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O mundo mudou: fique em casa

Carlos Accioli Ramos - Diretor-editor - Em 28/04/2020

Do pouco que se sabe sobre a COVID-19, sabe-se que é uma roleta russa: a maior ou menor gravidade da doença é diferente para cada um de nós. Jovens na faixa dos vinte ou trinta anos, perfeitamente saudáveis, também morrem da doença, com uma rapidez poucas vezes vista pelos profissionais de saúde. E há idosos com baixa imunidade que conseguem salvar-se, ainda que em menor percentual.
 
Outro fato amplamente aceito na comunidade científica mundial é que, mais cedo ou mais tarde, cerca de 80% da população vai passar pela prova dos nove. A maioria terá sintomas leves – ou até inexistentes – e talvez nem perceba que foi contaminada, mas 20% vão precisar de um leito hospitalar e uma parcela dos hospitalizados terá de ser entubada numa Unidade de Tratamento Intensivo (UTI). Nos Estados Unidos, segundo dados oficiais, poucos saem de lá vivos.
 
Mesmo aqueles que não apresentam sintomas, de acordo com os estudos até agora publicados, continuam a disseminar o vírus, contaminando outros, que seguem para a fila da roleta russa. Por isso, até que a ciência desenvolva uma cura ou uma vacina que previna a infecção, a meta é conseguir atender todos os que precisarem de um hospital, todos os que precisarem de uma UTI – e todos os que precisarem ser sepultados. Com alguma dignidade, pelo menos.
 
Para isso, governantes responsáveis em todo o país pedem – talvez devessem obrigar – que as pessoas fiquem em casa. Nem todos conseguem atender o pedido. Muitas pessoas dependem de estar na rua para levar o pão para casa ao fim do dia. Muitos outros se vêm obrigados a comparecer ao local de trabalho, aberto ao público ou não, para não perder o emprego – e com ele o plano de saúde.
 
Ainda há quem viva da ilusão de que, num passe de mágica, abrir as portas devolverá as coisas ao normal, apesar do medo e da maior recessão econômica já contratada em mais 60 anos no Brasil – e no resto do mundo. Quem se achar imune ao vírus ainda terá que decidir consumir como se ainda houvesse emprego.
 
Em Santa Catarina, onde o governo cedeu à pressão do comércio e até shopping centers já reabriram, a associação do setor relata uma queda de 70% nas vendas depois da reabertura – porque sempre haverá 30% de desavisados ou mal-intencionados, para não dizer criminosos, sem qualquer compromisso com a sua própria humanidade, que dirá a dos outros.
 
Mas também deve haver 70% de empreendedores conscientes. Ainda em Santa Catarina, um proprietário de restaurante ouvido numa reportagem de televisão recusou reabrir as portas: “como é que o meu garçom vai atender com um metro e meio de distância do cliente?”, argumentou – “vai arremessar os pratos à mesa?”.
 
Não basta reabrir o comércio: é preciso resolver a ameaça do vírus antes. Sem isso, todo o esforço planetário continuará voltado para o setor de saúde, não haverá retomada econômica, não haverá empregos e não haverá consumo. Antes que a pandemia seja controlada, nada será como já foi um dia.
 
Setores que poderiam manter portas abertas, como os consultórios médicos particulares, que em Lauro de Freitas seriam liberados por se tratar de serviço essencial, em sua maioria podem estar fechados simplesmente porque os médicos não são propriamente uns desavisados. Caixas de supermercado, se pudessem, estariam em casa em vez de se expor a centenas de pessoas que passam por eles todos os dias, em vez de registrar milhares de produtos que uma infinidade de gente já tocou. Frentistas preferiam estar em casa e não arriscando a sorte a cada motorista atendido na bomba de combustível.
 
Incontável número de trabalhadores expõe-se todos os dias dentro dos ônibus nas grandes cidades brasileiras, por necessidade ou falta de responsabilidade dos empregadores. Empreendedores mesmo têm adaptado as operações para vender pela internet e fazer entregas em domicílio ou planejam mudar de ramo – porque, pelo menos até segunda ordem, o mundo mudou. Mas também há quem aceite vender a própria mãe para manter o fluxo de caixa, como ficou dito neste espaço na edição passada.
 
As máscaras faciais, que não passam de um paliativo, hoje recomendadas e já obrigatórias em muitas cidades, são a expressão do fracasso da nossa sociedade em conter uma pandemia, numa situação em que todos pudessem ficar em casa – exceto os trabalhadores de fato essenciais, heroicamente destinados ao sacrifício. Profissionais de saúde – médicos, enfermeiros, atendentes – trabalham inteiramente paramentados e mesmo assim se contaminam em grande número, adoecem e morrem miseravelmente nesta pandemia. 
 
A maioria dos países que conseguiu um isolamento social eficaz teve que passar antes pela carnificina dos hospitais lotados, dos doentes dentro de ambulâncias na fila de espera, dos caminhões frigoríficos que empilham cadáveres por falta de câmaras apropriadas, dos carros funerários enfileirados em cemitérios e até das valas comuns em países pobres como o Brasil – como já ocorreu em Manaus.
 
A explosão dos sepultamentos é que tem denunciado a subnotificação de mortes pela Covid-19 e a ilusão dos inconformados. Nem os cadáveres têm sido todos testados para o vírus no Brasil. Só para ficar no exemplo de Manaus, no dia 22 de abril havia 14 mortes confirmadas pela doença. Mas o número de enterros naquele dia apenas atingia 120 corpos – mais de 70 acima do número diário anterior à explosão da pandemia naquela capital.
 
O isolamento social em Lauro de Freitas, como no resto do Brasil, continua insuficiente – dizem todos os governantes preocupados com a calamidade. Só na Ásia e em certos países europeus, onde as sociedades acumulam fama de organizadas, é que os governos conseguiram manter as pessoas em casa e transformar a pandemia numa crise gerenciável – com o imprescindível concurso de um empresariado que merece o nome, que não demitiu nem deixou trabalhadores ao desamparo. No caso brasileiro, nem governo há. Por isso, fique em casa.
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