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Projeto da SESP promove valorização de servidores de limpeza urbana

Thiara Reges - Em 06/03/2020

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Só de olhar para essa nuvem de palavras acima, sabemos que o tema central é lixo urbano. Mas em Lauro de Freitas, um projeto da Secretaria Municipal de Serviços Públicos - SESP, tem mudado essa visão e feito com que novos termos ganhem destaque, como valorização profissional, reconhecimento e humanização.
 
A iniciativa é fruto de uma nova proposta de gestão implantada em abril do ano passado. “Logo nos primeiros dias percebi um distanciamento muito grande dos servidores, principalmente os de campo, com a parte mais administrativa, e a forma que encontramos de reparar isso foi transformar o que antes era um setor de Recursos Humanos – RH, em Gestão de Pessoas, e agregar no quadro profissionais como assistente social e psicólogo, que pudessem proporcionar um novo olhar para os nossos servidores, acompanhando tanto as questões relativas à profissão, como questões pessoais”, frisa a secretária Lindaura Francisco.
 
Desde então vem sendo realizadas ações individuais de acompanhamento, que precisam acontecer através da busca espontânea do servidor, e também ações coletivas, que vão desde integração à oficinas e treinamentos.
 
Segundo o gestor de pessoas, Robson Lucas, apesar do processo acontecer de forma lenta, apenas 10% do quadro de servidores buscou pelo acompanhamento, e já foi possível identificar algumas fragilidades, sobretudo em pontos de vista pessoal. “Nosso sentimento é garantir melhor qualidade de vida aos trabalhadores que diariamente estão nas ruas, varrendo, catando lixo e isso passa também pela vida pessoal deles. Então já conseguimos identificar, por exemplo, que parte da pessoas não são alfabetizadas ou não concluíram o primeiro grau, mas tem muita vontade de estudar; descobrimos também pessoas com potencial em outras áreas, como artesanato, e que se abriram inclusive à possibilidade de ensinar os demais e também identificamos casos de traumas ou vícios”, destaca.
 
Em parte dos casos, a tratativa é dada através da transversalidade com outras secretarias, a exemplo de Educação e Saúde. Os casos mais graves são acompanhados de perto, garantindo sobretudo o sigilo do servidor. “Ainda existe um grande receio de vir até o setor e de alguma forma os colegas ficarem sabendo o que foi falado, o que é normal, pois se trata de algo novo, algo que eles não tinham acesso antes. Apesar disso, à medida que as ações coletivas de integração estão acontecendo, estamos criando um ambiente de confiança”, destaca Robson.
 
Daniele Reis, assistente social que atua no projeto, pondera que um dos principais acompanhamentos solicitados é a ajuda para ter acesso à benefícios. “As demandas surgem tanto pela falta de informação, alguns nem sabem que têm direito ao benefício, como também a dificuldade em acessar esses serviços. Aqui nossas principais demandas no momento são passe-livre, benefício socioassistencial e encaminhamentos para o INSS. Mas é importante destacar que não existe uma retração do servidor pela profissão que ele exerce, na verdade percebemos eles bastante empoderados neste sentido, o que é muito bom”, afirma.
 
 
Mas apesar da relação positiva do servidor com sua profissão, ainda existe uma preocupação da secretaria no sentido de fortalecer a valorização do papel social do agente de limpeza, pois infelizmente ainda existe muita discriminação. “Infelizmente ainda existe um preconceito, das pessoas passarem e nem sequer cumprimentar o agente, como se o fato dele trabalhar com limpeza o transformasse no próprio lixo, sendo até invisível. Mas é gratificante perceber que as pessoas que compõem a nossa equipe, sobretudo aqueles que estão há muitos anos, sentem muito orgulho do que fazem, e querem contribuir ainda mais”, conclui a secretária Lindaura.
 
 
Cristoval Jesus Santos, 47 anos. Trabalha com a limpeza urbana desde 1993
“Discriminação sempre teve, sempre vai ter. A população precisa se educar muito, as pessoas saem para passear com o cachorro e não querem catar nem o cocô; já ouvi até de uma pessoa que ela paga impostos e tem direito de sujar o chão. Comeu um queimado? Coloca o papel na bolsa; se informe do horário que o caminhão de lixo passa na sua rua para não deixar o saco na porta e o cachorro rasgar; vai sair para passear? Leve o saco para catar o cocô. Assim você respeita as pessoas e a cidade também.”
 
Luana da Silva Santos, 32 anos. Trabalha com limpeza urbana desde 2005.
“Acordo pela manhã, converso com Deus, e vou para a rua. Trabalho na região do Jambeiro, hoje sou encarregada, tem seis agentes trabalhando comigo, com muito amor; gosto muito do contato com as pessoas, converso com os moradores, é uma transferência de conhecimento. E a população também nos recebe muito bem, oferece um café ou uma água, pois quando você faz o que gosta, seu dia funciona muito bem. É importante que as pessoas tenham um pouco mais de conscientização, vamos chegar em um ponto que não vai ter mais nem onde colocar tanto lixo; se cada um fizer sua parte, vai dar certo.”
 
Miguel de Oliveira, 62 anos. Trabalha com limpeza urbana desde 2005.
“Comecei trabalhando como fiscal de ponto de lixo, eu ia olhar onde tinha lixo acumulado, marcava e voltava com uma equipe. Então fazíamos a limpeza e depois de limpo, eu ficava no lugar, falando para as pessoas não jogarem mais lixo naquele lugar. Eu fazia um trabalho de educação. Depois de uma semana, mais ou menos, você consegue controlar o descarte de lixo, mas de nada adianta se quando você deixa de fiscalizar, a população volta a jogar lixo no mesmo lugar.”
 
Carlos das Neves, 55 anos. Quase 40 anos trabalhando com limpeza urbana.
“Muitas vezes na hora que o gari está varrendo, a pessoa passa do lado e joga um lixo no chão. Se você fala, a pessoas ainda acham ruim, tratam mal a gente e ainda debocham, dizendo que é nossa obrigação limpar. Mas não é bem assim. Acho que as pessoas precisam ter mais respeito, tratar melhor o agente de limpeza, a não jogar lixo no chão, em qualquer lugar, pois assim a cidade fica cada vez mais suja e não tem trabalho que resolva .”
 
Jair Felipe dos Santos, 49 anos. Trabalha com limpeza urbana há cerca de 24 anos.
“A discriminação acontece, e muito. Às vezes até por falta de conhecimento; os produtos que usamos muitas vezes mancham a nossa roupa, e mesmo lavando não sai. As pessoas olham e acham que estamos sujos; eu tento não me importar tanto, e seguir com meu trabalho pois sei que é importante, mas não nego que magoa sim. Agente de limpeza, o gari, tembém é um ser humano e precisa ser tratado com respeito, afinal, somos nós que deixamos a cidade limpa”
 
Eliene Roberta, 44 anos. Só na oficina de reciclagem já são 5 anos.
“Trabalho na oficina, onde reciclamos tudo que vem da rua e conseguimos transformar em lixeiras, vasos de planta, cadeiras, puffs de pneu; fazendo luxo do lixo. E levo esse aprendizado para minha casa, como árvores de pet, sofá de pneu, e outras coisas. Eu falava para meu pai que eu tinha o sonho de ser gari, e quando consegui recebi apoio de toda a família. Do dia que comecei ao dia que sai da rua e vim para a oficina sempre fui muito respeitada. Eu amo muito o meu trabalho.”

 

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