Em 22 de março celebra-se o Dia Mundial da Água. Em Lauro de Freitas, essa data tem significado estratégico. Somos uma cidade-foz, marcada pelo encontro dos rios Joanes, Ipitanga e Sapato com o Atlântico, formando ecossistemas que sustentam as praias de Buraquinho, Vilas do Atlântico e Ipitanga. Aqui, a água não é apenas recurso natural – é base econômica, turística e identitária.
Mas os dados oficiais revelam um cenário que exige reflexão. Segundo o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), ano-base 2023, 45,42% da água tratada em Lauro de Freitas se perde na distribuição. As chamadas perdas de faturamento atingem 53,92%. Em termos práticos, quase metade da água produzida não chega de forma efetiva ao consumidor final ou não é devidamente contabilizada.
Perdas ocorrem desde a captação até a rede de distribuição – vazamentos, redes antigas, ligações clandestinas e falhas de medição. O impacto é ambiental e financeiro: cada metro cúbico desperdiçado representa energia elétrica consumida no bombeamento, produtos químicos utilizados no tratamento e investimento público que não se converte integralmente em benefício social. Não se trata apenas de vazamento de água – trata-se de vazamento de recursos públicos.
Cabe à Empresa Baiana de Águas e Saneamento S.A. (Embasa) – empresa de economia mista controlada pelo Governo da Bahia – prestar os serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário no município, operando sistemas de controle de perdas ao longo da produção e distribuição. A universalização com eficiência permanece como um dos grandes desafios estruturais do saneamento brasileiro, conforme estabelecido pelo Marco Legal (Lei nº 14.026/2020)*.
No campo do esgotamento sanitário, o desafio é ainda mais estrutural. Dados do SNIS indicam que apenas 40,5% da população municipal conta com coleta e tratamento de esgoto. No entanto, é preciso interpretar esse número com cautela. A Embasa informa os sistemas que opera diretamente e as soluções individuais – como fossas sépticas com sumidouro – ou sistemas condominiais não operados pela concessionária podem não estar integralmente contabilizados, segundo metodologia declaratória utilizada no sistema nacional.
O município, como titular do serviço, e a Agência Reguladora de Saneamento Básico do Estado da Bahia (AGERSA), deveriam manter cadastro atualizado dessas soluções e diagnóstico de sua adequação técnica. Sem esse controle, a cobertura real pode ser maior – ou menor – do que os percentuais oficialmente divulgados. A lacuna de informação dificulta planejamento, investimentos e regulação eficiente.
Paralelamente à atuação estatal, a sociedade civil também tem buscado protagonismo. A OSCIP Rio Limpo, que há mais de 14 anos atua na defesa dos rios da região, propõe a formação de um consórcio interfederativo entre os municípios da Bacia do Joanes, com participação da sociedade civil organizada. A proposta busca integrar gestão, educação ambiental e recuperação dos mananciais – reconhecendo que a água não respeita limites administrativos.
A degradação das bacias, impulsionada pela expansão urbana desordenada, lançamento de esgotos domésticos, desmatamento e atividades extrativas, compromete a segurança hídrica da Região Metropolitana de Salvador (RMS). Em uma cidade-foz, esse impacto é ainda mais sensível: o que ocorre nos rios repercute nas praias, no turismo, na pesca e na qualidade de vida.
Reduzir perdas, ampliar o tratamento de esgoto e fortalecer a governança interfederativa não são apenas metas técnicas. São medidas de responsabilidade fiscal, ambiental e social.
Em Lauro de Freitas, a pergunta não é apenas para onde vai a água que se perde – mas para onde queremos ir como cidade.
* O Marco Legal do Saneamento Básico (Lei 14.026/2020) define metas para que, até 31 de dezembro de 2033, 99% da população brasileira tenha acesso à água potável e 90% à coleta e tratamento de esgoto.
Hendrik Aquino é jornalista, especialista em Planejamento Urbano e Gestão de Cidades (Unifacs), MBA em Gestão de Projetos (Unijorge), mestrando em Desenvolvimento Regional e Urbano (Unifacs), bolsista Fapesb.



Parabéns Hendrik! Vamos divulgar este lindo trabalho de preservação…vc é a nossa voz nesse bairro abandonado….
Hendrik, essa reportagem esclarecedora sobre o Ecossistema e a abordagem sobre as perdas pela deficiência na distribuição de água tratada com total descaso ao tratamento de esgoto doméstico, pluvial e industrial é uma colaboração de alta performance muito produtiva.
E finalizou com a pergunta muito bem elaborado, “ Lauro de Freitas, para onde queremos ir?” Acredito que os assessores de uma boa Prefeita deveriam pegar o “gancho”.