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Dom, 02.02.2014

Prefeita defende reposição do nome de Santo Amaro de Ipitanga

Redação Vilas Magazine - Em 01/02/2020

 
A prefeita Moema Gramacho (PT) anunciou em 15 de janeiro a intenção de repor o nome histórico original da cidade – Santo Amaro de Ipitanga – de acordo com a prefeitura, por meio de projeto de lei que enviaria à Câmara Municipal.
 
Em entrevista à Vilas Magazine, em outubro de 2008, a então prefeita afirmou que pretendia propor uma consulta à população sobre a reposição do nome de Santo Amaro de Ipitanga.
 
Em entrevista à Rádio Metrópole, em 21 de janeiro, já com a polêmica nas ruas, a prefeita reafirmou que tudo seria feito por meio de plebiscito, não via projeto de lei e que “para esta eleição municipal já não dá mais tempo”. A consulta teria de ser feita pelo Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA), juntamente com as eleições.
 
Defendendo-se de críticas, Moema Gramacho lembra que “eu não inventei nada” e chegou a contraindicar a sua própria proposta, lembrando que a mudança de nome implica em custos porque altera os dados cadastrais do CNPJ das empresas.
 
De fato, a Lei Orgânica original do Município de Lauro de Freitas, no seu artigo 25º, determina a “realização de consulta plebiscitária para a mudança do nome do Município para Santo Amaro de Ipitanga – ou simplesmente Ipitanga”.
 
Conforme lembrou a prefeita, os legisladores “não deram nem a opção de continuar Lauro de Freitas”. A consulta deveria ter sido feita no prazo de seis meses a partir da promulgação da lei, que data de 1990, mas jamais aconteceu.
FOTO: Dom Murilo Krieger, arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil celebrou a missa do padroeiro na Matriz de Santo Amaro de Ipitanga
 
Se não é a primeira vez que a prefeita defende o retorno à verdade histórica do topônimo original, agora fez o anúncio durante a missa solene que celebrou o santo padroeiro, no dia 15 de janeiro, presidida por dom Murilo Krieger, arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil 
 
Representantes das várias denominações evangélicas tradicionalmente se opõem à reposição do nome histórico por conta de suposta conotação ao catolicismo. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), quase metade dos municípios brasileiros homenageia santos católicos – e mantêm a identidade por razões históricas e de identidade cultural, não religiosas.
 
A inscrição da opção por Ipitanga na legislação que manda convocar o plebiscito já visava atender politicamente o movimento evangélico, que tem força política relevante e crescente em Lauro de Freitas. Apesar de declarações posteriores jogarem um balde de água fria nos defensores da proposta, o anúncio da prefeita durante a missa do padroeiro sinalizou claro apoio à reposição do nome original, não à adoção de um nome alternativo.
 
“Reconhecendo a história do povo deste município, enviarei a Câmara de Vereadores, para aprovação, o Projeto de Lei que defende o nome Santo Amaro de Ipitanga como o fidedigno desta cidade” disse ela na missa do padroeiro. Dom Murilo Krieger também se manifestou sobre o nome do município: “ao refletir a história de Santo Amaro de Ipitanga, penso que ele é quem deveria ainda ser o nome desta cidade”, afirmou.
 
Entre os não religiosos, há tanto quem defenda o retorno ao nome histórico, como quem advogue a manutenção de Lauro de Freitas – por razões práticas, comerciais e até burocráticas, inclusive quanto à mudança do CNPJ das empresas. Os que pregam a volta do topônimo histórico lembram a importância de se afirmar e consolidar as raízes da comunidade para se construir um futuro.
 
Na Câmara Municipal, o apoio à proposta tende a ser escasso, apesar da prefeita contar com ampla maioria entre os vereadores. Emanuel Carvalho (PSDB), vereador da oposição, defende ser “importante discutir esta questão, até analisando os prós e contras na economia da cidade”. Para ele, “não se discute nada, pois o que está em jogo é apenas angariar mais ou menos votos”. Carvalho é “a favor de pensar a mudança do nome da cidade sim, mas não no ano eleitoral, para não servir de um palco para os demagogos de plantão”. 
FOTO: EMANUEL CARVALHO: a favor de pensar a mudança do nome da cidade, “mas não no ano eleitoral para não servir de um palco para os demagogos de plantão”
 
O vereador compara a proposta de alteração do nome à questão territorial com Salvador: “Literalmente vejo isso como mais uma jogada às vésperas de eleição, assim como foi na última eleição para governador, onde a briga pelo território de Lauro de Freitas contra Salvador foi para os holofotes e quando ACM Neto desistiu da candidatura a polêmica acabou e todos falsos heróis se calaram”, disse.
 
Alfinetando a prefeita, o vereador acrescenta que “a mudança do nome da cidade de Lauro de Freitas para Santo Amaro de Ipitanga neste momento não passa de interesses políticos e mais um jogo de cena para tentar mostrar uma falsa paixão e heroísmo de quem não viveu nenhum momento do passado histórico da cidade, pois aqui não vivia”.
 
Já os nativos, cada vez mais raros, defendem apenas que a memória seja respeitada.
 
O jornalista e músico Márcio Wesley, 46 anos, é um deles. Nascido 12 anos depois da expropriação cultural a que Santo Amaro de Ipitanga foi submetida, ele conta que passou a infância “ouvindo meus pais, meus avós e os moradores mais velhos chamarem Lauro de Freitas de Santo Amaro de Ipitanga”. Porque “eles não aceitavam o novo nome, e nem eu”.
 
Em artigo para a Vilas Magazine publicado em julho do ano passado, Márcio Wesley atesta que “moradores antigos ainda chamam a cidade que eu nasci, me criei e estou criando os meus filhos, de Santo Amaro de Ipitanga”. Afinal, “este era o nome da minha cidade antes da emancipação, em 31 de julho de 1962, quando rebatizaram descabidamente de Lauro de Freitas, que foi um importante engenheiro civil baiano, mas sem qualquer referência, nenhuma raiz ou relevância com a nossa gente”.
 
Em 1962 o cineasta baiano Glauber Rocha filmou Barravento, tendo como cenário a praia de Buraquinho. A história acompanha um negro educado que volta à aldeia de pescadores em que foi criado para tentar livrar o povo do domínio da religião e crenças antigas.
 
A alteração artificial de topônimos serve, em geral, à tentativa de legitimação da ocupação do espaço por quem não pertence à comunidade original.
 
Foi assim que, nos anos 70, a praia de Buraquinho desapareceu do referencial urbano e deu lugar à praia de Vilas do Atlântico, um loteamento construído sobre as dunas da praia original. A praia de Buraquinho, que em qualquer mapa oficial vai de Ipitanga à foz do Joanes, denomina hoje apenas um apertado trecho – aquele que o loteamento não ocupou.
 
As referências históricas a Buraquinho remontam, pelo menos, ao século 18. Daniel de Sá, por exemplo, reproduziu na sua “Crónica do Despovoamento das Ilhas: uma viagem de emigrantes para o Brasil em 1750” (Lisboa, Editora Salamandra, 1995) o relato do Vice-Rei do Brasil, dom Marcos de Noronha, sobre o naufrágio da nau Nossa Senhora da Conceição e Porto Seguro, com 535 pessoas, em 1756.
 
Dizia Noronha que “naufragou esse navio na foz do rio Joanes, próximo da Baía, aonde fora reabastecer-se de alimentos e fazer aguada para seguir até Santa Catarina, porque ventos contrários demoraram cinco meses a viagem, no que se gastara o que comer e o que beber, aí perecendo, no lugar de Buraquinhos, de Santo Amaro de Ipitanga, muito mais de metade das pessoas que havia conduzido”.
 
Hoje há apenas Vilas do Atlântico e Lauro de Freitas. Os filhos da terra perderam primeiro o seu espaço social e econômico, como lembrou um dia, faz quinze anos, o professor Emanuel Paranhos. Perderam depois o espaço vital – progressivamente excluídos por uma miríade de loteamentos e condomínios que, bem antes de visar segurança, buscavam pura e simplesmente excluir. A estratégia alcançou tamanho sucesso que ainda há quem pense ser Vilas do Atlântico “um condomínio” – de Salvador.
 
As sequelas da alteração forçada do referencial de Santo Amaro de Ipitanga ficam claras no déficit de integração das diversas comunidades. Para a população de Itinga e Vilas do Atlântico, por exemplo, Lauro de Freitas designa somente o centro da cidade. Para as famílias mais tradicionais de Portão, o topônimo nada vale. Os mais antigos ainda dizem que vão “a Santo Amaro” – nome que aglutina as comunidades – quando precisam se deslocar ao Centro.
 
Missa do padroeiro na Matriz de Santo Amaro de Ipitanga: nome histórico da cidade
 
Já a alteração do nome de Santo Amaro de Ipitanga serviu a propósitos políticos – outro uso muito comum para a violação de topônimos. Foi o preço a pagar pela aprovação da emancipação.
 
Foi em 1962 que ganhou autonomia o distrito de Santo Amaro de Ipitanga – hoje com 412 anos de história – e então pertencente a Salvador. Nascia ali uma colcha de retalhos que juntou comunidades diversas e com diferentes culturas, necessidades e aspirações sob uma bandeira de inspiração nacionalista e religiosa que – paradoxalmente – vinha ao cenário negando a origem jesuíta no próprio nome do município.
 
Teria sido o engenheiro e vereador Paulo Moreira de Souza, de Salvador, falecido em março de 2003, aos 91 anos, quem primeiro articulou a emancipação de Santo Amaro de Ipitanga, apoiado pelas lideranças políticas locais. A proposta foi apresentada à Câmara Municipal de Salvador e aprovada por unanimidade porque a bancada do PSD, majoritária à época, achou de seu interesse homenagear um político falecido em circunstâncias polêmicas durante a campanha eleitoral para o governo do Estado.
 
Tratava-se do engenheiro Lauro Farani Pedreira de Freitas, em homenagem a quem foi colocado um busto na pracinha em frente à estação de trem, no bairro da Calçada, em Salvador e cujo  grande legado está no desenvolvimento das ferrovias, das quais aqui nunca se viu um metro de trilhos – até o metrô chegar ao aeroporto.
 
O historiador Cid Teixeira, que integrava o conselho de cultura e turismo de Salvador em 1962, disse que defendeu a preservação do nome de Santo Amaro de Ipitanga, sem êxito.
 
A mudança do nome no bojo de uma manobra política é um exemplo da perda de identidade da comunidade – e fato pacífico entre os especialistas que já trataram do assunto. A construção desse vazio identitário, próprio dos subúrbios das grandes cidades brasileiras, teve início naquele 31 de julho da emancipação. Em vez de promover a autonomia, como seria de supor, a alteração do status político trouxe mais alienação.

 

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