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Nível de isolamento na cidade é insuficiente e não vai impedir colapso

Redação Vilas Magazine - Em 29/04/2020

Pessoas em circulação nas ruas como se a vida seguisse normalmente é a cena constante em Lauro de Freitas. A prefeita Moema Gramacho avisou, em abril, que o nível de isolamento social até agora verificado na cidade não é suficiente para evitar o colapso dos sistemas de saúde e funerário.
FOTO: População circula nas ruas de Lauro de Freitas: necessidade, medo de perder o emprego ou falta de noção da realidade
 
“O atual nível de isolamento é suficiente? Não!”, respondeu a prefeita durante transmissão online em que respondeu perguntas de jornalistas e cidadãos interessados. “Estou sendo muito verdadeira e sincera”, insistiu – “É preciso que a população compreenda. Nós precisamos que vocês fiquem em casa. Não é preciso desenhar. Isso está sendo mostrado pelas telas da televisão e está acontecendo em tudo quanto é país do mundo e que está acontecendo já em São Paulo, que está acontecendo já em outros estados e as mortes que já temos também na Bahia e as mortes em Lauro de Freitas”.
 
A percepção da prefeita está amparada em dados da Fundação do Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz), datados de 20 de abril: as mortes provocadas por Covid-19 têm dobrado, em média, num intervalo de apenas cinco dias no Brasil.
 
Nos Estados Unidos e no Equador, países com taxas altas de disseminação da epidemia e que vivem hoje uma situação de caos nos sistemas de saúde e funerário, o intervalo dessa duplicação, em período similar, seria de seis dias, de acordo com a Fiocruz. Na Itália e na Espanha, outros dois países gravemente afetados, seriam precisos oito dias para dobrar o número de mortes em período similar.
 
Ação da Guarda Municipal no terminal de ônibus da estação Aeroporto do metrô: aglomeração permanente
 
O dado consta de nota técnica do MonitoraCovid-19, sistema que agrupa e integra dados sobre a pandemia do novo coronavírus no Brasil. Epidemiologistas, geógrafos e estatísticos do Instituto de Comunicação e Informação em Saúde da Fiocruz têm se debruçado sobre a ferramenta para elaborar análises sobre o avanço da doença.
 
VALA COMUM
A Fiocruz anota que houve uma aparente tendência à desaceleração do crescimento no número de casos em boa parte dos estados, principalmente nas regiões Sudeste e Sul – e que esse decréscimo tem relação com as medidas de isolamento social. No entanto, verificam os pesquisadores, o número de casos é um dado menos preciso do que o de óbitos. A ampla subnotificação da doença é um fato que recolhe o consenso de médicos e cientistas em todo o país. Os números reais são muito maiores.
 
Por isso, “os dados de óbitos são mais confiáveis do que os dados de casos para medir o avanço da epidemia”, esclarece o epidemiologista Diego Xavier, pesquisador do Laboratório de Informação em Saúde da Fiocruz. “Isso porque, no caso do óbito, mesmo o diagnóstico que não foi feito durante a evolução clínica do paciente pode ser investigado”, informa. “Além disso, a situação clínica do paciente que vem a óbito é mais evidente, quando comparada aos casos que podem ser assintomáticos e leves – já que a testagem em massa da população brasileira ainda não passou do estágio das boas intenções.
 
Não por acaso, ao mesmo tempo que corre para abrir novos postos de atendimento de saúde e procura estruturar os existentes para atender as pessoas, a prefeitura já pensa no acúmulo de sepultamentos. “Nós não temos muitas vagas, apesar das reformas que já fizemos” nos dois cemitérios de Lauro de Freitas, em Portão e em Areia Branca, disse, “mas já estamos com espaço reservado para, se for necessário, transformar em cemitério”.
 
Imagens de corpos sendo sepultados em vala comum em Manaus (AM), no final de abril, assombraram o país com a mostra do que pode vir a acontecer em qualquer ponto do Brasil que não tenha se preparado, com elevado isolamento social, para o pico da primeira onda da pandemia.
 
Não se trata apenas de poder tratar todos os doentes, disponibilizando leitos de UTI suficientes e com pessoal médico treinado para a função. Trata-se de conseguir sepultar todos os corpos, com um mínimo de dignidade, quando o primeiro esforço falha.
 
Smith Neto e o comando das CIPM de Lauro de freitas: combate às aglomerações
 
ESSENCIAIS
“Portanto, isolamento social”, reafirmou a prefeita. “Está precisando de alguma coisa? Delivery” – e pediu “criatividade no comércio, por favor”, para ofertar e entregar produtos na casa das pessoas. Mesmo assim, diversos setores estão autorizados a funcionar. Mas aquilo que a prefeitura aceitou definir como “atividade essencial” depois de conversas com comerciantes tem que cumprir medidas preventivas: máscara facial para vendedores e compradores, não só dentro das lojas, como nas filas externas, garantindo também o espaçamento entre as pessoas.
 
“Os próprios bancos e lotéricas têm que garantir a fiscalização e o distanciamento entre as pessoas”, exemplificou. E insistiu: “Essa não é uma tarefa do poder público, é tarefa do comerciante que quer se manter aberto”. E prometeu fiscalizar.
 
Uma força tarefa composta por 109 fiscais municipais de atividades urbanas e agentes das secretarias municipais de Desenvolvimento Urbano, Serviços Públicos, Trânsito, Transporte e Ordem Pública, Saúde, Meio Ambiente e da Procuradoria Geral do Município está nas ruas atrás dos infratores. Em abril, na primeira etapa da ação, 278 estabelecimentos comerciais foram notificados para que cumpram as medidas preventivas.
 
Mas há quem reivindique o direito de não fornecer máscaras de proteção, quanto mais impedir a aglomeração de pessoas no interior dos estabelecimentos. Em decisão proferida no dia 17 de abril, o presidente do Tribunal de Justiça da Bahia, desembargador Lourival Trindade, acatou solicitação da prefeitura de Lauro de Freitas, e suspendeu os efeitos de liminar concedida à Associação Baiana de Supermercados (ABASE), que isentava estabelecimentos comerciais do município de disponibilizarem máscaras de proteção para clientes e funcionários, e de limitar a presença de 50 pessoas no interior de hipermercados e supermercados.
 
As medidas constam de decretos publicados pela prefeitura de Lauro de Freitas em 27 de março e sete de abril, com medidas para amenizar a proliferação no novo coronavírus. Com a decisão do desembargador, os estabelecimentos comerciais permanecem obrigados a cumprir as determinações. A liminar que suspendia o cumprimento das medidas tinha sido concedida à ABASE no dia nove de abril.
 
Em sua decisão, o desembargador Lourival Trindade afirmou que a suspensão das medidas representava incontestável risco à ordem, à saúde e à segurança, e que as medidas adotadas pelo município viabilizam o funcionamento excepcional dos hipermercados e supermercados do município, “exigindo para tanto, apenas, e tão somente”, nas palavras do magistrado, a adoção de medidas de prevenção, com o objetivo de minimizar o agravamento da saúde pública.
 
O desembargador também citou em sua decisão, a sanção, pelo governador Rui Costa, de lei estadual que determina a obrigatoriedade do uso de máscaras de proteção, em locais de trabalho, e a obrigatoriedade, por parte dos estabelecimentos comerciais, de disponibilizar e fiscalizar do uso do equipamento de proteção individual, por parte dos funcionários.
 
O uso de máscaras faciais, hoje determinado por lei até com artefatos caseiros, já foi desaconselhado no país. Em março, o vice-diretor de Serviços Clínicos do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI), da Fiocruz, o médico infectologista Estevão Portela Nunes, ponderou ao site da instituição que, apesar de a máscara “ser útil em relação a evitar o vírus, já que a transmissão é por gotícula, em geral ela é mal utilizada” – “A pessoa na hora que vai tossir tira a máscara ou ela é posicionada de forma errada no rosto, a máscara molha e vai perdendo sua utilidade” – pontuou.
 
Sem o treinamento necessário para o uso da máscara, a tendência é que uma falsa sensação de segurança se instale, estimulando as pessoas a circular nas ruas, quando a única medida de proteção efetiva é simplesmente ficar em casa.
 
Fiscais da força-tarefa da Covid-19 interditam estabelecimento comercial
 
AGLOMERAÇÕES
Por necessidade de sobrevivência, até para não perder o emprego, ou por absoluta falta de noção da realidade, o fato é que muita gente ainda circula em Lauro de Freitas. Segundo o Centro Integrado de Mobilidade Urbana (CIMU), que opera o sistema de videomonitoramento na cidade, os bairros de Portão, Itinga, Centro, Buraquinho, Caji, Vida Nova e Vilas do Atlântico concentram a maior parte das denúncias de aglomerações, feitas por meio do número 156, que funciona 24 horas por dia.
 
Para combater a irresponsabilidade, equipes das 52ª e 81º Companhias Independentes da Política Militar (CIPM) de Lauro de Freitas, do Corpo de Bombeiros e da Guarda Municipal, percorrem os principais bairros, desfazendo aglomerações e orientando a população para a necessidade do distanciamento social.
 
As incursões são realizadas duas vezes por dia em pontos estratégicos da cidade, definidos a partir de denúncias recebidas pelo CIMU, e de informações da força tarefa criada para fiscalizar o cumprimento, pelos estabelecimentos comerciais, das medidas de prevenção da Covid-19.
FOTOS: Equipes das 52ª e 81º Companhias Independentes da Política Militar (CIPM) de Lauro de Freitas, do Corpo de Bombeiros e da Guarda Municipal, percorrem os principais bairros, desfazendo aglomerações e orientando a população para a necessidade do distanciamento social
 
 
“Temos recebido muitas denúncias de aglomerações”, afirma o secretário de Trânsito, Transporte e Ordem Pública, Smith Neto. A ação percorre esses locais “pedindo às pessoas que fiquem em casa, e evitando as aglomerações nos bairros de onde temos recebido a maior parte das denúncias, a exemplo de Portão, Buraquinho, Vilas, Centro, Caji, Itinga e Vida Nova”, explica.
 
Comandante da 52ª CIPM, o Major PM Monteiro lembra que a Polícia Militar já atuava no impedimento de aglomerações causadas pela prática de esportes em quadras, campos e praças do município, proibida desde 19 de março. O Tenente PM Franco, do Corpo de Bombeiros, já vinha coordenando um trabalho com o uso do serviço de som do veículo Auto Bomba Tanque (ABT), para conscientizar a população, pedindo que as pessoas fiquem em casa. “Com a força tarefa, vamos intensificar este trabalho”, disse.
 
Entre as ações que vem sendo desenvolvidas pelos bombeiros, o tenente destacou o recolhimento, por parte do Corpo de Bombeiros, de doações de alimentos não perecíveis e artigos de higiene pessoal, que estão sendo recebidos no quartel local, localizado na Av. Santos Dumont, a Estrada do Coco, ao lado do SAMU. As doações são distribuídas à população mais necessitada.
 
A conscientização da população também vem sendo operada por equipes das secretarias, pessoalmente no terminal de ônibus da estação Aeroporto do metrô, por exemplo, mas também por meio de um carro de som posto a circular durante três dias.
 
No primeiro dia, a mensagem de que “ficando em casa, você se protege, me protege, e juntos combateremos o coronavírus” percorreu 78 quilômetros, acompanhada por viaturas da 52ª e 81º Companhias Independentes da Política Militar (CIPM), do Corpo de Bombeiros, da Secretaria Municipal de Trânsito, Transporte e Ordem Pública, da Guarda Municipal e de equipes de fiscais. O vistoso cortejo pode ter convencido mais pessoas de que o assunto é sério.
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