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“Otto Alencar sinalizou sua preferência para que eu saia candidata à prefeitura de Lauro de Freitas”

Redação Vilas Magazine - Em 06/03/2020

Os sinais da cultura de nossa sociedade, patriarcal e machista, pode ser percebida em todos os segmentos, desde comércio, serviços, saúde e também na política. Tanto na Câmara de Deputados como na Assembleia Legislativa, as mulheres ocupam apenas cerca de 15% das cadeiras, e em 130 anos de democracia apenas uma mulher conseguiu se eleger ao cargo mais alto do país.
 
Mirela Macedo, 41 anos, é uma dessas poucas mulheres que conseguiram conquistar um lugar neste universo. Deputada Estadual pelo PSD, em visita de cortesia à Vilas Magazine, Mirela trouxe uma novidade que se tornou a pauta da nossa conversa: sua pré candidatura à prefeitura de Lauro de Freitas, oficialmente anunciada após o carnaval.
 
Não que isso seja exatamente algo inusitado. Afinal Mirela vem construindo uma trajetória política dentro do PSD desde que se elegeu vereadora em 2012. Sem qualquer relação com o meio político antes disso, ingressar nas disputas eleitorais foi fruto do incentivo de Teobaldo Costa, seu marido na época e admiração pelo trabalho realizado por João Gualberto no município de Mata de São João.
 
Nestes sete anos, dentre conquistas e projetos, o rompimento com Moema Gramacho, atual gestora do município, logo após se eleger vice prefeita da candidata do PT.
 
 
Estamos começando o ano de 2020 e a senhora chega com a novidade de sua pré-candidatura à prefeitura de Lauro de Freitas.
Exatamente. Otto Alencar, presidente do PSD Bahia, sinalizou sua preferência para que eu saia candidata à prefeitura de Lauro de Freitas este ano, mas me deixou muito livre para que eu decida, a partir de uma análise do que seja melhor para o partido e para a cidade. Teobaldo também externou o interesse dele, e na verdade ele procurou Otto para conversar sobre possibilidades. Nosso posicionamento, enquanto partido, era que Teobaldo viesse para o PSD ou algum partido da base, até para uma possibilidade de apoio, mas ele entendeu que esse era o momento dele estar com DEM.
 
Então sua decisão de sair pré-candidata parte do fato de não conseguir trazer Teobaldo para o PSD?
Não. Na verdade sempre existiu uma declarada vontade de Otto para que eu colocasse meu nome para a prefeitura de Lauro de Freitas. Quando chamei Teobaldo para entrar no PSD foi no sentido de somar forças para tirar a atual gestão.
 
Olhando por este ângulo, uma candidatura sua e de Teobaldo não enfraqueceria os dois, fortalecendo consequentemente a reeleição da atual gestão?
Não acredito. Na verdade nós entendemos que os possíveis eleitores de Teobaldo, que se filiou ao DEM, são pessoas que não votam no PT. Nós ainda não fizemos nenhum tipo de pesquisa, mas no meu caso, com a minha história no município, todo o trabalho que já realizava antes da política e depois de entrar nela, acredito que eu possa transitar tranquilamente nos dois públicos e apresentar as minhas propostas. Acredito na vitória, não colocaria meu nome se entendesse que o resultado não será positivo.
 
Já tem algum nome para seu vice?
Ainda não. Quando decidimos colocar o nome para 2020, Otto e principalmente Coronel, iniciaram um processo natural de articulação com outros partidos para que possamos chegar em um nome que atenda aos dois lados, a parte política, e também a empatia; precisamos de uma pessoa que possa agregar valores sociais.
 
Pensado em sua trajetória política, em 2016 a senhora foi eleita vice-prefeita na chapa com Moema Gramacho, mas não assumiu. O que aconteceu com essa aliança?
Não dava para continuar na parceria com Moema, foi uma questão de incompatibilidade mesmo. Eu não conhecia Moema tão profundamente quando aconteceu a aliança e me juntei a ela como sua vice. O que sempre existiu foi uma admiração enquanto mulher e política. Em 2005 ela fez um bom trabalho pela cidade, não foi o suficiente, mas foi satisfatório. Mas à medida que a campanha foi avançando conheci um outro lado dela: Moema é muito centralizadora, com opiniões formadas, e passava a clara ideia de que não confiava em mim para assumir a prefeitura nos momentos em que se fizesse necessário. Entendo que assumir essa postura em um processo de gestão é muito complicado. Percebendo isso, reuni o meu partido e fizemos algumas reuniões para decidir qual o melhor caminho a seguir, e entendemos que sair da prefeitura e ir para a Assembleia era a melhor solução para evitar um desgaste ainda maior. Moema não gostou muito, mas foi uma escolha muito assertiva, onde consegui ser muito mais ativa e de fato realizar ações que beneficiam a cidade.
 
Quando surge o despertar para a vida política?
Na verdade foi através de Teobaldo. Comecei com 17 anos a trabalhar na rede pública de saúde. Passei pelo hospitais Roberto Santos, Geral do Estado, Irmã Dulce, e na parte do SUS do São Rafael. Em 2005 adquiri uma clínica aqui em Itinga, justamente no ano que Moema assumiu a prefeitura. Comecei a ver a realidade dos moradores de Itinga – posso até dizer que hoje está muito melhor do que já foi um dia, era muito difícil. Na época o secretário de saúde era Galvão (Luis Carlos Cavalcante Galvão), e me reuni com ele para entender como a clínica poderia se credenciar para atender pelo SUS e ele abriu essas portas. Paralelo a isso montei um projeto com profissionais da àrea de saúde, amigos que conheci nesta caminhada de hospitais públicos, e passamos a atender mais ativamente a população. Neste meio tempo, João Gualberto foi eleito para a prefeitura de Mata do São João. Foi neste momento que Teobaldo começou a me questionar porque eu não me candidatava. João Gualberto me levou em Mata, mostrou o trabalho que ele estava desenvolvendo e fui me encantando com a possibilidade. Teobaldo, que tinha uma boa relação com Moema, foi até ela para entender quais os caminhos para percorrer, nem ele e nem eu não tínhamos até então qualquer relação com política. Me filiei ao PSD, não por escolha, mas porque foi uma sugestão de Moema. Era um partido novo que estava surgindo, que para minha imensa felicidade o presidente estadual era Otto Alencar, que foi paraninfo da minha turma de Fisioterapia, e uma pessoa que eu já admirava muito, e para minha sorte deu muito certo. Coloquei meu nome à disposição e me elegi vereadora em 2012.
 
E era exatamente o que a senhora imaginava?
Quando eu assumi percebi quanto é difícil. Mas teve uma coisa muito positiva na política, de aprender a lidar com coisas completamente diferentes a minha àrea de atuação.
 
Não dá para selecionar, não é?
Não mesmo. Então, apesar de ser da área de saúde, acho que foi onde eu menos atuei. Chegam as mais diferentes demandas e você precisa dar solução a todas elas. E como gosto do contato com o povo, ía para as comunidade. Três noites por semana ia nas comunidades, no local, coletar as demandas e entender o que elas precisavam. Essa, para mim é a parte mais empolgante, sempre gostei desse contato com as pessoas. A parte ruim é a politicagem, é o jogo, é você perceber que seu colega vereador não está nem um pouco preocupado com a cidade; é primeiro ele, depois ele, e se der tempo faz algo pela cidade. Lauro de Freitas é uma cidade pequena, e acredito que a Câmara de Vereadores poderia fazer muito mais do que se propõe hoje, Câmara itinerante, uma TV legal para que as pessoas pudessem acompanhar o que acontece.
 
Isso será um dos motes de campanha da senhora?
Sim, sem dúvidas. Penso que o prefeito também poderia fazer algo mais bacana em relação à Câmara de Vereadores, no sentido de capitalizar o nome e o trabalho de cada vereador.
 
Em vários momentos de nossa conversa percebemos, pela sua fala, que a senhora enxerga Otto Alencar como uma referência enquanto político. Estamos certos?
Otto tem extremo respeito às pessoas que compõem o partido, e a decisão estratégica é que o deputado estadual ou federal mais votado é quem organiza o partido naquele município. Então ele não te dá uma rasteira, ele é muito ponderado em tudo que faz. Não é à toa que apesar de se manter tanto tempo no meio não tem nada que o desabone. Além disso, apesar de ser de vanguarda, político há anos, ele respeita a opinião das pessoas. Uma determinada situação ele pediu que eu apoiasse Manassés aqui no município. É meu colega de parlamento, mas não conheço a pessoa nem o trabalho, mas me coloquei à disposição para acompanhá-lo e tomar uma decisão. Com uma semana cheguei para Otto e disse que não tinha condições, era uma pegada muito diferente da minha. Ele brincou, disse que eu era cabeça dura, que se tivesse apoiado Manassés ele poderia ser deputado estadual, mas em nenhum momento sofri qualquer retaliação por parte de Otto por não dar meu apoio.
 
Essa não é uma postura que vemos com frequência no meio político…
Sei disso, e tenho muita clareza de que política não é lugar de se fazer amigos. Tão pouco vou passar por cima do que acredito, não ia ficar com meu coração tranquilo. Não posso avalizar uma pessoa se nem um mesma acredito no que ela defende.
 
A população despertou o senso crítico, ou ainda é muito forte?
Já tem uma consciência, mas a política do troca-troca ainda existe. E é complicado porque as pessoas enxergam na política uma oportunidade de conseguir alguma coisa, por acreditarem que até a próxima campanha não vão ter nenhum outro benefício. É nesses locais que o trabalho de campanha se torna mais intenso. Precisamos parar, conversar com as pessoas, explicar que ela pode mudar a relação que tem com o voto. O acesso à informação ajuda muito neste contexto, mas estamos falando em mudar cultura, e isso leva tempo.
 
Analisando a cidade, é possível dizer qual seria o ‘calcanhar de Aquiles’?
Para mim educação é a base de tudo, mas sabemos que melhorando a educação os resultados só vão aparecer em 20 anos. Todos os pontos são críticos, mas acho muito importante reforçar sempre o olhar para o meio ambiente, a humanidade está acabando com o planeta. E além disso a mobilidade se tornou algo crítico, são engarrafamentos enormes para percorrer espaços muito curtos. A cidade hoje se divide pela Estrada do Coco, e agora já está nascendo um novo pólo de crescimento, na direção da Via Metropolitana. E não tem nenhuma ligação entre estes pontos. Para sair de Itinga e chegar em Vilas do Atlântico é necessário dar voltas enormes. A cidade não tem política de resíduos, não têm saneamento. Acho que não dá muito para eleger um único ponto.
 
E do ponto de vista da gestão?
Não é possível que Lauro de Freitas tenha a mesma quantidade de secretarias que tem hoje Salvador, uma cidade com 10 vezes mais habitantes. A máquina está muito inchada.
 
A senhora ainda enfrenta resistência no meio político pelo fato de ser mulher?
Nossa sociedade é patriarcal e machista, percebemos mudanças mas é bem devagar. Hoje no PSD já sentimos um crescimento significativo de mulheres que querem ser candidatas. É importante reforçar que precisamos de pessoas que consigam somar e fazer algo de positivo, não precisamos apenas de números.
 
A deputada Mirela Macedo foi recepcionada na revista Vilas Magazine pelo diretor-editor Carlos Accioli Ramos e o gerente de Negócios, Álvaro Accioli Ramos
 

 

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