Jogos de tabuleiros, pequenas partidas de vôlei ou futebol na quadra e as rodas de conversas e músicas, agora ocupam o pátio do Colégio Perfil, em Vilas do Atlântico, no intervalo entre as aulas. Desde a restrição do uso de celular nas escolas públicas e privadas em todo o país, seguindo orientação da Lei Federal nº 15.100/2025, momentos de interação social, brincadeiras e até a redescoberta do prazer de ler um livro, vem ganhando espaço entre os jovens.
“Eu já não trazia o celular para a escola então não mudou tanta coisa pra mim. Agora eu estou usando mais os jogos de tabuleiro com os colegas, indo mais à quadra, que eu não ia tanto antes e leio meu livro. Na minha rotina o que mudou foi que o conteúdo que eu lia pelo celular antes, agora eu leio no livro. Acho que estamos conversando e nos comunicando mais”, contou Anne, estudante do ensino médio.
A abertura para mais momentos de comunicação também foi percebida pelo seu colega de ensino médio, André Luiz.
“Percebi que a interação entre os estudantes aumentou muito, além de eu estar conseguindo jogar jogos de tabuleiro com muito mais pessoas no intervalo. Achei que poderia impactar negativamente na comunicação, mas ao contrário disso, alguns estudantes que ficavam mais reclusos por causa do celular anteriormente passaram a interagir bem mais com os colegas na sala”.
Na unidade, de um modo geral, as primeiras impressões da aplicação da lei são positivas. Fabiana Maynart, Gerente de Coordenação de Relacionamento do Colégio Perfil, explica que num primeiro momento, muitos alunos expressaram dificuldade em imaginar um intervalo sem seus celulares, mas essa resistência durou muito menos do que se imaginava. Em uma ou duas semanas, o que a escola presenciou foi um movimento transformador nos espaços de socialização, com os estudantes interagindo mais entre si, inventando novas brincadeiras e explorando atividades físicas.
“Esse retorno ao brincar não apenas trouxe vida aos nossos intervalos, mas também gerou um ambiente propício para o desenvolvimento de habilidades sociais essenciais. Observamos que os alunos estão redescobrindo o prazer de socializar, superando a ansiedade e desenvolvendo autonomia, empatia e escuta ativa. Eles estão aprendendo a colaborar, a tomar decisões em grupo e a cultivar um senso de justiça, vivenciando, assim, as lições naturais que o brincar proporciona”, frisou.
Mesmo que a lei só tenha entrado em vigor este ano, o debate é antigo e muitas unidades de ensino, em todo mundo, já vinham adotando medidas restritivas em relação ao uso de celulares nas escolas, sobretudo desde 2023, quando da divulgação do relatório da Unesco, órgão das Nações Unidas, que apontava para os impactos negativos à saúde mental, bem como no processo de aprendizagem, memória e compreensão.
Fabiana acrescenta que desde a adoção de medidas mais restritivas, a unidade observou uma diminuição significativa no índice de cyberbullying e, consequentemente, no bullying em geral.
“Com mais interações face a face, as crianças estão aprendendo a lidar com suas emoções e a compreender as dos outros, desenvolvendo habilidades de resolução de conflitos de maneira saudável e construtiva. E estamos entusiasmados com o que observamos até agora: nossos intervalos estão repletos de vida, risadas e conexões humanas autênticas”, concluiu.
Estratégias para adaptação
Sem estabelecer diretrizes quanto à sua aplicação, colocar em prática a nova lei que restringe o uso de celular é um desafio comum para todas as unidades escolares, seja ensino privado ou público.
Diferentes estratégias têm sido adotadas e cada unidade estabelece suas rotinas, regras e até punições para quem desobedecer.
No Colégio Estadual Américo Simas, no centro, a responsabilidade é compartilhada e a escola não recolhe nenhum celular. Cada estudante deve manter o aparelho na mochila, em modo avião, e as exceções de uso, quer seja do celular ou dos seus acessórios, a exemplo de fones de ouvido ou abafadores para alunos que estão no espectro autista ou possuem comprovadamente uma sensibilidade a ruídos, são analisadas pela coordenação, caso a caso.
“Estamos cientes que é um processo de readaptação. São jovens, de 14 a 18 anos, que conviveram por toda a vida com aparelhos celulares e agora estamos dizendo ‘não pode!’. Claro que nesses primeiros meses de aula já flagramos estudantes com o celular, mas tudo tem sido conduzido com muito diálogo, se necessário, com a presença do responsável”, pontuou Glassuede Venesa dos Santos Silva, Coordenadora Pedagógica do América Simas.
Ainda segundo a coordenadora, a avaliação desse início de ano é positiva, visto que o índice de conflitos e desconforto por conta do uso celular, até o ano passado, era muito grande. A importância da aplicação da lei vem sendo reforçada continuamente, através dos diálogos em sala de aula, e o reflexo já é percebido na diminuição da ansiedade e maior envolvimento dos alunos com o conteúdo ensinado em sala.
“Eu percebi que depois da restrição do uso de celular, alunos e professores estão se entendendo melhor em sala de aula. Não tem mais interrupções por conta de aluno assistindo vídeo, por exemplo, e o desempenho melhorou muito”, completou Larissa, aluno do ensino médio do Américo Simas.
Para facilitar a adaptação, assim como no Colégio Perfil, a unidade disponibiliza jogos de tabuleiro e materiais lúdicos para uso dos estudantes durante o intervalo.
“Os alunos sempre se misturaram muito durante o momento do intervalo e já existia de nossa parte a preocupação em oferecer jogos de mesa ou jogos de tabuleiro. Porém, até o ano passado, essa interação era toda em torno do celular. Então a grande mudança que percebemos foi um número maior de alunos socializando através do jogos. Mas acredito que seja possível melhorar ainda mais esses momentos de socialização, com a oferta de novas atividades, e estamos trabalhando nisso”, concluiu Glassuede.


