De animais domésticos a coterapeutas: entenda os benefícios dos pets para a saúde

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hospital promove terapia com cachorros em lauro de freitas

Em minhas memórias sempre me recordo, com muito carinho, da presença de animais de estimação, cães e gatos, que conviviam juntos, sem nenhum problema. Minha mãe diz que “os cachorros ajudam na segurança da casa e os gatos, fazem a limpeza”.

Dos gatos preciso confessar que não lembro bem os nomes, mas dos cachorros, lembro até os que conheci ainda pequenininha: Rossi, Tico e Maria Tereza, mais conhecida como Teka. Essa ficou com minha mãe depois que mudei de Barreiras para Lauro de Freitas, e viveu por mais de 14 anos.

Nos últimos dez anos, depois que construí minha família, tive África, de quem me despedi em 2022 e Getúlio, que nos deixou em setembro. Agora divido minha atenção entre Lola e Gloria Groove, se bem que o correto seria dizer que recebo o carinho e os cuidados das duas. E quem tem animal de estimação, sabe bem do que estou falando.

amizades entre animais e pessoas

Sensíveis e inteligentes, através de uma gama de comportamentos perceptíveis aos seus tutores, com os quais já estão familiarizados, os pets conseguem se expressar, criando um vínculo de entendimento mútuo. Em casa, por exemplo, posso afirmar que as ‘minhas meninas’ sabem bem quando estou alegre ou triste.

Não é de hoje que a conexão entre pets e seus tutores é estudada. Uma pesquisa recente da Associação Americana de Psiquiatria, revelou que 86% dos tutores sentem que seus animais de estimação têm um impacto positivo em sua saúde mental e que cerca de 90% consideram o animal como um membro da família.

Alinhada a esse estudo, a médica veterinária Renata Del Bianco, ressalta que já foi comprovado cientificamente que ter um pet em casa traz benefícios à saúde, tanto na parte emocional quanto na física. Os benefícios podem ser percebidos em pessoas de diferentes idades, na companhia de diferentes pets. Tutores de felinos desenvolvem menor risco de morrer por ataques cardíacos, doenças cardiovasculares e derrames (Journal of Vascular and Interventional Neurology, 2009). Pessoas idosas que são tutoras de cachorros têm risco menor de desenvolver deficiências cognitivas e físicas na velhice (Plos One, 2022).

Suporte emocional e terapia

Não à toa, há mais de 65 anos a cinoterapia ou terapias assistidas por animais (TAA), método que utiliza cães e até mesmo outros animais como coterapeutas em sessões de terapia para diferentes patologias, vem sendo utilizada, de forma experimental, no Brasil.

Pioneira no tratamento humanizado para pacientes com transtornos mentais e apaixonada por gatos, a médica psiquiatra Nise da Silveira teria comprovado, em 1955, os benefícios da interação no convívio de seus pacientes esquizofrênicos com cães e gatos.

Em 2021, a Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara dos Deputados, aprovou o Projeto de Lei 682/21, que regulamenta a cinoterapia, porém ainda dependia de análise pelas comissões de Seguridade Social e Família e de Constituição e Justiça e de Cidadania.

“Toda pessoa que tem contato com um animal, independente da espécie e da raça, se beneficia do suporte emocional que essa relação proporciona, diminuindo fatores como a ansiedade, por exemplo”, reforça Del Bianco. “Cães, gatos, coelhos, jabutis, pássaros, podem ser animais de estimação e oferecer esse suporte emocional, sendo que essa conexão vai depender exclusivamente do animal e do tutor”, afirma.

animais atuam como suporte emocional e terapia para pessoas

Além disso, Renata destaca que existem animais e raças específicas, que possuem maior facilidade de treinamento, podendo atuar com patologias específicas. “Neste caso, estamos falando de cavalos, que são treinados para terapias motoras, por exemplo, ou os cães guias, onde são usados animais das raças labrador ou golden retriever”.

A médica frisa ainda que o benefício, seja do suporte emocional ou da terapia, não é apenas do humano, mas que existem cuidados necessários para não sobrecarregar o pet, como uma boa alimentação, um ambiente saudável e a visita regular ao veterinário.

“Por vezes, os animais podem absorver as condições emocionais de seus tutores, apresentando condições estereotipadas, como quadros depressivos e de automutilação. É importante estar atento, fazer o acompanhamento constante com o veterinário e se necessário entrar com tratamentos alternativos como acupuntura, florais, homeopatia, reiki”, concluiu.

Hospital Metropolitano incentiva Intervenções Assistidas por Animais

Em setembro, o Hospital Metropolitano, em Lauro de Freitas, recebeu a primeira visita de Thor, um cão preto da raça labrador, treinado para atuar na prática terapêutica de Intervenções Assistidas por Animais (IAA). Sob os cuidados da fisioterapeuta Paula Carneiro, Thor faz visitas, a cada 15 dias, aos pacientes internados na enfermaria da unidade.

O Hospital Metropolitano, unidade com atendimento 100% SUS sob gestão do Instituto Nacional de Tecnologia e Saúde, possui 265 leitos e equipe de assistência especializada nas áreas de alta complexidade em cardiologia e em medicina neurovascular, para atendimento de pacientes adultos.

Por conta das especialidades oferecidas, há muitas internações de médio prazo, de dois a quatro meses, o que aumenta a necessidade de cuidados emocionais para os pacientes. “A rotina hospitalar de recuperação costuma ser corrida e pesada, o animal traz um complemento para o brilho no olhar do paciente”, explica Ian Cunha, superintendente do Instituto Nacional de Tecnologia e Saúde e padrinho de Intervenções Assistidas por Animais.

animais atuam como suporte emocional e terapia para pessoas

Thor tem sete anos e trabalha como coterapeuta desde os três, um veterano em IAA, conhecido de alguns hospitais, clínicas e pacientes em cuidados domiciliares em Salvador. Sua tutora, Paula Carneiro, frisa que existe uma distinção entre a coleira, guia e roupa usadas na hora do passeio, das que são usadas para trabalhar, algo que é percebido pelo animal. “Quando nos aprontamos em casa para sair para o trabalho, ele já sabe e demonstra sua alegria”, pontua. “Durante a pandemia, período em que não atuamos, ele olhava para os acessórios e para a porta de casa, com um olhar entristecido, como se pedisse para ir trabalhar”.

Respeitando os limites do animal, a rotina de Thor possui mais dias de folga do que de trabalho. Cada visita aos pacientes dura em média 50 minutos, com muitos sorrisos e petiscos como recompensa.

Para a psicóloga Patrícia Viana, idealizadora da ação no Hospital Metropolitano, o objetivo da IAA é também resgatar os laços que os pacientes possuem com seus pets, em casa, contribuindo para o sentimento de positividade e consequentemente para uma recuperação. 

“Sabemos a importância em manter o estado emocional dos pacientes internados e dos seus acompanhantes o mais positivo e otimista possível. Os laços com os animais são transformadores. Acreditamos nesta sinergia e a trouxemos para o Metropolitano, de forma inédita, como mais um componente no processo de recuperação dos nossos pacientes”, explicou.

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