A idade em que uma mulher desperta para a maternidade não é apenas uma nova anotação em sua ficha médica; são descobertas sobre o seu corpo, cuidados com a saúde e redefinição das prioridades financeiras e profissionais. Mas será que existe uma idade certa para ser mãe? Historicamente, a ciência considera a faixa etária dos 20 aos 29 anos como a “idade ideal” biológica, mas, estatisticamente, não é o que tem acontecido. Nas últimas décadas, as mulheres estão adiando a primeira gravidez, com destaque para o crescente número de gestações após os 40 anos.
De 2010 a 2022, o número de brasileiras que se tornaram mães após os 40 anos cresceu 60% (59,98%), segundo dados do Censo Demográfico de 2022, o mais recente divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
A pesquisa aponta ainda que a idade média de fecundidade – indicador que revela tendências no comportamento reprodutivo, indicando, entre outras coisas, se as mulheres estão tendo filhos mais cedo ou mais tarde – passou de 26,8, em 2010, para 28,1, em 2022.
Segundo o IBGE, o aumento está relacionado a uma série de mudanças sociais, econômicas e culturais, a exemplo do aumento da escolaridade feminina, da maior participação das mulheres no mercado de trabalho e também do amplo acesso a métodos contraceptivos.

A fisioterapeuta Mirela Macedo faz parte dessa estatística. A primeira vez que ela pensou sobre maternidade, estava entre os 30 e 32 anos, mas, com a correria da vida profissional e outros fatores, a vontade esfriou. Aos 38 anos, já casada, retomou a ideia e decidiu ampliar a família, mas a gestação só veio seis anos depois.
“Ser mãe depois dos 40 anos foi plano de Deus e não escolha minha, pois já não tinha esperança. Inclusive, falava com meu esposo que, quando completasse 45 anos, ele teria que fazer vasectomia para eu não correr o risco de engravidar com idade tão avançada”, pontuou.
Com a vida profissional, familiar e financeira estável, Mirela destaca que ser mãe aos 45 anos possibilitou uma escolha consciente de se afastar do trabalho para se dedicar integralmente ao crescimento e desenvolvimento de Gabriel, hoje com 1 ano e 8 meses. Por outro lado, ela tem ponderado a ideia de ter outro filho.
“Mãe é santificação diária, é metamorfose ambulante guiada pelo maior amor que um ser humano pode sentir. Quando o Gabriel completar 2 anos, vou resolver essa questão de ter ou não outro filho. Na verdade, Deus vai decidir. Por meu marido, nós já estaríamos tentando desde que o Gabriel completou 1 ano”, contou.
Na curva dos 30: planejamento e maturidade
Os dados do Censo 2022 apontam para uma mudança demográfica drástica no Brasil: além de as mulheres estarem adiando cada vez mais a maternidade, elas também estão tendo cada vez menos filhos. A Taxa de Fecundidade Total do Brasil, que na década de 1960 chegou a ser de 6,28 filhos por mulher, em 2022 registrou 1,55 – índice bem próximo ao registrado em países desenvolvidos.
Os números apontam para uma tendência internacional, resultado da maior escolaridade das mulheres e da participação cada vez mais forte no mercado de trabalho. Como consequência, registra-se uma queda nos casos de gravidez na adolescência (15 a 19 anos), de 15,6% para 11,4% nos últimos dez anos – apesar de o índice ainda ser considerado alto –, e um aumento na porcentagem de mulheres que não têm filhos, passando de 10,0% para 16,2%.
Mas, para além de estatísticas e números, existe uma motivação biológica e o sonho de muitas mulheres relacionado à maternidade.

“Sempre sonhei em ser mãe e sempre fui uma mulher muito maternal. E, por eu ter uma mãe excepcional (e um pai também), sempre tive em mente o tipo de mãe que eu gostaria de ser para o meu filho – dedicada, zelosa e presente – e, por isso, esperei me sentir pronta para encarar a maternidade de corpo e alma”, contou a arquiteta Juliana Abdon, mãe aos 36 anos.
A gestação de Caio foi planejada, tranquila e transcorreu bem até o segundo trimestre. Durante os exames de pré-natal, a obstetra observou que o feto estava abaixo da curva de crescimento. Após repetir os exames, diagnosticou deficiência placentária e de cordão umbilical, recomendando a internação imediata de Juliana até o nascimento de Caio, prematuro extremo, com 29 semanas e 6 dias, pesando apenas 805 gramas – com desnutrição severa.
Caio já passou por uma série de intercorrências e algumas infecções. Por conta da displasia pulmonar grave, ficou entubado até completar os dois meses de idade e precisou passar por traqueostomia e gastrostomia para que pudesse ir para casa.
“Acho que, quando se é mãe (mãe de verdade, não apenas genitora), a gente encontra uma força dentro da gente que nem sabia que tinha, sabe? Falo isso por mim e por amigas que tive o prazer de conhecer na UTI neonatal. Depois que tive o meu filho, e nesse contexto todo de gestação de risco e prematuridade extrema, me descobri uma mãe leoa: guerreira, resiliente e extremamente devotada ao meu filho. Mas acho que a maturidade me ajudou, sim, a lidar melhor com as adversidades, além do apoio emocional do meu marido, pais e irmão”.
Juliana ainda precisa fazer uma investigação mais aprofundada para um diagnóstico fechado sobre o que ocasionou a deficiência placentária e de cordão umbilical e saber se tem chances de levar uma possível segunda gestação até o final.
“Tenho vontade, mas, entre ter vontade e planejar, existe uma distância enorme! Primeiro quero ver meu filho 100% recuperado, respirando sem oxigênio e sem traqueostomia! Quando conquistarmos isso, veremos se ele ganha um irmãozinho ou irmãzinha!”, pontuou.
Quanto à idade, ela acredita ser uma vantagem, pois a maturidade a permitiu se conhecer, lidar melhor com as situações adversas e ter mais equilíbrio emocional. A desvantagem fica por conta da pressão psicológica que toda mulher vive em relação ao “relógio biológico”.
“Ser mãe tem sido a experiência mais mágica e transformadora da minha vida. É entender que nem tudo são flores, afinal, enfrentamos um turbilhão de hormônios, sentimentos, medos, privações e sacrifícios, e parece que estamos sempre no limite do cansaço físico e psicológico, mas receber um simples sorriso e um olhar terno nos faz perceber que tudo vale a pena! Agradeço todos os dias a Deus pela dádiva divina de ser mãe”, concluiu.
20 x 40: muda tanto assim?
Entre as trocas de fraldas, noites sem dormir, mamadeiras, o cheirinho único e os primeiros sorrisos que nunca serão esquecidos, o que de fato muda quando se é mãe aos 20 ou aos 40 anos?

Por décadas os 35 anos de uma mulher foram vistos como um marco no que diz respeito à fertilidade: passada essa idade, a possibilidade de engravidar e manter uma gestação segura era quase impossível.
Essa linha de raciocínio é generalizada e não condiz com a realidade que estamos vivendo. Segundo o Censo 2022, o número de mulheres que se tornaram mães entre 30 e 39 anos, teve aumento de 19,7% (2010 à 2022).
Sim, a idade interfere, mas não é o único fator. Com as mudanças no estilo de vida e uma maior preocupação com o corpo e a saúde, as mulheres de 40 anos estão saudáveis e prontas para a maternidade.
A arquiteta Roberta Mathias foi mãe pela primeira vez aos 17, depois aos 20 e aos 23. Aos 40, já era avó. Mas, no mês de março, aos 41 anos, nasceu sua quarta filha, Cora.
“Como a maioria dos jovens, eu tinha pressa. Com meu primeiro filho, eu queria que tudo acontecesse logo: o primeiro banho de mar, os primeiros passos, a primeira papinha… Eu queria experimentar tudo e estava sempre ansiosa pela próxima experiência. No fim, a vida passou correndo, eles cresceram e tudo aquilo fez falta. Então, agora, com a minha quarta filha, eu aprecio cada minutinho; quero saborear lentamente o crescimento dela”, elencou.

Por outro lado, ela sente os efeitos da idade; o corpo aos 40 anos não é o mesmo de quando se tem 20: “A energia já não é a mesma e me pergunto se terei vitalidade para acompanhar todas essas aventuras com a minha caçula”.
Roberta ainda tem mais um ponto para equilibrar: a relação com a neta. “Eu ainda não sei administrar, mas tenho uma arma secreta: quando minha neta descobrir que na casa da vovó tem uma tia quase da mesma idade para brincar, pronto… vou virar o endereço favorito dela!”, contou aos risos.
E concluiu: “Ser mãe é amar além do limite. É colocar o bem dos filhos acima de si e descobrir que a maior felicidade está na felicidade deles. É ver cada conquista e sentir que toda entrega valeu a pena. É viver cansada e, ainda assim, encontrar forças onde parecia não existir mais nenhuma. É sentir o coração fora do peito, caminhando pelo mundo em outro corpo”.


