Lauro de Freitas : Qual o sentido da nossa emancipação?

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avenida beira rio em lauro de freitas
Foto: Lucas Lins

O emblemático ano de 1962 é, sem sombras de dúvida, um divisor de águas na história de Lauro de Freitas, do Brasil e do mundo. Dois anos antes do golpe civil-militar, que mergulhou o Brasil em um período de extremo autoritarismo e negação dos direitos civis e sociais, emerge na geopolítica local a cidade de Lauro de Freitas, onde antes era o histórico distrito de Ipitanga, onde fora fundada a Freguesia de Santo Amaro do Ipitanga.

No mesmo ano da emancipação de Lauro de Freitas, cresce a guerra entre comunistas e capitalistas, João Goulart chega ao poder com a renúncia de Jânio Quadros e o Brasil se destaca no futebol com a consagração brasileira em mais uma Copa do Mundo, realizada, desta vez no Chile. Ainda nesse ano o Cinema Novo apresentava as mazelas sociais da nossa sociedade de uma forma nunca antes vista.

Mas o que levou o distrito de Ipitanga a se transformar em uma cidade emancipada? Por que a cidade recebeu o nome de Lauro de Freitas? Quais foram as consequências dessa mudança?

Para que possamos fortalecer a nossa identidade enquanto povo e sermos sujeitos narradores da nossa própria história, faz-se necessário buscar respostas para essas e outras perguntas.

Na condição de distrito de Salvador, Santo Amaro de Ipitanga era uma localidade carente de políticas públicas, sobretudo nas áreas de educação, saúde, segurança e urbanização.

Assim, começou a florescer no coração dos nativos um desejo de separar o distrito da capital. Pois, uma vez emancipada, a região poderia trilhar os caminhos do progresso.

Nesse contexto, surge no cenário o político Paulo Moreira, vereador de Salvador, filiado ao PSD, que abraçou esse desejo dos nativos e o transformou num projeto de lei, embora não tenha encontrado, a princípio, base política para aprová-lo.

Então, engedrando uma estratégia para sensibilizar seus pares, resolveu atribuir à nova cidade o nome de Lauro de Freitas.

Lauro Farani Pedreira de Freitas foi um político bastante conhecido na década de 1950, quando, candidato ao governo do estado, morreu em um trágico acidente de avião, provocando grande comoção popular na época.

Formado em engenharia civil na Escola Politécnica da Bahia, foi desenhista e inspetor de obras de arte e professor de cosmografia e geofísica do Ginásio da Bahia, mas se destacou como diretor da Viação Férrea Leste Brasileiro.

Com essa biografia, ao homenagear Lauro de Freitas, o vereador Paulo Moreira conseguiu, em 1962, aprovar o projeto de lei que criou a nova cidade. A questão foi que os nativos não gostaram da mudança do nome, pois para eles a expressão “Santo Amaro de Ipitanga” representava mais a cultura local. Esse sentimento até hoje é perceptível em todas as camadas dos moradores.

Houve alguns protestos, mas nada impediu a oficialização do nome, nem mesmo a militância aguerrida do poeta Tude Celestino, uma das maiores expressões da literatura local, que recusava mencionar nos seus escritos o nome da nova cidade

Nas últimas décadas, este território passou por um conjunto de transformações em sua organização social, econômica e política. De acordo com dados do IBGE, a cidade experimentou um intenso crescimento demográfico e, sua população, de aproximadamente 10 mil habitantes em 1970, passou para 113 mil pessoas em 2000. Atualmente, Lauro de Freitas, com mais de 220 mil habitantes, é uma das cidades mais ricas da Bahia e de maior densidade demográfica.

Com o surgimento de grandes loteamentos, como Vilas do Atlântico, Miragem, do Condomínio Parque Encontro das Águas, a chegada do metrô, a construção do Parque Shopping da Bahia, entre outros empreendimentos, o município tornou-se “a menina dos olhos dos políticos”.

Mas o que todo cidadão laurofreitense espera é que este intenso crescimento econômico seja acompanhado de políticas sociais eficazes, na área da educação, cultura, saúde, meio ambiente e planejamento urbano. Assim, o governo municipal têm o imperativo ético de oferecer para sua população aquilo que o grande economista chileno Max-Neef julgava essencial para o desenvolvimento humano, a saber: proteção, lazer e trabalho decente. Caso contrário, perderemos o sentido maior da nossa emancipação: crescer com qualidade!

TÁSSIO S. CARDOSO é Pós-doutorando em Difusão do Conhecimento pela UFBA. Mestre e Doutor em Educação pela UNEB.

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