De veraneio a ‘mini cidade’, Vilas do Atlântico chega aos 46 anos

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bela vista da orla de lauro de freitas

Este mês, Vilas do Atlântico completa 46 anos. O bairro, que outrora foi visto apenas como um charmoso e tranquilo local de veraneio, transformou-se em uma moderna ‘mini cidade’, que concentra comércio de diferentes segmentos e variadas opções de lazer, mas também, por conta do ‘progresso’, problemas diversos.

vilas do atlantico na orla de lauro de freitas

A ideia do loteamento Vilas do Atlântico, divulgado sob o slogan de ser “a primeira comunidade planejada da Bahia”, foi da construtora baiana Odebrecht, e os primeiros lotes foram vendidos em 1979.

Com um planejamento inteligente, o conceito era unir uma boa infraestrutura urbana, que possibilitasse certa proximidade com centros de comércio e outros serviços, com a manutenção de áreas verdes e fácil acesso a opções de lazer, o que se reflete na qualidade de vida dos moradores. É um conceito que ainda hoje pauta o lançamento de novos empreendimentos residenciais.

“Isso aqui antes era uma fazenda que só tinha coco, mangaba e areia, e uma beira-mar fantástica. A construtora chegou com uma força muito grande, com planejamento, e fez asfalto com ruas largas, infraestrutura básica e telefone; o Vilas Tênis Clube, dando inclusive a possibilidade de a pessoa que comprava um lote se tornar sócia; dragou o rio Sapato e tinha até pedalinhos”, lembra o professor e empresário José Nilton, responsável pela abertura da primeira escola do bairro.

anuncio na imprensa baiana sobre o lancamento do loteamento vilas do atlantico

José Nilton conta que tudo fazia parte da estratégia da Odebrecht, desde a construção das primeiras casas, localizadas ao redor do Vilas Tênis Clube, vendidas para multiplicadores de opinião, até o convite para que empresas se instalassem no loteamento, com garantias, por contrato, de pagamento das custas enquanto as empresas se estabeleciam.

Além dos serviços básicos, a estratégia para conquistar novos moradores contemplava também as opções de lazer, sem falar na belíssima orla marítima, que por si só já era um grande atrativo.

O Eqqus Clube do Cavalo, antes localizado na av. Tancredo Neves, em Salvador, mudou-se para Vilas do Atlântico ainda no ano de 1978. O loteamento doou as terras, mas a construção e a manutenção ficaram a cargo dos sócios. Para arrecadar verba para a construção da estrutura, muitos eventos foram realizados, a exemplo do 1º leilão de cavalos da raça mangalarga na Bahia, que também serviram de atrativo para as vendas do loteamento.

Já o Vilas Tênis Clube foi construído do zero pela Odebrecht, com 40 mil m² de área, localizado em paralelo à beira-mar. “No início, o clube chamou muita atenção, vivia cheio; ter quadras de tênis em clubes era algo novo, além de piscinas, que muita gente usava depois de vir das praias, e o próprio rio Sapato, onde, além dos pedalinhos, era possível entrar na água e até pescar peixes e camarões”, conta José Nivaldo da Silva, presidente do Vilas Tênis Clube.

Bônus e ônus da modernização

Para o loteamento se consolidar, o processo de venda, dividido em 3 etapas e que começava pela fatia de terra mais próxima à praia, levou cerca de 10 anos. A virada aconteceu em 1989, durante a gestão de João Leão na prefeitura municipal. O prefeito implementou um novo valor de ISS, deixando o imposto mais baixo do que em Salvador, e isso garantiu que novas empresas se instalassem na cidade de forma acelerada.

primeiro circuito ciclistico de vilas do atlantico

“No início, o loteamento funcionava apenas para veraneio ou como dormitório de pessoas que estivessem trabalhando no polo de Camaçari. O grande problema era a oscilação. Quando o polo estava em alta, aqui também, mas quando enfraquecia lá, o mesmo acontecia aqui”, destaca o professor José Nilton.

A partir da década de 1990, Vilas do Atlântico deixa de depender do Polo Industrial de Camaçari e passa a ter vida própria.

As avenidas largas, com lotes grandes e casas de alto padrão e o sossego das caminhadas contemplando o mar, deram lugar a uma vida agitada, com comércio cada vez mais pujante.

Se por um lado isso reforça a modernidade com a qual o loteamento foi concebido, acompanhando as mudanças da sociedade, por outro potencializa problemas estruturais, gera impacto ao meio ambiente e diminui a qualidade de vida.

momentos marcantes da historia de vilas do atlantico

A pavimentação asfáltica, que data da época do lançamento, não foi concebida para ter o volume de movimento, circulação de veículos e ônibus que tem hoje.

As três entradas para o loteamento, seja pela av. Luiz Tarquínio – a principal –, rua Priscila Dutra (acesso a Buraquinho) ou pela rua José Ribeiro da Silva (acesso para a praia de Ipitanga), já não conseguem dar vazão ao volume de carros, sendo constantes os engarrafamentos nos horários de pico.

Quanto ao meio ambiente, apesar da manutenção de uma área de proteção ambiental (APA) no coração do loteamento e da recuperação do Parque Ecológico, usado como local de interação das crianças com a natureza e para a realização de pequenos eventos, as questões sanitárias carecem de atenção.

Marcelo Abreu, empresário e ex-prefeito de Lauro de Freitas, destaca que na ideia original do loteamento, as residências seriam unidomiciliares com sistema próprio de tratamento de resíduos, através de fossas e sumidouros. As primeiras residências seguiram este padrão.

Mas, com a explosão de Vilas, a fiscalização não foi tão efetiva. Hoje, casas e condomínios despejam esgoto in natura no leito do rio Sapato ou no córrego do Parque Ecológico, contribuindo para a poluição da Bacia do Joanes.

“Como o Rio Sapato recebe esgoto in natura, você tira as baronesas hoje e, em uma semana, estão de volta. Hoje, não se vê mais o leito do rio, apenas um pasto de baronesas. Eu já pesquei camarão no rio Sapato, pescava e comia. Ia com os meninos à noite, colocava a lata e, no outro dia pela manhã, ia buscar porque tinha camarão”, lembra Marcelo, saudoso.

Com forte aspecto residencial, a presença de bares e outras opções de lazer focadas em gerar atrativos para visitantes e turistas geram debates entre os moradores sobre a poluição sonora. Segundo levantamento do Movimento Chega de Poluição Sonora, são registradas, em média, sete reclamações por mês.

Mas uma coisa é consenso: quem mora em Vilas do Atlântico não pensa em se mudar. “Vilas tem uma história muito bonita e se mantém assim até hoje. O que nós, moradores, queremos é a preservação de Vilas, afinal, somos uma cidade de pequeno porte, com tantas exigências quanto uma cidade de grande porte”, conclui Marcelo.

Texto condensado do original da jornalista Thiara Reges.

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