosa na cidade. Durante cinco anos foram registradas mais de 10 denúncias e duas representações no Ministério Público, todas indeferidas, contra o terreiro de candomblé Ilê Oba L’Oke, localizado no Jockey Clube. Entre as acusações estava a desvalorização imobiliária do local, uso de propaganda sem licença (referindo-se ao nome do terreiro na fachada), suposta criação de animais e mau cheiro, referindo-se inclusive ao cozimento das comidas típicas.
 
“Os órgãos municipais foram parceiros desde o início do processo, e conseguimos crescer juntos através de um aprendizado mútuo. Aprendi sobre os regulamentos municipais e ensinei também, sobretudo que a nossa dinâmica de vida é diferente, e não podemos ser comparados a supermercados ou shoppings. Não queríamos ser mais um número para alimentar estatísticas, e lutamos para que o caso Oba L’Oke chegasse a solução, servindo de exemplo de força para todos os terreiros”, destaca o babalorixá Vilson Caetano.
 
Na sentença, ficou determinado que o réu está proibido de acionar a justiça ou apresentar qualquer tipo de denúncia contra qualquer manifestação de matriz africana, bem como está proibido de se ausentar da comarca de Lauro de Freitas sem comunicar ao juiz. No Brasil, a pena para o crime de intolerância religiosa não chega há dois anos de prisão. Mesmo não considerando esta a melhor solução, comunidade comemorou, sobretudo pelo significado desta ação para outras comunidades afro-brasileiras.
 
Ainda segundo o Censo 2010, do IBGE, em Lauro de Freitas 47,38% da população se declara católica, seguido por 21,92% de evangélicos e 18,49% sem religião. Seguidores de religiões de matriz africana representam apenas 1,13% da população, e apesar disso existem mais de 400 terreiros registrados na cidade.
 
A psicóloga Regina Gama destaca que a intolerância é fruto de uma relação de extrema intimidade que as pessoas tendem a construir com a divindade. “As pessoas têm Deus como uma coisa pessoal, uma entidade, um sujeito personificado, que as servem exclusivamente, e é por esse pensamento que ocorrem as brigas religiosas, porque essas pessoas se crêem mais merecedoras e íntimas que as outras, como se o Deus de cada um fosse especial. Mas Deus é um só, e se as pessoas percebem isso não haveriam tantas brigas”, finaliza.

 

Publicidade
Você Viu? Dez/2019
Registro e Notas Reverência
Registro e Notas Manuela
Registro e Notas Encontro
Registro e Notas Aniversário
Registro e Notas Aniversário
Registro e Notas Feira do Livro
Veja todas as notícias de Dez/2019
Vilas Magazine© 2013. Todos os direitos reservados.
Desenvolvido por: Webd2 - Desenvolvimento Web