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TERNO DE REIS: Lutando para sobreviver

Márcio Wesley, jornalista - Em 01/02/2021

A primeira vez que vi o Terno de Reis e o bumba-meu-boi eu tinha uns oito anos de idade, lá pelo comecinho da década de 1980. As cantigas, ao som dos instrumentos percussivos, tomavam as ruas de paralelepípedos do centro de Lauro de Freitas. As senhoras, com saias coloridas e chapéus de palha, cantando alegremente, sambando com admiração e marcando o ritmo com pequenas tábuas nas mãos, batendo forte uma contra a outra, ampliando as palmas com a clave do samba de roda.

A dança e os pulos indomáveis do bumba-meuboi eram uma coisa linda de se ver. O jubiloso cortejo cortava as ruas com sua poderosa arte e de vez em quando pausava em algumas casas para reabastecer a iluminada procissão com bebidas e comidas, tudo muito simples e belo.

Para falar sobre essa manifestação cultural, celebrada em 6 de janeiro, fui conversar com o amigo e historiador Emanuel Paranhos, 70 anos, filho querido de Santo Amaro de Ipitanga, um apaixonado pelo nosso município, nossa história e cultura.
 

Professor o que signifi ca a Festa dos Reis para o senhor e quando esta manifestação chegou em Lauro de Freitas? A raiz do Terno de Reis em Lauro de Freitas e em todo Litoral Norte vem do Recôncavo. Tive a sorte de conviver em uma família que apreciava esta importante manifestação cultural, tanto meus avós como meus pais. Minha mãe (dona Elza Paranhos) chegou a ser uma das dançarinas do Terno de Reis de Itapoan, ela era a ‘Bobina’, uma espécie de flor silvestre. Portanto, a Folia dos Reis tem um significado importante para mim, eu adoro. Há 30 anos tive a sorte de entrevistar dona Venú, na época já uma senhora octogenária e foi esta importante mestra que trouxe a tradição do Terno de Reis da Praia do Forte para Portão, ou seja, introduziu a manifestação cultural na comunidade de Portão, que ao longo dos anos passou por vários outros mestres e mestras, a exemplo da nossa saudosa dona Nicota. Atualmente a tradição se mantém viva em Portão com a nossa querida mestra Aidê dos Anjos e seu Terno Estrela-D’Alva. O Terno de Reis é também uma anti ga tradição da Vila de Ipitanga (Centro). Me recordo de um grande animador da ‘Festa das Burrinhas’, uma folia ligada aos festejos natalino, seu Joaquim do Espírito Santo. Temos ainda a nossa mestra Badinha, seu Balaeiro e Careca, com “As Matriarcas”, além de Artêmio da Luz, que através do Grupo Bambolê vem resgatando e mantendo a nossa memória cultural viva entre os mais jovens.
 

Na sua opinião, porque a manifestação do Terno de Reis vive esquecida? O Terno Reis não dá repercussão política, talvez por ser uma manifestação pontual e por isto padece com muitas dificuldades para se manter. Se o poder público não faz sua parte, como deveria, nós temos que fazer acontecer, reinventar e procurar meios para conservar a nossa cultura. Temos aí professor Gildásio Freitas, você, Márcio, que é nativo daqui, sua família e tantas outras pessoas da nossa cidade. Temos a responsabilidade de preservar a nossa cultura. A importância do Terno de Reis é enorme, representa a alma do nosso povo, uma tradição ibérica portuguesa com costumes cristãos, que ao longo dos anos incorporou a cultura indígena e africana. O Terno é uma manifestação coreograficamente linda, com suas canções tradicionais que são passadas de geração em geração. Por isso, é importante que as autoridades políticas, gestores da área cultural e da iniciativa privada incentivem e não deixem morrer as nossas tradições. Preservar esta e outras manifestações culturais é muito necessário para a nossa cidade. Nós, filhos da terra, precisamos estar atentos a isto.
 

A Festa de Reis tem características culturais distintas? Sim. O Terno de Reis em cada lugar congrega com a cultura local e/ou regional. O grupo de dona Aidê de Portão, incorporou as marisqueiras, uma particularidade local. Já observei também em outros grupos, floristas e ciganas. Os desfiles dos Ternos de Reis são divididos em alas, inclusive existem alguns historiadores que acreditam que a formação moderna das escolas de sambas tenha surgido por conta das alas dos Ternos de Reis. Esta manifestação cultural tomou grande proporção em nosso país, temos inclusive a famosa marcharancho “As Pastorinhas” (1934), música de Noel Rosa e João de Barro, o Braguinha: “A estrela d’alva, no céu desponta, e a lua anda tonta, com tamanho esplendor. E as pastorinhas, pra consolo da lua, vão cantando na rua, lindos versos de amor. Linda pastora, morena, da cor de madalena, tu não tens pena, de mim, que vivo tonto com o teu olhar”....
 

Obrigado professor pelo carinho de sempre. O senhor é uma referência para nossa gente.
Obrigado a você Márcio, um filho da terra e um jornalista apaixonado pela nossa cultura. Enquanto houver fôlego a gente está respirando. Eu e o professor Gildásio estamos na fase dos 70 anos, portanto é preciso fortalecer o que existe e despertarmos o interesse das novas gerações neste sentido. É importante e extremamente necessário que o poder público alinhe um amparo social e dê meios para que os nossos mestres e mestras da cultura popular possam manter viva a nossa cultura, a exemplo de dona Badinha, Aidê, Artêmio da Luz, Careca, entre outros. Infelizmente estamos em um ano atípico, por conta da pandemia, e entendemos a importância de não aglomerarmos. Mas é importante registrar, resgatar, financiar e apoiar nossas manifestações culturais, como o Terno de Reis,para que as novas gerações preservem e mantenham viva nossa cultura popular.

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