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BEIRANDO O COLAPSO: Pandemia do Covid-19 gera sobrecarga física e psicológica nas mulheres

Thiara Reges - Em 01/09/2020

Se você é mulher, e em pelo menos um dia nos últimos meses teve vontade de chorar compulsivamente ou já desejou passar 24 horas sozinha em uma ilha deserta: acalma-se, você não está sozinha!
 
Com um olhar atento às consequências da pandemia, desde março a Onu Mulher, entidade da Organização das Nações Unidas para igualdade de gênero e empoderamento, já alertava que os impactos da Covid-19 serão maiores para mulheres do que para os homens.
 
Se pensarmos na linha de frente de combate ao coronavírus, 70% dos profissionais de saúde em todo o mundo são do sexo feminino. Já sob a ótica das vulnerabilidades sociais, as mulheres estão mais propensas ao desemprego, violência doméstica, falta de acesso aos serviços de saúde e aumento da pobreza.
 
De acordo com os dados de uma pesquisa realizada pela organização de mídia Gênero e Número, em parceria com a SOF - Sempreviva Organização Feminista, metade das pessoas do sexo feminino que participaram da pesquisa passaram a cuidar de alguém durante a crise: 80,6% passaram a assistir familiares; 24%, amigos e 11%, vizinhos. Além disso, a ausência de funcionários no domicílio ou a paralisação de creches e escolas pesou muito na nova rotina, ao ponto de 41% das mulheres afirmarem que estão trabalhando mais durante a quarentena.
 
O desemprego por conta da pandemia também é uma realidade também para as mulheres, e como muitas são as únicas responsáveis pelo sustento de suas casa, o fardo financeiro está se traduzindo em fardos psicológicos. Pesquisa online feita pela ID-BR, organização que promove igualdade racial no mercado de trabalho, apontou que entre as mulheres negras apenas um terço está empregada e continua recebendo salários.
 
Verdade seja dita: milhares de mulheres têm de se dividido entre diversas atividades diariamente, como gerar renda, seja empreendendo ou em trabalhos formais, muitas vezes em home office; todos os trabalhos domésticos, cuidado com filhos e pets; educação escolar em casa, e toda a pressão de não comprometer o desenvolvimento das crianças; além da assistência a outras pessoas da família.
 
A MULHER SE COBRA MUITO?
Não tem muito tempo que me peguei em casa, em um dia qualquer, chorando por mais de meia hora sem parar, olhando os brinquedos que meu filho espalhou pela casa enquanto pedia, aos berros, que eu brincasse com ele, me sentindo fraca ao perceber que havia engordado mais de 10kg, lembrando que precisava fazer o jantar, frustrada por não ter conseguido escrever os textos que precisava mandar para a redação da Vilas Magazine, e sem conseguir sequer me mover.
 
Sim, eu também faço parte desse grupo de mulheres que está tendo que aprender, na marra, como lidar com todas as pressões psicológicas e sobreviver aos desafios da pandemia.
 
Apesar de ser casada e não assumir toda a responsabilidade sozinha, consigo perceber claramente o abismo que a pandemia gera na divisão de tarefas domésticas. Pesquisa realizada em 2017 pelo IBGE apontava que, em média, as mulheres brasileiras dedicavam o dobro do tempo dos homens aos afazeres domésticos e cuidados de pessoas: 20,9 horas por semana delas, contra 10,8 horas por semana deles.
 
Mas outra pesquisa, desta feita realizada pela Ipsos em parceria com a ONU Mulheres, em maio deste ano, aponta que a pandemia aumentou ainda mais essa distância, e 43% das brasileiras entrevistadas (contra 35% dos homens) concordaram com a frase: &39;Tive que assumir muito mais responsabilidade pelas tarefas domésticas e cuidados com crianças e família durante esta pandemia’.
 
A ONU Mulheres destaca que muitas pessoas vão lembrar deste período como um dos mais desafiadores de suas vidas. Concordo plenamente. E não se trata apenas da sobrecarga de trabalho doméstico e a necessidade de se manter viva profissionalmente. Entendo que o mais difícil de tudo isso é saber lidar com a culpa. De uma forma geral carregamos uma carga histórica, onde no contexto social somos ensinadas a cuidar primeiro do outro, a cuidar da casa e dos filhos. E quando, estando  em casa, deixamos de brincar com nossos filhos, para nos ocuparmos com uma atividade externa, nos culpabilizamos.
 
Para Ana Martha Lima, psicóloga comportamental e instrutora de intervenções baseadas em mindfulness, a palavra de ordem neste momento deve ser o autocuidado. “Nós, mulheres, temos, de maneira geral, o hábito de pensar em todas as pessoas ao  redor e por último em nós mesmas. Sugiro que procure incluir na rotina hábitos de autocuidado, e cada uma saberá sua forma de fazer isso. Lembrando que dizer ‘não’, pedir ajuda, delegar e colocar limites nas pessoas também são formas de autocuidado. Desenvolva alguma habilidade que lhe tire da rotina da casa, trabalho e filhos (se os tiver). E se a culpa aparecer, cuide dela e se precisar, peça ajuda profissional”.
 
DE PROFISSIONAIS À MÃES EM PERÍODO INTEGRAL
Adriana Baraúna Andrade é uma das mulheres que está lidando com diferentes conflitos simultaneamente. Fisioterapeuta, ela está se adaptando a sua nova rotina, entre cuidados de casa, aula das crianças e alguns poucos atendimentos para se manter viva profissionalmente.
 
Por fatores os mais diversos, desde a segurança no atendimento à questões financeiras, o Espaço Terapêutico Surya, que ela gerencia em parceria com a mãe e irmã, fechou as portas depois de 20 anos de atendimento em Vilas do Atlântico. Enquanto isso, os profissionais do espaço, inclusive Adriana, aderiram a modalidade online, na perspectiva de reabrir o espaço no início do próximo ano.
 
“Nos primeiros três meses dispensei a colaboradora que me ajudava em casa e fiquei com os filhos. Adriano, meu esposo, ficou pouco tempo em casa, logo retomou as atividades normais de seu trabalho. No início achei bom ter mais tempo com os meninos, mas tudo que vem de forma impositiva, se transforma em sobrecarga mais na frente. Sou mãe, não sou pedagoga! Acompanhar as atividades online das crianças, um no 1º e o outro no 4º ano, tem sido uma grande desafio. Antes eu tinha uma rede de apoio, com minha irmã e minha mãe, mas hoje não posso mais contar pois elas também estão em isolamento. Sempre quis ser mãe, meus filhos foram programados, mas pouquíssimas mulheres de minha geração pensam na possibilidade de serem mães em período integral. Nunca foi a minha opção. Sou presente, participativa, mas tenho e amo a minha profissão”, desabafa.
 
A tripla jornada sempre foi pauta quando o assunto é mulher, mas a psicóloga Ana Martha, destaca que durante a pandemia essa realidade se tornou mais intensa, principalmente por conta das cobranças externas e internas quanto ao sucesso da realização dessas atividades.
 
“Essa exigência faz com que a realização das atividades, ou até mesmo a pendência de alguma delas, se torne pesada. É claro que cada caso deve ser analisado de forma única, mas de modo geral, é certo afirmar que a pandemia gerou uma sobrecarga para as mulheres, não apenas de trabalho, mas muito de emocional”.
 
Ana Martha reforça que neste momento o processo psicoterapêutico torna- se ainda mais relevante, contribuindo para o autoconhecimento e o desenvolvimento de habilidades comportamentais e emocionais que ajudam a lidar com os desafios. “Na prática de mindfulness (atenção plena), por exemplo, com cinco a 20 minutos diários é possível desenvolver a capacidade de maior abertura ao momento presente, lidar com a realidade que se apresenta e focar atenção no que realmente importa. Além disso, exercícios
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