“A crise não começou na pandemia”

    0
    443

    A pandemia do novo coronavírus, além de todas as questões relacionadas à saúde, mexeu em outras feridas da sociedade contemporânea, a exemplo da economia, ciência e tecnologia e educação. Sobre esta última, as dúvidas levantam debates sobre o retorno das aulas presenciais ou ensino domiciliar, a qualificação dos professores, o papel da tecnologia no ensino, a participação das famílias e o modelo educacional adotado por instituições públicas e privadas.

    Para o pós doutor em Sociologia, pela UFRJ, Luis Flávio Godinho, todos esses questionamentos são válidos e devem ser utilizados enquanto reflexão sobre qual o papel da educação, escolas e professores na sociedade. Não à toa ele acaba de publicar, em parceria com a pesquisadora Diana Costa, o artigo científico “A Pandemia da Covid-19 e repercussões sobre o trabalho docente”, uma discussão que é muito mais ampla do que entender como se deu a adequação dos professores, do ambiente presencial para o virtual.

    Começando pela análise do ensino domiciliar, cuja aplicação já foi cogitada inclusive enquanto política pública, Godinho destaca que existe um ponto positivo quanto a valorização do professor, visto que “os pais – e sabe-se que na grande maioria dos lares esse papel ficou com as mulheres -, assumiram a função de professora ou auxiliar de professora”, explica.

    Mas quanto ao processo de socialização do indivíduo, o sociólogo tem ressalvas. “Tenho minhas dúvidas se o ensino domiciliar deve ser adotado como uma política pública, até porque ele faz parte de uma política conservadora, com uma visão obscurantista de que o professor é um encaminhador de maus caminhos, visão muito perigosa, que pode ampliar questões sociais, como preconceito, racismo, intolerância, desigualdade de classe e gênero. Imagine qual será o entendimento geral de uma criança branca que só convive com pessoas negras, quando vai, por exemplo, a um hotel. Entendo a necessidade durante a pandemia mas acredito que seja fundamental, depois que tudo isso passar, que as crianças possam voltar para o ambiente da escola, viver a experiência desse terço de vida fora do jugo dos pais, fundamental para realidade mais plural, tornando-se assim membros de uma sociedade, e sociedade engloba muito mais do que apenas uma família”.

    Vale ressaltar que do ponto de vista de sociedade já existe um grande hiato comportamental, fortalecido pela questão econômica, no que diz respeito ao amadurecimento de pessoas de uma geração. “Em famílias de classe média alta, que se blindam em seus condomínios, reduzindo o convívio com as diferenças, é aceitável uma pessoa de 35 anos morar com os pais, o que os demógrafos chamam de adultescência ou adolescência tardia. Já em famílias de classe baixa, o índice cai para 18 anos. O ensino domiciliar poda a diversidade humana: quanto mais nos fechamos em uma bolha, mais aumentamos as diferenças sociais”.

    Apesar do momento atual ter despertado as famílias para a participação na vida escolar das crianças, antes da pandemia isso já acontecia, porém na relação cotidiana. “A educação é um fenômeno intergeracional, passa pelo entendimento que as famílias têm da educação e da escola e pelos estímulos que são fornecidos para a criança. As famílias que têm um capital educacional e cultural, formarão indivíduos mais hábeis e qualificados no futuro. O problema é que temos uma memória histórica muito frágil e acabamos por associar as conquistas futuras ao dom ou à genética, e nos esquecemos da importância do estímulo cotidiano”.

    Quanto ao currículo das escolas públicas, o que é ensinado, Godinho é enfático ao afirmar que o Brasil vive um fosso educacional de 200 anos, potencializado pelas diferenças político partidárias, ora progressistas ou conservadora. Agora, por exemplo, vivemos um período conversador, que começou em 2017 no governo de Michel Temer, período no qual foi aprovada a última reforma do ensino médio, validada pela Base Nacional Comum Curricular no governo Bolsonaro.

    Pela reforma ficou estabelecida a obrigatoriedade de três disciplinas – português, matemática e inglês -, e as outras disciplinas foram divididas em quatro áreas de conhecimento, linguagens e suas tecnologias, exatas e suas tecnologias, naturais e suas tecnologias e ciências sociais e aplicadas, onde cabe ao estudante optar por aquela com o qual tenha mais habilidade. Foram excluídas do currículo as disciplinas de filosofia e sociologia, educação física e artes.

    “Em 110 anos, filosofia e sociologia saíram do currículo nacional sete vezes, geralmente em momentos atrelados a governos ditatoriais, conservadores e elitistas. Filosofia e sociologia despertam a construção de pensamento crítico social, político e cultural; educação física, a construção do corpo; e artes, a construção de sensibilidade estética, emoções, visão de mundo”.

    Além de perigoso, do ponto de vista do conhecimento, o pesquisador destaca que o novo currículo corrobora ainda mais com as diferenças sociais entre estudantes de escolas públicas e privadas.

    “Vale destacar que esse currículo não está sendo seguido pelas escolas particulares, onde as crianças continuam tendo aulas de disciplinas que compreendem todas as áreas de conhecimento, e vão além. Tem escolas particulares que já agregaram ao currículo disciplinas que despertam o interesse por robótica, algoritmos e o faça você mesmo”.

    A grosso modo, é possível afirmar que ao excluir do currículo as disciplinas que estimulam o pensamento crítico acabamos por transformar os nossos jovens em reféns dos ensinamentos de fake news e redes sociais.

    “Agora mesmo, estamos vivendo um momento onde ouvimos diariamente o “abecedário” da pandemia, que vem preenchendo o vocabulário das pessoas com vários termos científicos de diferentes áreas do conhecimento: da Saúde, da Biologia, da Medicina, da Economia, da Matemática, da Física, da Química, da Comunicação Social, das Ciências Sociais, do Serviço Social, etc. Perceba como a vida é tão complexa, e pergunto: será que vamos saber lidar com as questões de mundo se a grande maioria da nossa população é submetida a um currículo onde só se ensina portugês, matemática, inglês e uma quarta área de conhecimento, onde a criança com seus 14 anos tem que ter maturidade suficiente para escolher aquela com a qual ela tenha mais afinidade e que proporcionará que ela siga uma carreira no futuro?”

    Um dos termômetros que mostram o quão prejudicial é a mudança no currículo é o próprio Enem, uma prova que mede os conhecimentos e estabelece uma disputa entre os jovens por uma vaga na universidade. “O Enem deste ano foi um verdadeiro epistemicídio. Não dá para estabelecer uma relação de igualdade entre estudantes de escola particular e os de escola pública, visto que estes últimos nem sequer tiveram aula. Não estamos falando de falta de disposição do jovem em aprender, mas em falta de chip e de dispositivo para se conectar na internet. Dessa forma estamos caminhando em uma direção onde o ensino superior voltará a ser um privilégio da elite dominante”.

    Citando o autor José Murilo de Carvalho, Godinho alerta para o fato de estarmos vivendo hoje uma ‘estadania’, onde responsabilizamos o Estado pela nossa vida, deixando de lado a cidadania e o nosso protagonismo dos fatos. “Nesse sentido é importante perceber que a educação de um povo é uma questão estratégica para governantes e a perpetuação do poder, de modo que, quando nos isentamos dos problemas sociais, deixando de opinar e de até de votar, estamos abrindo mão do processo de exercer a cidadania”.

    DEIXE UM COMENTÁRIO

    Por favor digite seu comentário!
    Por favor, digite seu nome aqui