Vilas Magazine
Lauro de Freitas
+26°C

Máx +29°

Mín +25°

Dom, 02.02.2014

Ipitanga: a real identidade ancestral de Lauro de Freitas

Tina Tude - Em 01/02/2020

No atual panorama político-social no Brasil, é preciso cautela ao interpretar de forma crítica, emancipatória e decolonial as manifestações hegemônicas sobre referências civilizatórias. Assim, ocorre uma reflexão sobre a incauta intenção de renomear o município de Lauro de Freitas como Santo Amaro de Ipitanga.
 
Convém observar a historicidade local e perceber onde se confunde a divisão de Estado e Igreja, do território ancestral de Ipitanga (da ocupação dos povos originários, início da civilização local), do distrito (divisão socio-política-territorial e administrativa de Estado) e a Freguesia de Santo Amaro de Ipitanga (uma divisão administrativa da Igreja, estabelecida no território ancestral, cujo nome ainda se confunde no imaginário popular como a origem da civilização local, flagrando na contemporaneidade os vestígios de um pensamento colonial a ser superado).
 
Conceitos como ancestralidade, Estado e Igreja; território ancestral, distrito e freguesia, levam o povo a pensar que o nome Santo Amaro de Ipitanga se referia originalmente à localidade, quando, na verdade, só passou a ser empregado com a chegada dos jesuítas e para designar a freguesia. O nome original do território, que mais tarde se constitui como distrito, era apenas Ipitanga, nome dado desde os ancestrais tupinambá e que, após a emancipação, virou Lauro de Freitas.
 
A freguesia foi denominada Santo Amaro de Ipitanga, por estar situada no local chamado Ipitanga. Se estivesse num local chamado Itapuã, por exemplo, seria Santo Amaro de Itapuã, ou seja, o próprio nome da freguesia nos dá indicativos do nome ancestral e original do local.
 
Contudo, dada sua legítima representatividade naquele período histórico, o senso comum convencionou chamar a localidade pelo nome atribuído pela Igreja, sendo preciso admitir que havia um território ancestral de Ipitanga, denominado pelos povos inaugurais, a ser reverenciado, reconhecido. De modo que não se pode, então, requerer retomar o nome Santo Amaro de Ipitanga como nome original, afinal, o nome original é o ancestral tupinambá, Y-Pitanga.
 
Façamos, pois, uma revisão historiográfica profunda, para reparação e reverência a nossa origem, a exemplo do sábio papa Francisco, que, oportunamente, em arguta percepção decolonial, declarou reconhecer que a Igreja deve uma retratação histórica com a memória dos povos originários na América Latina, pelo silenciamento de suas pertenças civilizatórias. É chegado o tempo de reverenciar nosso nome ancestral de Ipitanga.
 
Tina Tude é atriz, educadora e ativista pela identidade ipitanguense, titular do segmento de Identidade e Memória do Conselho de Políticas Culturais de Lauro de Freitas.
Publicidade
Vilas Magazine© 2013. Todos os direitos reservados.
Desenvolvido por: Webd2 - Desenvolvimento Web