Nas páginas da história de Lauro de Freitas, poucas trajetórias traduzem tão bem a essência da mulher baiana quanto a de Rita Barbosa da Silva, carinhosamente consagrada por gerações como Rita do Mingau. Natural de Maragogipe, no Recôncavo Baiano, ela carrega nas veias o DNA de bravura de sua mãe, que criou oito filhos vendendo cuscuz e “comida de ganho” nas feiras livres.
Ainda jovem, prestes a completar 16 anos, Rita desembarcou em Salvador para trabalhar como doméstica. O destino, contudo, já desenhava para ela um caminho muito maior. Anos mais tarde, trabalhando em uma padaria em Lauro de Freitas, um momento corriqueiro mudou o rumo de sua vida. Em um dia de folga em que aceitou ajudar no atendimento ao público, ouviu a reclamação inflamada de um cliente diante da falta de um mingau quente. Aquele desabafo não soou como crítica, mas como uma oportunidade de ouro.
Com visão empreendedora e uma coragem contagiante, Rita pediu permissão aos patrões para preparar e vender mingau aos finais de semana. Acordava às três da manhã para extrair manualmente o leite de coco fresco e preparar as iguarias. O sucesso foi imediato.
Quando decidiu alçar voo solo, ouviu o desdém daqueles que duvidavam da sua capacidade. Destemida, respondeu com o trabalho: pegou um carrinho de mão e passou a percorrer as ruas de Vilas do Atlântico – na época muitas ainda moldadas por chão de areia, cajueiros e pomares nativos.
Entre desafios e anjos protetores
Pioneira absoluta no segmento, Rita fundou a tradição do mingau na região há mais de quatro décadas. O caminho, no entanto, não foi isento de intempéries. Enfrentou concorrências desleais, perseguições e crises financeiras severas. Em momentos cruciais de provação, a fé e a solidariedade humana mantiveram sua estrutura de pé. Seja pela lembrança do cuidado com o jovem Rodrigo (filho adotivo), que a impediu de desistir nos momentos de maior desespero, pela paciência de fornecedores locais que confiaram no seu caráter quando o caixa estava zerado, ou pela generosidade do amigo sr. João – que a surpreendeu presenteando-a com uma barraca profissional na véspera do seu aniversário de 42 anos –, a trajetória de Rita sempre foi blindada por propósitos maiores.
“Aprendi a fazer do meu trabalho a minha vida. Enfrentei muitos ‘perrengues’, mas o sol nasceu para todo mundo. Se alguém quiser aprender a fazer mingau, eu até ensino, porque a sabedoria da vida é compartilhar”, reflete Rita com a generosidade que lhe é peculiar.
Legado multigeracional que acalenta o coração
Hoje, com ponto fixo na rua Praia do Tubarão (ao lado do posto de combustíveis de Vilas do Atlântico), a estrutura de Rita do Mingau vai muito além do tradicional mingau de milho, tapioca, carimã e mungunzá. Seu cardápio é uma verdadeira celebração da gastronomia afetiva baiana: inclui bolos artesanais sem farinha de trigo, salgados diversos, iguarias de fim de semana como feijoada e sarapatel, e o tradicional pão com queijo cuia. Todas as receitas mantêm o rigor do preparo artesanal, utilizando puramente o leite de coco natural.
A fidelidade do público é o prêmio maior dessa jornada. Na banca de Rita, é comum ver famílias inteiras reunidas – de avós a bisnetos –, além de clientes que moram no exterior e, ao pisarem em solo baiano, fazem parada obrigatória para reencontrar o sabor inconfundível da infância.
Com quase quatro décadas dedicadas a servir a comunidade de Vilas do Atlântico com carinho e sorriso no rosto, Rita Barbosa da Silva reafirma que a gastronomia popular é, acima de tudo, um ato de amor e acolhimento. Uma história viva de dignidade que orgulha e inspira toda a cidade de Lauro de Freitas.


