O Transtorno do Espectro Autista (TEA) ocupa hoje lugar de destaque no debate público, impulsionado pelo aumento dos diagnósticos, pela ampliação do acesso à informação e pela mobilização de famílias e profissionais em defesa da inclusão e do respeito à neurodiversidade. Apesar dos avanços, persistem desafios relevantes, como o diagnóstico precoce, a inclusão escolar efetiva, o acesso a terapias baseadas em evidências e o enfrentamento ao preconceito.
Para a psicóloga e musicoterapeuta Carol Sena, compreender o autismo para além dos estereótipos é um passo fundamental. “O espectro é amplo e cada pessoa autista é única. Quando a sociedade entende essa diversidade, conseguimos promover intervenções mais humanas, respeitosas e eficazes”, afirma.
A terapeuta ocupacional Rafaela Leal chama atenção para a importância do cuidado integral e individualizado. “As questões sensoriais, motoras e de autonomia impactam diretamente a rotina da pessoa autista e de sua família. O acompanhamento terapêutico adequado contribui para maior participação social, independência e qualidade de vida”, explica.
Já a fonoaudióloga Fernanda Orrico destaca a comunicação como eixo central do desenvolvimento. “Comunicação vai além da fala. Trabalhamos para ampliar as formas de expressão, compreensão e interação, sempre respeitando o tempo e as características de cada indivíduo”, pontua.
As profissionais são sócias de uma clínica de atendimento interdisciplinar a crianças, adolescentes e adultos autistas na região. Para elas, discutir o autismo na atualidade é reforçar a necessidade de políticas públicas, inclusão real e acesso contínuo à saúde e à educação. “Informação de qualidade e empatia transformam realidades”, concluem.
O debate também exige formação continuada de educadores, profissionais da saúde e ações permanentes de conscientização
Estudo propõe novo modelo para compreender a expressão do autismo ao longo da vida
Alguns neurotransmissores têm muita importância sobre as características do autismo que são manifestadas, afirma o psicanalista e mestrando em neurociências Adriel Silva, responsável pelo estudo juntamente com o Pós PhD em neurociências, Fabiano de Abreu Agrela
Um estudo publicado recentemente na plataforma científica Zenodo propõe uma nova forma de entender como o Transtorno do Espectro Autista (TEA) se manifesta nas pessoas.
O estudo foi desenvolvido pelos pesquisadores Adriel Silva e Fabiano de Abreu Agrela e sugere que o autismo não deve ser visto como um estado fixo, mas como uma condição dinâmica, influenciada por fatores neuroquímicos e pela capacidade de adaptação do cérebro.

Neurotransmissores e o autismo
A pesquisa parte da ideia de que neurotransmissores como dopamina, serotonina, GABA (ácido gama-aminobutírico, principal neurotransmissor inibitório do sistema nervoso central, agindo como um “freio” para a atividade cerebral, promovendo relaxamento, redução da ansiedade e melhoria do sono) e oxitocina exercem um papel central na forma como características do autismo se expressam no comportamento, na cognição e nas relações sociais. Em vez de uma manifestação rígida, o estudo apresenta um modelo matemático que demonstra variações graduais dessa expressão ao longo do tempo, de acordo com estímulos internos e externos.
De acordo com os autores, esse modelo ajuda a explicar por que algumas pessoas recebem o diagnóstico ainda na infância, enquanto outras só identificam o autismo na vida adulta. Fatores como adaptação social, aprendizado comportamental e o chamado “masking”, quando a pessoa mascara traços do espectro para se adequar socialmente, entram nessa equação.
Para Adriel Silva, o estudo contribui para uma visão mais humanizada do espectro. “O autismo não é um interruptor ligado ou desligado. Ele se expressa em diferentes intensidades ao longo da vida, dependendo de fatores neuroquímicos, ambientais e da própria plasticidade cerebral”, afirma o pesquisador.
Equilíbrio no cérebro
Outro ponto destacado pelo trabalho é a importância do equilíbrio entre excitação e inibição no cérebro. Alterações nesse sistema podem impactar desde o processamento sensorial até funções executivas e emocionais, ajudando a entender sintomas como sobrecarga sensorial, ansiedade e dificuldades sociais, comuns em pessoas no espectro.
Ainda em fase de pré-publicação, o estudo abre caminho para novas abordagens diagnósticas e terapêuticas, ao sugerir que compreender o funcionamento neurobiológico individual pode ser tão importante quanto observar comportamentos externos. “Esse modelo permite pensar o autismo de forma mais flexível, respeitando a singularidade de cada indivíduo”, destaca Adriel Silva.


