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Legados da pandemia: O que muda no processo educacional no Brasil?

Thiara Reges - Em 05/01/2021

Inquestionavelmente a pandemia, que ainda não acabou, já deixa legados importantíssimos em vários segmentos da sociedade, quer seja por impulsionar o comércio para as vendas online e entregas delivery, quer seja por diminuir bruscamente o contato físico entre as pessoas, com menos abraços, ou ainda, por pressionar uma modernização do sistema educacional no país. E neste último tópico, as experiências vividas por discentes e docentes nos nove meses que se passaram mostram que muito ainda precisa ser feito.

Para entender um pouco como esta dinâmica de descobertas das novas formas de levar conhecimento aos estudantes têm funcionado para os professores, a revista Vilas Magazine ouviu a doutora em Educação e pós-doutora em Sociologia, e diretora da Universidade do Recôncavo (CAHL-UFRB, 2020-2024).

Para Dyane, o novo processo imposto pela pandemia fez com que ficasse ainda mais evidente a carência de formação para os professores, das redes pública e privada. “Já há algum tempo, temos problemas com a formação dos professores em diversas áreas, e no digital isso fica ainda mais evidente. O que a pandemia fez foi nos colocar, do dia para a noite, em um contexto de aulas síncronas e assíncronas, sem nenhum preparo quanto à familiarização com os novos conceitos e até a forma de nos portar neste ambiente – bem ou mal, apesar de todas as críticas, já temos uma ideia de como nos portar em sala de aula, mas não diante de uma tela”.

Ainda no que tange os desafios para os docentes, Dyane acrescenta ainda a acessibilidade, os equipamentos e o espaço físico em casa. “Muitos dos professores tinham equipamentos e conexão de internet suficiente apenas para seu uso doméstico, e a grande maioria não possuía um ambiente adequado dentro de suas casas para fazer a transmissão das aulas. Além disso, aqueles professores mais antigos, sem muito conhecimento de tecnologia e sem uma pessoa mais jovem em casa para os auxiliar, sofreram bastante”.

Outro ponto a se considerar é que a maior parte do corpo docente na educação básica é formado por mulheres, que passaram a dividir o tempo entre os cuidados, com as crianças ou com idosos, que por conta da pandemia precisaram desse suporte, além de todas as atividades domésticas. “Não podemos desconsiderar essa tripla ou quádrupla jornada a qual as professoras foram submetidas neste período”.

Segundo Dyane, para os estudantes os desafios se assemelham muito, sobretudo quanto a acessibilidade, equipamentos e conexão com a internet, o que fica mais evidente para os estudantes da rede pública e de baixa renda. E, mais do que nunca, é importante que seja dada uma atenção especial ao quesito evasão escolar. “Muitos desses estudantes de baixa renda, e tomo como recorte as universidades interiorizadas, passaram a vivenciar uma realidade familiar atípica, com pais perdendo empregos, fazendo com que a escola ficasse em segundo plano. Quando você soma a isso as questões de acessibilidade, internet e outros fatores, foi sem dúvida um período de grande desafio para a educação, sobretudo para a educação pública brasileira”.

Como muitos semestres ainda não encerraram, Dyane frisa que não é possível quantificar exatamente o índice de evasão, mas para além disso, já é possível afirmar uma queda brusca no aproveitamento. “Muitas vezes, no meu papel de professora, vi minhas alunas assistindo aula com filho no colo. Lembro de uma cena que me marcou muito, logo no início do semestre, com uma aluna, que por qualquer motivo a câmera abriu, e ela estava na beira do fogão, mexendo nas panelas, e a criança correndo de um lado para o outro. E neste momento, reivindico o meu terceiro lugar nesta história, onde além de professora e diretora, também sou mãe e vivenciei todo esse outro lado, de acompanhar as aulas remotas de meu filho, de nove anos, e ouvir ele dizer que não aguentava mais e estava com saudade de colocar a mochila no chão”.

Apesar de todas essas nuances, dando aulas pelo computador para “bolinhas” – muitos estudantes afirmam ter vergonha de abrir a câmera, por não ter em sua casa um ambiente adequado –, a educadora ressalta que é muito importante manter o vínculo entre instituição, professores e estudantes, como forma de reduzir os números da evasão escolar. “Foram vários os desafios, muitos estudantes se desencantaram por conta do novo modelo, fora isso temos todas as questões sociais e com certeza a evasão escolar vai assombrar a educação no Brasil por um tempo. Claro que todas as lições aprendidas até agora, já apontam caminhos a serem seguidos em 2021, que mais uma vez deve ser um ano de aulas remotas, e eu destacaria, dentro das universidades, a pesquisa e extensão, sobretudo a extensão, que deu um salto positivo neste período de pandemia, inclusive como forma de ampliar o contato da universidade com as comunidades”.

Como medida para reverter o quadro de evasão, Dyane entende que precisa existir uma ação concomitante entre inclusão digital e formação de docentes e discentes, ressaltando que muitos jovens usam a internet com frequência, mas não com o objetivo de aulas. “Se pensarmos bem, enquanto perdurar a pandemia, a própria formação teria que acontecer de forma remota. Logo, não tendo inclusão, não se tem formação. Vale destacar que neste período várias instituições abriram um edital de acessibilidade, onde era disponibilizado um recurso para aquisição de equipamentos e chips, com horas de acesso à internet, porém como os estudantes não tinham internet não ficaram sabendo do edital. Em vár ias universidades, por exemplo, a adesão foi baixíssima. Então perceba que estamos falando de um processo cíclico”.

De legado positivo, Dyane destaca sobretudo o acesso à cultura. “Em algum momento da história as universidades se encastelaram e consequentemente se afastaram das demandas da sociedade. O processo de universalização, a partir dos anos 2000, começou a abrir este olhar, mostrar para as universidades a importâ ncia de abraçar a comunidade. E me atentado especificamente a este ano de pandemia, vimos um grande avanço neste sentido. Quantas universidades disponibilizaram cursos online e gratuitos, em diversos segmentos; outras tantas abriram suas bibliotecas, disponibilizando livros e revistas para leitura online ou download; sem falar em todas as possibilidades de acesso à cultura, proporcionadas por escolas de belas artes, com apresentações culturais aos finais de semana, inclusive com conteúdo infantil, exposições virtuais de grandes artistas, apresentações de teatro e musicais, antes vistas de forma tão distante pela grande maioria, que às vezes se intimidava até pelo local, mas que em estando em casa, em frente a um computador, passaram a consumir este conteúdo que é tão importante. Essas experiências não podemos perder”.

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