EMANCIPAÇÃO SEM MEMÓRIA: o que Lauro de Freitas tem a comemorar?

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jornalista, professor e conselheiro municipal de cultura de lauro de freitas

Em 31 de julho, Lauro de Freitas celebra 64 anos de emancipação política. A data costuma ser marcada por festas, homenagens e discursos oficiais. No entanto, entre os fogos e os palcos, uma pergunta insiste em permanecer sem resposta: o que sabemos, de fato, sobre a história da nossa própria cidade?

Passadas mais de seis décadas da emancipação, ainda é surpreendente a quantidade de moradores que desconhece aspectos fundamentais da trajetória do município. Poucos sabem quem foi o primeiro prefeito, quem compôs a primeira legislatura da Câmara Municipal ou como ocorreu o processo político que resultou na separação de Salvador. Menos ainda conhecem os debates e as controvérsias que envolveram a mudança do nome de Santo Amaro de Ipitanga para Lauro de Freitas.

A antiga Santo Amaro de Ipitanga carregava uma história construída ao longo de mais de quatro séculos, cujo nome reunia referências indígenas e portuguesas. Ipitanga, palavra de origem tupi, está associada às águas avermelhadas do rio que corta o território e que foi fundamental para os povos originários, para os primeiros colonizadores e para o desenvolvimento da região. Já Santo Amaro remetia à tradição religiosa trazida pelos portugueses.

Durante gerações, esse nome representou a identidade local. Tanto que, mesmo após a emancipação, muitos moradores continuaram chamando a cidade de Santo Amaro de Ipitanga. Meu avô fazia isso. Eu mesmo ouvi essa expressão inúmeras vezes durante minha infância e juventude: era uma forma de preservar uma memória que resistia ao tempo e às decisões políticas.

A escolha do nome Lauro de Freitas está ligada ao contexto político da época. O engenheiro Lauro Farani Pedreira de Freitas era um dos nomes mais expressivos da política baiana na época, amplamente cotado e apontado como favorito para assumir o governo do estado. No entanto, sua trajetória foi tragicamente interrompida em 11 de setembro de 1950, quando faleceu em um desastre aéreo em Bom Jesus da Lapa, em plena campanha eleitoral. A comoção provocada por sua morte e a força de seu legado ajudaram a sensibilizar setores políticos favoráveis à emancipação local. Assim, embora ele não tivesse ligação direta com o território, seu nome acabou sendo adotado como parte da estratégia que culminou na criação do novo município, iniciando também uma disputa simbólica com a identidade histórica da comunidade.

O mais preocupante é perceber que, passados 64 anos, essa história continua distante da população. Não existe um museu municipal dedicado à preservação da memória local. Não há um centro de documentação acessível ao público. Não existe um memorial da emancipação. As escolas pouco abordam esses temas, e as novas gerações crescem sem conhecer personagens, fatos e acontecimentos que ajudaram a construir o lugar onde vivem.

Estamos falando de um território com mais de quatro séculos de história. Um espaço marcado pela presença indígena, pelos engenhos coloniais, pela contribuição dos povos africanos escravizados e por uma rica formação cultural. Ainda assim, essa herança permanece invisível para grande parte da população.

Recentemente, um importante passo foi dado com o reconhecimento da participação do território de Lauro de Freitas nas lutas pela Independência da Bahia. Pesquisadores, historiadores e comunicadores contribuíram para trazer à luz documentos e evidências que demonstram a participação dos engenhos locais, de trabalhadores, de escravizados, de povos originários e da comunidade da região nos acontecimentos que culminaram na expulsão das tropas portuguesas em 1823. Esse reconhecimento deveria servir de inspiração para um movimento mais amplo de valorização da memória local. Entretanto, ainda faltam políticas públicas permanentes voltadas para a preservação e a difusão dessa história.

Ao mesmo tempo, observa-se uma crescente valorização da comunicação instantânea e da promoção pessoal na política contemporânea. Muitas vezes, ações que deveriam ser encaradas como obrigações administrativas são apresentadas como “grandes realizações”. Enquanto isso, temas estruturantes como cultura, patrimônio histórico, memória e educação patrimonial, seguem ocupando espaços secundários.

Não se trata de negar avanços ou desconsiderar esforços existentes. Trata-se de compreender que uma cidade não se desenvolve apenas com obras e eventos. Uma cidade também é alicerçada pela preservação de suas raízes, pela valorização de sua identidade e pelo respeito à sua trajetória.

Celebrar a emancipação política é importante. Mas celebrar sem conhecer a própria história é transformar uma data histórica em apenas mais um evento no calendário.

Talvez o maior presente que Lauro de Freitas possa receber em seus 64 anos seja justamente o resgate de sua memória. Porque um povo que desconhece sua história corre o risco de perder também o sentido de pertencimento. E sem pertencimento não existe cidadania plena, nem compromisso verdadeiro com o futuro.

Antes de comemorar mais um aniversário, talvez seja hora de perguntar: quem está contando a história de Lauro de Freitas e da antiga Vila de Santo Amaro de Ipitanga? E, mais importante ainda, por que ela continua sendo tão pouco conhecida pelos que vivem aqui?

MÁRCIO WESLEY é jornalista, professor e conselheiro municipal de cultura (sociedade civil), cadeira do Patrimônio Cultural.

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