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Mestre Cafuné: “A capoeira representa um divisor de águas”

Márcio Wesley - Em 01/04/2021

Sempre que via aquele senhor de rabo de cavalo nas rodas de capoeira ao lado dos outros mestres e alunos, em encontros culturais, eu ficava pensando: aquele mestre tem um estilo rock and roll. Ele parecia um gringo bem evoluído na roda de capoeira.

Tempos depois, Raul Rodrigues, um amigo querido e jornalista de mão cheia, me contou que seu pai era o mestre Cafuné e me mostrou uma foto. Raul é a cara do pai.

Nossa conversa de hoje é com Sergio Fachinetti Doria, 82 anos, três filhos, três netos, marceneiro e mestre de capoeira. “Conheci Lauro de Freitas na década de 1980. Procurava um lugar tranquilo, comprei um pequeno sítio às margens do rio Ipitanga, que na ocasião era limpo e tinha peixes. Esta aquisição foi em sociedade com um amigo que também tinha o mesmo sonho. A sociedade não teve uma base de ideias muito firme e logicamente não deu certo, mas durante este período, alguns familiares vinham passar fins de semana comigo e se encantaram com o lugar, ao ponto de um cunhado adquirir também uma propriedade e, assim, mantive o lado afetivo por perto. Tempos depois, após ter um casamento desfeito, me mudei e aluguei uma casa na comunidade do Araqui, onde instalei minha marcenaria e vivo até hoje”.

Uma entrevista mudou o rumo da vida…
No ano de 1966, lendo o jornal A Tarde, me deparei com uma entrevista do Mestre Bimba, onde ele falava de seu trabalho com a capoeira e de seus alunos. Era uma narrativa encantadora, que me despertou uma imensa vontade de ir conhecer pessoalmente aquilo. O curioso é que eu nunca havia me interessado por lutas, sendo muito tímido, pequeno e magro. Jogava futebol pela ponta esquerda para ficar longe do tumulto.

O lendário Mestre Bimba…
Fiquei tão encantado com a história do Mestre Bimba que, na segunda feira seguinte à entrevista, fui lá conhecer sua academia. Peguei um ônibus e saltei na Baixa dos Sapateiros, subi a ladeira do Pelô com um medo danado e as pernas tremendo, encontrei a academia. Subi a escadaria que levava até o primeiro andar e lá bati numa porta fechada. Bati, um jovem a abriu e prontamente pedi para falar com o mestre. O jovem também prontamente me levou à sua presença, que estava preparando o início de uma aula. “Mestre, posso assistir à aula?” Ele me olhou sério, chamou o jovem que me atendera e disse-lhe: “bote ele lá fora e feche a porta” e continuou seus afazeres. Fui levado para fora, mas o pouco tempo em que permaneci no interior da academia deu para perceber o clima de intensa camaradagem e alegria reinante.

Do lado de fora, continuava a escutar e perceber aquela atmosfera que acontecia no interior. Fiquei parado, meio abobalhado e foi aí que notei uma plaquinha na porta com um aviso escrito: “visitas 20 e mensalidades 20 cruzeiros”, era o dinheiro daquela época.

Pensei, se vou pagar por uma visita o mesmo dinheiro de uma mensalidade, vou me matricular. E assim conheci a capoeira regional e o meu Mestre.

A paixão pela capoeira…
Foi transformador na minha vida e personalidade. Eu era tímido e medroso, sempre olhava para meus pés, não tinha coragem para me colocar na vida e me tornei um capoeira. Hoje participo de oficinas e palestras, algumas para mais de duzentos jovens. Viajei para mais de 18 estados e dezenas de cidades, até a Suíça a capoeira me levou.

A Fundação Mestre Bimba…
Formado na capoeira em 1967, hoje faço parte da Fundação Mestre Bimba e Filhos de Bimba Escola de Capoeira. A capoeira representa, para qualquer lugar onde chega, um divisor de águas, agregando centenas de jovens, muitos sem perspectiva de vida e alguns em situação de risco social. A capoeira compartilha sociabilidade, possibilidades de futuro e multiplicadores destas transformações.

As políticas públicas…
Pena que os governantes quase não percebem esta grandeza que é a capoeira e não dão o devido apoio. Muitos, quando se aproximam da capoeira, é com intenções de aproveitamento político.

O candomblé…
Hoje pertenço à religião das folhas, o candomblé. Nasci e fui criado na religião católica, mas li algumas filosofias como taoismo, budismo, confucionismo, entre outras. Estou perfeitamente bem nesta religião que está me proporcionando educação, disciplina, companheirismo e muito amor.

E o nome Cafuné?
O mestre marcava a festa do batismo, que acontecia num domingo na academia do Nordeste de Amaralina, para os alunos que já haviam sido batizados. Íamos participar da primeira rodada de capoeira completa, com o berimbau, dois pandeiros, cânticos, palmas e plateia. Era nesse dia que recebíamos nossos apelidos, que geralmente eram dados pelos colegas que já nos conheciam. Na minha vez o mestre falou: “este já tem apelido, sou eu quem vai dar”, e fiz então meu primeiro jogo numa roda completa. Ao terminar, ele falou: “o nome dele é Cafuné, ele não joga capoeira, ele faz Cafuné”. E assim nasceu a identidade que me acompanha até hoje na capoeira.

 

Fotos dos arquivos do Mestre Cafuné, Carol Garcia e de Mila Souza / Fundação Mestre Bimba.
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