Vilas Magazine
Lauro de Freitas
+26°C

Máx +29°

Mín +25°

Dom, 02.02.2014

58 anos de Emancipação: Muitas lembranças, poucas memórias

Thiara Reges - Em 01/07/2020

De terras de índios Tupinambás a polo de serviços e comércios habitada por um grande contingente de pessoas nascidas em outros lugares. Essa seria uma forma bem resumida de contar a história da cidade de Lauro de Freitas, saudosa freguesia de Santo Amaro de Ipitanga, mas, infelizmente, certamente que para muitos dos leitores, até a parte dos ‘índios Tupinambás’ é novidade.
 
Cabe aqui esclarecer, antes de mais nada, que me permito o uso da expressão ‘saudosa’ não pelo prazer de ter aqui vivido. Não alcancei as festas sob o pé do Oiti no Centro, as viagens com João Expresso ou os sambas de roda e as grandes manifestações culturais de Portão, e por muito pouco, também não tinha visto Balaieiro em seu ofício. De idade tenho menos que os 58 anos de emancipação do município e de moradora menos ainda.
 
Mas por dever de ofício no exercício das atividades da minha profissão de jornalista, tenho a oportunidade de travar conversas prazerosas com pessoas de todos os segmentos da comunidade, como o professor Antônio Cláudio, que me apresentou à moradores cheios de histórias, como as beijuzeiras de Areia Branca, dona Diluca e dona Aidê, que por meses nos alegraram com suas lembranças nos textos da série ‘Memórias Ipitanguenses: contos, crônicas e histórias da freguesia de Santo Amaro de Ipitanga’; com o professor Gildásio Freitas, que em 2020 completa 40anos de sua chegada na cidade.
 
O jornalista Carlos Accioli Ramos, diretor-editor deste veículo de comunicação, também se contextualiza nessa avaliação, credenciado pela contribuição editorial nas 258 edições impressas nos 258 meses de circulação da Vilas Magazine, resgatando detalhes da memória, personagens, causos e casos que dão consistência ao acervo histórico do município que nos abriga. Ele também um ‘estrangeiro’ apaixonado pela cidade.
 
E foi através das páginas da Vilas Magazine que pude perceber que os questionamentos quanto a perda de identidade cultural e histórica não são de hoje. Na edição 127, de agosto de 2009, quando a cidade completava 47 anos de emancipação, dois textos, assinados pelos jornalistas Rogério Borges e Marvin Kennedy, traziam ponderações acerca da necessidade de um olhar mais criterioso quanto a falta de integração dos moradores antigos com o novo topônimo, bem como a importância de um acervo público, que pudesse concentrar o que ainda se tem dessa história datada de antes de 1608, quando da chegada da missão jesuíta ao Brasil
 
Da história, o que se sabe, é que Ipitanga, nome que batizava as terras habitadas pelos índios Tupinambás (rio de águas rubras por conta do ferro), começou a se transformar logo da chegada da missão jesuíta, em 1608. A primeira grande mudança foi no nome, ergue-se uma igreja e assim nasce a Paróquia de Santo Amaro de Ipitanga e com ela a freguesia de Santo Amaro de Ipitanga. Depois deste primeiro momento o que se segue, além da cultura de exploração e escravidão, são batalhas, algumas delas às margens do Rio Joanes, e a luta pela independência, já nos anos de 1800.
 
A economia passou a girar em torno da pecuária e dos engenhos, com destaque para Japara, Cají, Quingoma e São Bento, que utilizavam como força de trabalho os negros, escravizados, e talvez venha daí a forte presença das religiões de matriz africana e do samba de roda, que as beijuzeiras de Areia Branca dançam tão bem. Hoje Lauro de Freitas possui mais de 400 terreiros registrados.
 
Depois dos engenhos, a história segue por grandes latifúndios que hoje delimitam alguns bairros de Lauro de Freitas, a exemplo das fazendas Buraco (hoje Buraquinho), São João e Pitangueiras (região de Vilas do Atlântico e Pitangueiras). Me lembro de dona Aidê e dona Diluca contarem que quando ambas ainda eram meninas, os portões da fazenda da Família Sá, a Fazenda Portão, estavam sempre abertos, e se tornaram caminhos para que os moradores daquela cercania chegassem até à margem do rio, para pescar, ou até na praia (Buraquinho), uma das poucas opções de lazer.
 
Em 1942 mais um marco na formatação da cidade tal qual conhecemos hoje, instalação da Base Aérea de Salvador, que traz não apenas um novo ar de desenvolvimento, mas também novos moradores, trabalhadores da Base. Além disso, quando da emancipação, em 1962 (desde 1932 as terras pertenciam a Salvador, sendo também por um período integrantes de Camaçari), o primeiro prefeito, eleito às pressas para se cumprir com os prazos legais estabelecidos, foi Celso Pinheiro Alves, enfermeiro na Base Aérea.
 
O nome da nova cidade, que ainda hoje gera questionamentos e posicionamentos políticos, foi sugestão do então vereador de Salvador, Paulo Moreira de Souza, que propôs uma homenagem ao político baiano Lauro Farani Pedreira de Freitas, candidato a governador da Bahia, em 1950, que durante campanha faleceu em um acidente aéreo em Bom Jesus da Lapa. Lauro era natural de Alagoinhas, e não se tem notícias de qualquer relação histórica sua com a freguesia de Santo Amaro de Ipitanga e os seus moradores.
 
A ausência do pertencimento do nome é tamanha ao ponto de os moradores de Itinga e Vilas do Atlântico, por exemplo, usarem a expressão ‘vou para Lauro’, quando o destino é o Centro da cidade, bem como os moradores mais tradicionais, também ao se referirem ao Centro, dizem que estão indo para ‘Santo Amaro’.
 
De acordo com a Lei Orgânica do Município, um plebiscito deve ser convocado para a consulta popular quanto ao retorno do nome da cidade para Santo Amaro de Ipitanga, ato que já se tornou promessa de campanha política, pelo menos nas últimas três disputas municipais.
 
O grande ‘boom’ populacional se dá no final dos anos 1970 com a construção de grandes loteamentos e condomínios como Miragem, Vilas do Atlântico e Encontro das Águas, e os inúmeros prédios localizados nas comunidades de Caji e Itinga, esta última concentrando hoje a maior parte da população da cidade.
 
A definição de pólo comercial e de serviços acontece a partir de 1990, já na gestão de João Leão (1989-1992) e a nova tributação de impostos, mais atraente do que a praticada em Salvador.
 
E neste desenho, fica até difícil encontrar entre os moradores as pessoas que nasceram em Lauro de Freitas. Na gestão municipal nestes 58 anos de emancipação, apenas dois prefeitos, Amarílio Thiago dos Santos (1966-1969) e Marcelo Abreu (2001-2004), são filhos da terra.
 
Mas entendo que apesar de tantos ‘estrangeiros’, e eu sou uma entre eles, este não é o fator determinante para que a cidade de Lauro de Freitas, ou freguesia de Santo Amaro de Ipitanga, como eu particularmente prefiro, perca sua identidade. A chegada de novas pessoas deveria contribuir apenas para a criação de novos costumes.
 
Enquanto nada acontece, no que diz respeito ao topônimo da cidade ou a preservação histórica e cultural de documentos e arquitetura, bem como bens naturais que contextualizam grande parte da vida dos primeiros moradores, a exemplo dos nossos rios, Lauro de Freitas cresce, vertical e vertiginosamente, e caminha para se tornar tão somente a principal cidade da Região Metropolitana, às sombras da capital Salvador.
Publicidade
Vilas Magazine© 2013. Todos os direitos reservados.
Desenvolvido por: Webd2 - Desenvolvimento Web